Papa Francisco em Kiev, um desejo que no domingo pareceu um pouco menos impossível. Artigo de Adriano Sofri

Foto: Vatican Media

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09 Março 2022

 

"Quando Putin diz o seu 'fazer tudo', ele quer que todos saibam com certeza o que isso significa, sem precisar nomeá-lo, para que seja ainda mais assustador: a guerra total, a arma atômica. A bomba atômica do Papa é uma peregrinação a Kiev? O que mais, se não isso?", escreve Adriano Sofri, jornalista e escritor italiano, em artigo publicado por Il Foglio, 08-03-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

Poderia o Papa Francisco ir à Ucrânia? E nós com ele? Esta é a pergunta feita por aqueles, e são muitos, que se perguntam se não seria possível levar para a Ucrânia, com seus próprios corpos, o protesto contra a agressão de Putin, a solidariedade com o povo ucraniano e o desejo de acabar com a violência e buscar a paz. “Vamos levar Woodstock para a Ucrânia”, escreveu-me um amigo. É um desejo normal, o mais normal, ainda mais para aqueles que têm o cuidado de não recomendar a rendição ao agredido, e ao mesmo tempo o desejo mais exposto aos desastres especialmente terríveis que as boas intenções produzem. (Procurem, por exemplo, se vocês ainda não conhecem, o verbete Cruzada das crianças em alguma Wikipedia). Imaginava-se que um ponto de apoio, o menos irreal, pudesse vir de uma viagem do Papa Francisco a Kiev, que obteria uma trégua e permitiria a grande parte das grandiosas praças cheias de jovens em Berlim, Praga, Tbilisi, Bruxelas, Milão e Roma, e também das intrépidas calçadas de São Petersburgo e Moscou, se juntar a ele, encontrar-se e encontrar.

Este desejo impossível, no domingo, pareceu um pouco menos impossível quando o Papa pronunciou a frase: “A Santa Sé está disposta a fazer tudo, colocar-se a serviço para esta paz”. O que significa "fazer tudo" quando quem o afirma é o Papa, este Papa? Fazer tudo: se gostaria de levar isso a sério. Quando Putin diz o seu "fazer tudo", ele quer que todos saibam com certeza o que isso significa, sem precisar nomeá-lo, para que seja ainda mais assustador: a guerra total, a arma atômica. A bomba atômica do Papa é uma peregrinação a Kiev? O que mais, se não isso?

Dizer isso explicitamente seria tanto uma imprudência quanto uma ilusão. Há um precedente menor: este Papa quis fazer uma visita a um turbulento Iraque em plena pandemia, apesar de todos o alertarem sobre os riscos para ele e para os outros e usassem todos os argumentos, até o último momento, para dissuadi-lo. Depois de proferir aquela frase, Francisco acrescentou no domingo que “nestes dias, dois cardeais foram à Ucrânia, para servir o povo, para ajudar. O cardeal Krajewski, esmoleiro, para ajudar os necessitados, e o cardeal Czerny, prefeito interino do dicastério para o serviço do desenvolvimento humano integral. Esta presença dos dois cardeais ali é a presença não só do Papa, mas de todo o povo cristão que quer se aproximar e dizer: 'A guerra é uma loucura! Parem, por favor! Olhem essa crueldade!'”. Cada um pode dar a interpretação que lhe parece adequada, e até mesmo permitir-se a imaginação que lhe parece mais encorajadora.

Finalmente, observo que o Papa também disse palavras que soam como um protesto contra a afirmação de Putin de chamar sua guerra de invasão de "operação militar especial" e punir duramente aqueles que a chamam pelo seu nome, guerra: "Na Ucrânia, se derramam rios de sangue e lágrimas. Não é apenas uma operação militar, mas uma guerra, que semeia morte, destruição e miséria. Acima de tudo, imploro que cessem os ataques armados e prevaleça a negociação e o bom senso também. E se volte a respeitar o direito internacional!" E acrescentou: “Rezemos juntos pela Ucrânia: temos suas bandeiras aqui na nossa frente. Rezemos juntos, como irmãos, à Nossa Senhora Rainha da Ucrânia”. A sua Nossa Senhora, as suas bandeiras.

 

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