As guerras mentem e destroem. As “preventivas”, mais ainda. Artigo de Vittorio Possenti

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16 Julho 2022

 

O golpe preventivo que instaura um poder de guerra inquestionável e imprevisível não edifica nenhuma nova ordem mundial aceitável, mas corre o risco de destruí-la ainda mais.

 

O comentário é do filósofo italiano Vittorio Possenti, professor de Filosofia Política na Universidade Cà Foscari de Veneza, em artigo publicado em Avvenire, 09-07-2022. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Eis o texto.

 

“As guerras não restabelecem direitos, mas deslocam fronteiras e redistribuem poderes” (H. Arendt). É impossível ilustrar com mais clareza a realidade “cainítica” da guerra, enfeitiçada pelo poder e voltada a remodelar a ordem geopolítica mundial. Em vez disso, é preciso dizer: não nos acostumemos com a guerra, e muito menos com a guerra preventiva, na qual se agride primeiro para obter maiores chances de sucesso e de prostração do adversário.

 

Essa foi a estratégia russa no conflito contra a Ucrânia. Em entrevista concedida ao Corriere della Sera (8 de abril de 2022), Sergej Karaganov, ex-conselheiro presidencial de Yeltsin e de Putin, e ainda ativo no círculo dos putinianos, declarou, referindo-se a alguns anos atrás: “O conflito (com o 'Ucrânia) já estava se tornando provável. E vimos divisões e problemas estruturais nas sociedades ocidentais. Assim, o Kremlin decidiu atacar primeiro. Entre outras coisas, essa operação militar será usada para reestruturar a sociedade russa: ela se tornará mais militante, expulsando da elite os elementos não patrióticos”.

 

A “doutrina Putin” elaborada por Karaganov já teorizava em 2019 a invasão da Ucrânia. No discurso em Moscou de 9 de maio passado, Putin não desmentiu, mas endossou a assunção do primeiro golpe. Para justificar a invasão da Ucrânia, ele defendeu que “a Rússia reagiu preventivamente contra a agressão”. Ele se referia a um suposto ataque da Otan para invadir “as nossas terras históricas, incluindo a Crimeia; uma ameaça absolutamente inaceitável para nós, criada sistematicamente, diretamente nas nossas fronteiras. O perigo cresceu a cada dia; tratou-se de um ato preventivo nosso, uma decisão necessária e absolutamente justa, a decisão de um país soberano, forte, independente”.

 

A atual guerra preventiva não é a única do novo século. Na memória de muitos, permanece o ataque ao Iraque pelos Estados Unidos liderado pelo presidente George W. Bush (junto com alguns outros Estados). Ela começou em 20 de março de 2003 e terminou formalmente em 18 de dezembro de 2011, quando foi instaurado um regime oficialmente democrático, com a passagem dos poderes para as autoridades iraquianas, instaladas pelos Estados Unidos.

 

A principal intenção da guerra era uma “mudança de regime”: depor Saddam Hussein, odiado desde a Primeira Guerra do Golfo. O ataque se baseou em grande parte em uma suposição que se revelou falsa: a posse de armas biológicas por Saddam e a sua capacidade de produzir rapidamente mísseis que alcançariam e atingiriam a Grã-Bretanha em poucos minutos: foi o que Tony Blair declarou, apoiado por Bush Jr.

 

Como se sabe, uma missão de inspetores da ONU não descobriu nada que, segundo a CIA, deveria descobrir. Posteriormente, o secretário de Estado, C. Powell, tentou convencer a assembleia da ONU mostrando um pequeno tubo de ensaio, defendendo que continha antraz. Anos depois, Powell, sem cargos oficiais, admitiu o erro e considerou aquele discurso uma mancha na sua carreira. Em 2015, em uma entrevista à CNN, Blair também reconheceu em boa medida que havia errado.

 

A vitória militar estadunidense abriu um terrível período para o povo iraquiano, dividido em facções e entregue a uma guerra civil e a terrorismos que ceifaram um número bastante elevado de vítimas civis, além de causar uma instabilidade estrutural de todo o Oriente Médio que persiste até hoje. O ataque ao Iraque se baseava na nova doutrina estadunidense, teorizada na “Estratégia de Segurança Nacional” de setembro de 2002, um ano depois da tragédia das Torres Gêmeas do 11 de setembro, que atingiu o coração da nação estadunidense.

 

Nesse documento, afirmava-se que “a melhor defesa é um bom ataque”. Uma vez concebido o mundo como um composto de estados por Estados de bem e “Estados canalhas”, e ameaçado pelo terrorismo, a consequência era esta: “Não podemos deixar que os nossos inimigos atirem primeiro. Quanto mais for a ameaça, mais urgente será a necessidade de empreender uma ação antecipatória em defesa de nós mesmos, até mesmo na incerteza do lugar e da hora do ataque do inimigo”.

 

As duas maiores potências mundiais (até recentemente) não conseguiram escapar da maldição da guerra preventiva e, infelizmente, a ONU se mostrou impotente para sanar o fracasso. No Iraque e na Ucrânia, ela foi contornada como uma engenhoca inútil, a ser usada apenas quando necessário para os próprios interesses. Ninguém poderá esquecer a energia gasta por João Paulo II para evitar as Guerras do Golfo, às quais ele teve que se curvar amargamente, e a energia hoje posta em prática pelo Papa Francisco pela Ucrânia.

 

Aqui, a agressão produziu muitas vítimas militares e civis, e uma destruição sistemática de cidades (pensemos em Mariupol), territórios e infraestruturas. A invasão russa está se assemelhando cada vez mais às campanhas militares realizadas anteriormente em Grozny (Chechênia) e Aleppo (Síria). Em Aleppo, em 2016, Putin e Assad decidiram bombardear a parte da cidade sob o controle dos rebeldes com uma violência que tem poucos precedentes.

 

Na Ucrânia, a solução só pode ser política, e não militar. A atual inferioridade estratégica da Ucrânia (naval e aérea) poderia ser superada por novas armas ocidentais para tornar as forças em campo comparáveis de alguma forma e garantindo-lhe uma legítima defesa (não nuclear); a Ucrânia renunciou em 1994 às armas nucleares, as quais possuía em grandes quantidades após o colapso da URSS.

 

Merkel, a quem muitos olharam como mediadora, também abraçou a ideia de apoiar a Ucrânia contra os “novos bárbaros”. O caminho seria o de um cessar-fogo imediato para iniciar as negociações e depois chegar a uma conferência de paz e segurança europeia, algo semelhante a Helsinque 1975, com garantias para os atores em campo, naturalmente a partir de Kiev e Moscou. Mas quanto sangue ainda terá que ser derramado para se chegar a um resultado hoje improvável, mas necessário?

 

O golpe preventivo que instaura um poder de guerra inquestionável e imprevisível não edifica nenhuma nova ordem mundial aceitável, mas corre o risco de destruí-la ainda mais.

 

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