Deir Mar Musa, continua e cresce o sonho do padre Paolo Dall'Oglio

Deir Mar Musa (Foto: Bernard Gagnon | Wikimedia Commons)

27 Julho 2022

 

Esta é a história de uma ausência. Dramática e dolorosa como acontece quando se trata de um fundador. Mas é também a história de uma presença. Que se fortalece espiritualmente dia após dia. Fortalecida pelas raízes da nova vida que traz consigo. As duas dimensões, de modo algum contrapostas, convivem na experiência de Deir Mar Musa, a comunidade monástica nascida na Síria da vocação do padre Paolo Dall'Oglio, o jesuíta sequestrado em Raqqa, talvez por terroristas do Daesh, o autoproclamado Estado islâmico, em 29 de julho de 2013.

 

A reportagem é de Riccardo Maccioni, publicada por Avvenire, 26-07-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Desde então o fundador está fisicamente ausente, mas continua sendo uma referência essencial para a vida cotidiana, na oração como no diálogo inter-religioso, mesmo nas escolhas comunitárias mais simples e pequenas. Tudo isso é contado com grande competência por Francesca Peliti no livro Paolo Dall’Oglio e la Comunità di Deir Mar Musa. Un deserto, una storia (Paolo Dall’Oglio e a Comunidade de Mar Musa. Um deserto, uma história, em tradução livre) que acabada de ser publicado pela Effatà (384 páginas, 24 euros).

 

Capa do livro Paolo Dall’Oglio e la Comunità di Deir Mar Musa (Foto: Divulgação)

 

A autora, hoje envolvida na fazenda familiar após uma longa experiência no setor editorial e de comunicação, construiu-o como uma coletânea de testemunhos, através dos quais pulsa a história de um itinerário espiritual, de certa forma único. "Desde o dia em que Paolo Dall'Oglio, então jovem jesuíta, descobriu, num antigo guia da Síria, a existência de Deir Mar Musa al-Habashi - explica Peliti - há muitas pessoas cuja existência foi mudada pelo encontro com aquele lugar. Aquele projeto, aquela vocação. Mar Musa sempre teve o poder de atrair mesmo aqueles que não tinham uma visão clara de sua própria fé, sempre teve o poder de evocar o chamado, a vocação forte e especial pelos valores que encarna e dos quais Paolo Dall' Oglio se fez porta-voz".

 

Os testemunhos, aos quais se juntam algumas cartas do Padre Dall'Oglio (nesta página publicamos dois excertos), compõem um afresco de mil tonalidades em que a memória das origens se entrelaça com o hoje, de modo a evidenciar como a carga inovadora ligada à hospitalidade e ao encontro com o Islã, absolutamente não se esgotou. No máximo, mudou o perímetro de sua ancoragem, refinou o vocabulário da abordagem ao outro, mas sempre no signo da igualdade, respeitosa das diferenças, que é a marca do diálogo inter-religioso maduro, como o vivido nesse canto do deserto. Apelo físico e espiritual decisivo na escolha vocacional de Jaques Mourad, o primeiro monge que junto com Dall'Oglio fundou a comunidade de Deir Mar Musa, onde chegou em 1989. "O fato de viver no nada me atraia - ele explica -. Era a realização de um sonho muito antigo, porque para mim o deserto é o lugar onde posso experimentar um encontro livre com Deus”.

 

No relato de Mourad, está também a dramática experiência do sequestro, felizmente resolvida positivamente, mas muito mais emerge a importância da dimensão vertical, da relação com o Absoluto que motiva e dá sentido a tudo o mais. Outros testemunhos centram-se mais no fazer juntos, no mosteiro como lugar de passagem, ou melhor, de formação, encruzilhada de um itinerário que depois tomou outros rumos. “Os relatos de alguns eventos vocacionais são impressionantes - escreve o padre Federico Lombardi no prefácio -. Não é Paolo, não é o fascínio de um lugar. É Deus, mas a jornada é muito exigente. Para a maioria dos cristãos do Oriente pode-se conviver com os muçulmanos, mas é difícil dialogar realmente com eles, é difícil amá-los como

 

Deus os ama em Jesus Cristo. No entanto, esta é a verdadeira grande novidade que Paolo veio semear na terra da Síria”.

