Guerra na Ucrânia e deportação de crianças: 300.000 foram arrancadas de seus pais

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23 Junho 2022

 

Outra noite, na TV oficial do Kremlin, Rossiya1, o âncora mais querido de Putin, Vladimir Solovyov, ostentou estes números sobre aquilo que chamou de “relocações” ou “evacuações” de cidadãos ucranianos para a Rússia: o número total é de 1,9 milhão, dos quais 307 mil são crianças. O dado da ONU é até inferior: no total, 1.230.800 ucranianos, com um número de crianças não especificado.

 

A reportagem é de Jacopo Iacoboni, publicada em La Stampa, 22-06-2022. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Os russos, mais uma vez, são paradoxalmente sinceros. Eles já exibem diretamente o que fazem, basta substituir a palavra “relocações” por outra: deportações. Até de crianças.

 

O fato de dizerem isso, porém, poderia levá-los a julgamento em Haia. Kevin Rothrock, da Meduza, explica que “Moscou apresenta a ação como uma obra humanitária, mas a admissão poderia servir como prova em um processo por genocídio, algum dia”. De acordo com a Convenção sobre o Genocídio de 1948, artigo II, seção E, separar os filhos dos pais configura juridicamente o crime internacional de “genocídio”.

 

Naturalmente, é preciso demonstrar que, além do fato, há a intenção. E aqui diversas pessoas, entre propagandistas, oficiais, altos dirigentes do Kremlin, estão dando uma mão espontaneamente. Falando ao Conselho Federal no dia 13 de abril, a senadora Lilia Gumerova mostrou-se horrorizada com o fato de muitas das crianças ucranianas “dos territórios libertados” – a Novilíngua do Kremlin chama assim as regiões e cidades invadidas e arrasadas – não falarem fluentemente o russo. Gumerova prometeu a organização de escolas de verão para liberar as suas línguas. Há o vídeo. Deportação e intenção.

 

A Interfax, a agência de Estado russa, forneceu outros futuros documentos processuais úteis, descrevendo assim o ritmo em que a deportação das crianças está ocorrendo: as “evacuações” começaram “no fim de fevereiro a partir de regiões perigosas da Ucrânia, as Repúblicas Populares de Donetsk (DPR) e de Luhansk (LPR).

 

Apesar de todas as dificuldades criadas pelas autoridades de Kiev, nas últimas 24 horas, sem a participação do lado ucraniano, 29.733 pessoas, das quais 3.502 são crianças, foram evacuadas para o território da Federação Russa a partir das regiões perigosas da Ucrânia e do Donbass. Um total de 1.936.911 pessoas desde o início da operação militar especial, das quais 307.423 são crianças”, disse Mikhail Mizintsev, chefe do Centro de Controle da Defesa Nacional da Federação Russa.

 

Mizintsev também falou da existência de um banco de dados russo – horror – que conteria mais de 2,7 milhões de pedidos daqueles que desejam se mudar para a Rússia a partir de mais de 2.000 assentamentos na Ucrânia e nos territórios da DPR e da LPR controlados por Kiev. Imaginemos o quão espontaneamente eles desejam isso.

 

Ele não é o único oficial russo que está se entregando ao futuro Tribunal Penal Internacional. Há uma mulher que está presidindo a operação-crianças. E ela já faz parte da lista de oligarcas ou altos burocratas estatais russos punidos no Ocidente: ela acaba de ser atingida pelas sanções britânicas por “tratamento bárbaro às crianças na Ucrânia”. Ela se chama Maria Lvova-Belova e, de acordo com o Reino Unido, é a “mente” por trás de um obscuro programa de sequestros.

 

Lvova-Belova é acusada pela Ucrânia de ter organizado a captura de mais de 2.000 crianças vulneráveis raptadas violentamente nas regiões de Luhansk e Donetsk, e de ter orquestrado uma nova política para facilitar as suas adoções forçadas na Rússia. De acordo com os ucranianos, Lvova-Belova supervisiona pessoalmente o trabalho do centro de coleta “Romashka” para crianças em Rostov, na Rússia, utilizado como um centro temporário para algumas das crianças ucranianas deportadas e geolocalizado a partir de várias fontes de código aberto. Se é possível defini-lo como um campo de concentração, isso será decidido pelos tribunais. De acordo com o conselheiro do prefeito de Mariupol, as crianças deportadas daquela cidade massacrada estão detidas ali, no vilarejo de Zolota Kosa.

 

Anastasjia Lapatina, do Kyiv Independent, relata que “os ocupantes de Kherson disseram que todas as crianças nascidas lá depois de 24 de fevereiro, assim como os órfãos, receberão automaticamente a cidadania russa”. Deportações e sequestros fazem parte de um processo que, de acordo com o Kyiv Independent, levou quase dois terços das crianças ucranianas a serem deslocadas internamente ou a fugir do país.

 

Afshan Khan, diretor do Unicef para a Europa e a Ásia central, declarou que “os números são assustadores”. O desafio logístico, como em todo genocídio, é enorme. O crime requer a sua máquina industrial. No dia 25 de maio, o próprio Putin assinou um decreto permitindo a concessão simplificada da cidadania russa para quem reside em Kherson e Zaporizhia.

 

Atores estadunidenses estão indo a Kiev pela defesa dos direitos das crianças, como Sean Penn, Angelina Jolie e mais recentemente Ben Stiller. Mas a máquina da morte e da deportação trabalha incessantemente. Fala-se tanto das frases de Dmitry Medvedev, mas um colega seu do Estado russo, o chefe da agência espacial Roscosmos, Dmitry Rogozin, teorizou no Twitter: “Se não colocarmos a palavra fim, porque infelizmente os nossos avós não os eliminaram, teremos que morrer”. O tuíte foi apagado apenas seis dias depois pelo Twitter.

 

Enquanto isso, Valentina Matvienko, presidente ultraputiniana do Senado russo, com uma mansão milionária confiscada em Pesaro, anunciou que enviará às crianças nas repúblicas pró-russas poemas infantis de Agniya Barto, fábulas do poeta Ivan Krylov e livros russos de história. Eles não estão as deportando, estão as evacuando e reeducando.

 

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