“A luta é um baobá”. Entrevista com Galo de Luta, entregador antifascista

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13 Mai 2022

 

O capitalismo é um sistema que não tem mais nada a oferecer ao povo senão a fome, a miséria e a morte. Sempre fez propaganda justificando a exploração dos trabalhadores. Nos últimos anos surgiu o fenômeno da uberização, uma nova forma de gerenciamento de serviços que aumentou a informalidade e fez o trabalhador perder garantias previstas por lei e arcar com todos os riscos da atividade profissional para ganhar o mínimo para sua sobrevivência e enriquecimento do patrão. Figuras como Paulo Galo surgem para denunciar e gritar contra a exploração da mão de obra, ganhando destaque em 2020 ao liderar o movimento Entregadores Antifascistas. Entrevistamos Galo para compreender melhor como essa luta é travada entre os próprios trabalhadores.

 

A entrevista é de Raíssa Uchôa, Matheus Portela, Lúcio Apoema e Isabella Tanajura, publicada por A Verdade, 12-05-2022.

 

Eis a entrevista.

 

Como foi seu processo de sentir a necessidade de se organizar enquanto categoria de trabalhadores que deu origem a tantas lutas importantes nos últimos anos e impactou grandes empresas?

 

Sou motoboy desde 2012 e trabalhei de 2012 a 2015. Em 2015 resolvi parar porque tinha sofrido dois acidentes, aí decidi que não ia arriscar minha vida para encher o bolso de patrão e fui fazer outras coisas. Em 2017 minha filha nasceu e eu não tive outra opção a não ser voltar a trabalhar como motoboy. Quando foi 2019, os aplicativos já tinham cercado muito e já não tinha mais trampo de carteira registrada de motoboy, e aí eu sofri um monte de bloqueios injustos até chegar dia 21 de março de 2020, no meu aniversário, quando o pneu da minha moto furou e a UberEats me bloqueou por causa disso. Aí eu iniciei uma série de denúncias, essas denúncias tomaram uma proporção e através da projeção eu comecei uma série de lutas que acabaram tendo esses impactos.

 

Alguns trabalhadores de aplicativos chegam a ter suas contas bloqueadas após participarem de greves e boicotes. De que maneira a organização dos Entregadores Antifascistas trata esse não-medo da sindicalização?

 

A gente lida da forma que pode ser lidada, né? Muitos entregadores têm um problema com o sindicalismo, através de todo o trabalho da burguesia de manchar a imagem do sindicalismo, né? Da luta dos trabalhadores. Eu falo que muitos entregadores tratam a carteira de trabalho como a nova “manga com leite” e acham que faz mal, que o excesso de direitos trabalhistas que tem no Brasil é algo que impede o avanço do próprio Brasil… Essas conversas do patrão que muitos trabalhadores compraram, né? A gente trabalha com essas contradições e tenta construir e organizar os entregadores dentro dessas contradições.

 

De que forma, enquanto líder de massa e referência na luta antifascista radicalizada, você busca juntar os trabalhadores assalariados aos entregadores antifascistas?

 

Eu sinceramente não me considero um líder de massa. Acho que o tempo da gente não é propício para isso, acho que o tempo que a gente vive tem feito as pessoas se posicionarem de outra maneira com a chegada das redes sociais. Eu vejo muito mais as pessoas querendo se apresentarem através das redes sociais do que alguém representando elas. Ninguém é capaz de representar a totalidade de ninguém. Imagina conseguir representar a totalidade de uma massa inteira, né? Eu não me considero um líder de massa, mas uma referência na luta antifascista eu acho que sim. Acho que eu acabei me tornando essa referência sim e fico feliz por isso porque é o caminho que foi buscado, né?

 

Os pequenos restaurantes e lanchonetes também são explorados na uberização, mantendo-se reféns de políticas de funcionamento arbitrárias desses aplicativos. Como você vê essa relação entre os entregadores e esses restaurantes? Como essas duas categorias podem se fortalecer e pensar em alternativas para além da exploração dos aplicativos?

 

Normalmente esses donos de restaurantes pertencem à classe média. É o mesmo desafio de conseguir fazer a classe média se entender como classe trabalhadora. Também faz o cara entender que não é porque ele tem uma hamburgueria, porque ele tá faturando 10, 15, 30 mil por mês que isso faz dele um burguês, né, mano? Ou que isso faz dele um cara que tem que ser descolado de nós, né? A gente sofre para fazer o trabalho e conseguir acessar porque a coisa está fragmentada. Dessa forma, conseguir convencer os restaurantes é quase que, neste momento, não vou dizer impossível, não, mas conseguir convencer os restaurantes seria um desafio maior até do que conseguir convencer os motoristas de aplicativos.

 

Recentemente foi exposto que a iFood realizou uma megaoperação para minar com sua imagem enquanto liderança. Como está sendo esse enfrentamento e quais os planos para uma maior radicalização da luta?

 

A gente já sabia que a iFood tinha esses planos, que as páginas “Não breca meu trampo” e “Garfo na caveira” eram possivelmente da iFood e a reportagem veio provar isso. Foi bom para gente conseguir provar várias coisas tanto para quem estava de fora como para quem estava dentro também. O plano deles era dizer para os entregadores, com infiltrados, que eu era um pré-candidato a vereador, ou candidato a qualquer outra coisa e tal e os entregadores têm um problema com a política, né? De no futuro toda essa luta não passar de um palanque, o que eu achava justo os entregadores pensarem assim, terem essa desconfiança. Preferiria que fosse de forma natural que a gente trabalhasse isso, mas não era. Tava sendo impulsionado pelo iFood e tudo mais. Conseguir trazer os entregadores para dentro da luta tem sido um sacrifício, radicalizar eles vai ser outro sacrifício, né? É um passo de cada vez. Não acreditar que a luta é um pé de coentro que nós vai plantar hoje e daqui 15 dias vai tá vai tá pronto. A luta é um baobá que nós vai plantar hoje e provavelmente vai demorar. Essa é a verdade para a gente conseguir ver a coisa na cena mesmo.

 

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