 

Hoje a comunidade de Deir Mar Musa conta com 8 membros, 1 noviço e 2 postulantes, além dos leigos que colaboram nos mosteiros de Deir Maryam al-Adhra em Sulaymanya no Curdistão iraquiano, e do Santíssimo Salvador em Cori, Itália. Uma realidade, portanto, pequena mas de grande significado, como pequenas flores que nascem solitárias mas depois, pouco a pouco, se multiplicam. Até perfumar todo o deserto.

 

Caros amigos e parentes (...) Passo alguns fins de semana por mês no mosteiro no deserto e, pela primeira vez, tenho uma ideia das condições de vida nas diferentes estações. Instalamos um fogão e montamos algumas portas e janelas rudimentares para que grupos de jovens pudessem vir a Mar Musa mesmo em pleno inverno. Algumas árvores foram plantadas (amendoeiras, figueiras e ciprestes): um gesto simbólico que olha para o futuro. Quando estou lá recebo as visitas mais díspares e cria-se um clima humano de confidência e isso fortalece-me na convicção da conveniência de uma permanência mais estável. O verão passado não foi fácil. Algumas dificuldades contingentes criaram um certo isolamento em torno do grupo dos jovens, seminaristas e não seminaristas, que viviam e trabalhavam comigo no mosteiro.

 

O carro também quebrou e tivemos que nos contentar com uma velha mula. No entanto, experimentamos a alegria de estar lá para Deus e para os irmãos, sem ter que medir o sucesso em termos de número de visitantes e benfeitores (...). Agora as coisas estão melhores (...) Com o pessoal de Nebek, o novo pároco, o bispo e meu superior, estamos avaliando os próximos desenvolvimentos do projeto.

 

 

 

 

O que me interessa é que não se perca de vista a ideia central: um lugar de oração, vida simples em comum, trabalho manual, a dimensão ecumênica enraizada na Bíblia, a relação de amizade com o Islã e com toda 'boa vontade' através de uma hospitalidade cordial combinada com uma competência específica. [...] Aqui muitos jovens pensam em emigrar, e com muita razão do ponto de vista individual.

 

Mas, na medida em que 'outros mundos' demonstrassem um pouco mais de interesse por um possível desenvolvimento positivo, não só econômico, mas também das instituições e das relações, dos países mais em dificuldade, e atenção aos valores que estes países pretendem veicular ou sustentar no consórcio internacional, então seria menos difícil, aqui, levar a cruz do nosso papel aos cristãos minoritários com alegria e um pouco de coerência. Muitos, nesse campo, os sinais de morte; talvez demasiado exigentes, até mesmo para quem tem fé, os projetos de vida.

 

E, no entanto, no fundo de nós mesmos, sentimos que a gratuidade é o caminho régio. Coloco nossa amizade no altar, pensando mais naqueles de vocês que sei que estão sofrendo muito no corpo e no espírito. Um abraço caloroso a todos, do vosso Paolo Dall'Oglio s.j.

 

As origens: a atenção aos jovens, a igreja com o telhado descoberto, o empenho social "em diálogo" (Beirute 1985)

 

Caros amigos e parentes (..) Morarei a partir de março de 1985, a maior parte do ano em Aleppo, no norte da Síria, onde conto desempenhar meu apostolado especialmente com os jovens, e onde espero estabelecer contatos na universidade. Mas o verão... vou passá-lo no mosteiro de Mar Musa al-Habasci (São Moisés, o Abissínio) em Nebek.

 

O caso começou em agosto de 1982. Eu tinha viajado por um mês com a Cáritas atuando como intérprete, na Síria e no Líbano, para o responsável que visitava os lugares da guerra na época do cerco israelense de Beirute. Aquele serviço havia me impressionado muito, e eu realmente me perguntava quais seriam a vias para semear a paz entre os filhos de Abraão e testemunhar o Evangelho.

 

Para fazer meus exercícios espirituais anuais, escolhi então ir ao mosteiro em ruínas de Mar Musa, a 18 km, cobrir uma parte do percurso a pé, a leste da cidade de Nebek, em uma área íngreme e deserta da Síria central. Habib, um membro muito ativo da pequena comunidade cristã siro-católica local à qual o mosteiro pertence, acompanhou-me e fiquei sozinho na igreja sem teto diante dos esplêndidos e sofridos afrescos medievais, testemunhas de um monarquismo florescente em pleno ambiente árabe-muçulmano.

 

Aquelas figuras sagradas, perseguidas por um vandalismo ignorante, tentaram durante os oito dias de meus exercícios, iniciar-me na vocação da minoria cristã na Síria. Agora ela não pode prescindir de um conhecimento existencial de Deus, de interioridade e transparência, de simplicidade de vida e disponibilidade ao sacrifício, de valorização de sua estupenda tradição, e ainda de abertura, de diálogo, de atualização. Os cristãos sírios terão que encontrar excelentes razões para permanecer em seu lugar e não emigrar. A melhor é a consciência de ter um papel a desempenhar para o bem de seu país, para com a Igreja, nas relações com seus amigos muçulmanos, e para uma evolução menos trágica das tensões norte-sul e leste-oeste centradas quase neste torturado Médio Oriente. Essa comunidade cristã é como uma relíquia preciosa e viva, cara a toda a Igreja, porque o que ela vive é especialmente significativo para toda a Igreja.

 

Mais ou menos esses mesmos conceitos foram o tema do meu encontro com os anciãos da comunidade de Nebek, no meu retorno do retiro, no dia da festa de São Moisés, o Abissínio; sobretudo, repeti-lhes o que era tão evidente no mosteiro: “Se uma igreja de pedras não é a expressão de uma comunidade viva, certamente irá à ruína; nosso mosteiro em ruínas nos chama a reconstruir uma igreja viva”. Dois anos depois, o povo da cidade se organizou e, inclusive com ajuda vindas um pouco de todos os lugares, conseguiu reconstruir o telhado da igreja e realizar algumas obras muito urgentes. Também participei dos trabalhos com alguns estudantes e seminaristas sírios e alguns jovens romanos das Comunidades de Vida Cristã.

 

Mas ainda há um trabalho imenso e muito urgente a ser feito, e estamos organizando campos de trabalho e oração para jovens, com o objetivo de criar um lugar de encontro e oração em Mar Musa. Falo no plural porque há o pessoal local e três seminaristas (Jacques, Bassam e Jihad), que gostariam de um dia dar vida ao mosteiro de forma estável, se o Senhor lhes der companheiros. Depois, há meus coirmãos jesuítas na Síria, que estão se empenhando de muitas maneiras para o sucesso desse projeto. Por enquanto, queremos manter o mosteiro aberto durante todo o verão: os jovens (e os menos jovens) virão para períodos mais ou menos longos, encontrando aqui uma vida mais organizada. Um trabalho importante será também o de acolher os peregrinos, tanto cristãos como muçulmanos, que continuam a chegar segundo a tradição.

 

Desejamos vincular o projeto Mar Musa a um empenho de evangelização (como a catequese nas aldeias e nos bairros mais periféricos) e de serviço social. De fato, é importante que as pessoas que passarem pelo mosteiro sejam orientadas para um empenho concreto para os irmãos. Para o empenho social, gostaríamos de privilegiar aquelas experiências que são realizadas em conjunto por cristãos e muçulmanos. Na medida do possível, Mar Musa tentará, também financeiramente, favorecer realizações concretas nesses campos; também dará uma mão para aqueles seminaristas que, tendo se tornado livres para o serviço do mosteiro, desistam de trabalhar durante o verão para pagar seus estudos no seminário. [...] Paolo Dall'Oglio s.j.

 

Paolo Dall'Oglio (Foto: Zrosen | Wikimedia Commons)

 

A antiga abadessa: nós vamos à missa, os muçulmanos rezam ficando do lado de fora. Mas depois do jantar cantamos Deus juntos (Houda Fadoul)

 

Venho de uma família inteiramente greco-católica: meu pai, que faleceu em 2019, era um homem rígido, pouco aberto ao diálogo com os ortodoxos e, para dar um exemplo, era importante que os casamentos ocorressem dentro da mesma religião. Nasci e cresci em Damasco, no bairro cristão onde não há muçulmanos e até a universidade nunca conheci nenhum. Sim, é verdade que eu tinha um pequeno grupo de amigos muçulmanos, mas eram alauítas, ismaelitas, que têm uma forma diferente de viver e também de praticar a religião.

 

Depois de três dias no mosteiro, algo aconteceu dentro de mim. Senti uma mudança na minha relação com Deus, senti que ele estava me chamando, me pedindo para ficar, mas eu estava trabalhando em um centro de pesquisa agrícola e não podia abandonar de repente meu lugar. No entanto, comecei a passar todas as minhas férias e feriados no mosteiro até que tive a oportunidade de deixar meu emprego por um ano inteiro. No começo eu estava com medo de fazer uma escolha definitiva, porque não queria perder meu emprego. Mas depois de me empenhar a sério no mosteiro, esqueci completamente do trabalho e minha relação com Jesus cresceu.

 

Em vez de ser uma relação infantil, ir à igreja e jejuar, tornou-se um compromisso pessoal para com Jesus e para com os outros. No mosteiro encontrei pela primeira vez os nossos amigos muçulmanos, famílias com crianças, jovens. Eu disse a Paolo: "Não tenho certeza se posso viver essa vocação porque nunca encontrei muçulmanos antes, então tenho que me esforçar por essa parte essencial da vocação ao diálogo". Aos poucos, compreendi que dentro de mim, por obra do Espírito Santo, a atitude em relação ao Islã e aos muçulmanos estava mudando, também graças ao ensinamento de Paolo e as suas explicações. Ele deu este exemplo: "O amor pelos nossos amigos muçulmanos se reflete em como se pode viver verdadeiramente como discípulo de Jesus".

 

Parece-me que percorri um belo caminho até os meus votos em 1998, para dedicar toda a minha vida ao Senhor. [...] Sobre o Islã, descobri que o que semeamos junto com Paolo, os cursos, as conferências, os encontros islâmico-cristãos, deram seus frutos durante a guerra. Nossos operários muçulmanos não quiseram nos deixar sozinhos porque diziam: "Se os fundamentalistas muçulmanos vierem, vocês não podem se defender". Todos esses anos que vivemos juntos, nos quais comemos juntos, compartilhamos a vida cotidiana, deram bons frutos, entre os quais a esperança.

 

O ISIS deformou a face do Islã e dos muçulmanos. O Islã não é assim. Para compreendê-lo é preciso tocá-lo com a mão, passar pela experiência cotidiana que tanto falta no Ocidente, porque a imagem que passa pela mídia e pelos livros é muito diferente daquela real. Vivemos com os muçulmanos.

 

Também graças às conferências que se realizavam todos os anos sobre o diálogo com o Islã, aos momentos de oração que passamos juntos quando, ao final do dia, vamos celebrar a Missa e a Eucaristia, enquanto eles permanecem do lado de fora da igreja e recitam suas orações. Mas no final do jantar no unimos nos cantos religiosos. Não se pode entender a relação espiritual dos muçulmanos com Deus, não se pode entender sem essa cotidianidade, sem a experiência de viver juntos. Cada um de nós vive a fé de uma maneira diferente, mas temos o mesmo objetivo, o mesmo propósito, que é a relação com Deus.

 

 

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