Canonista alerta os padres para o ‘mundanismo espiritual’: preocupação excessiva com correção litúrgica, ortodoxia radical, vestimentas, carreirismo

Fonte: Pixnio

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

16 Fevereiro 2022

 

Antes de uma conferência de alto nível sobre o sacerdócio, o proeminente canonista jesuíta Pe. Gianfranco Ghirlanda alertou para os riscos das mídias sociais e o apego excessivo às devoções externas, enfatizando a importância do serviço.

 

A reportagem é de Elise Ann Allen, publicada em Crux, 14-02-2022. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Falando ao Crux, Ghirlanda disse que a vida espiritual de um padre é essencial para seu ministério, e o maior perigo que ele vê para uma vida espiritual saudável é aquilo que o Papa Francisco chamou de “mundanismo espiritual”.

O mundanismo espiritual, disse ele, significa “esconder-se atrás de formas externas de devoção, correção litúrgica, ortodoxia radical, de modos sempre corretos, de estar sempre em ordem, mas para proteger a própria busca de segurança e benefício pessoal”.

Trata-se de uma obsessão pelos detalhes externos, como as abotoaduras extravagantes nas mangas de uma camisa, e de uma atitude espiritual que “pode levar ao carreirismo, perdendo de vista o fato de que o ministério é um serviço aos outros e não a si mesmo”, disse ele.

Ex-reitor da Pontifícia Universidade Gregoriana, administrada pelos jesuítas, e renomado conselheiro do Vaticano para assuntos canônicos, Ghirlanda falou antes de um grande seminário vaticano sobre o sacerdócio, agendado para os dias 17 a 19 de fevereiro e intitulado “Rumo a uma teologia fundamental do sacerdócio”.

O próprio Ghirlanda proferirá uma conferência sobre a “Vida santa dos clérigos: perspectiva teológico-canônica” no último dia do seminário, que será aberto pelo Papa Francisco, que falará sobre “Fé e sacerdócio hoje”.

O seminário irá explorar vários aspectos da vida sacerdotal, incluindo o voto do celibato.

O cardeal canadense Marc Ouellet, prefeito da Congregação para os Bispos do Vaticano, disse que o seminário ouvirá várias perspectivas sobre o celibato sacerdotal e sobre o sacerdócio casado. No entanto, no passado, ele defendeu o voto como um dom para a Igreja e como um ato de fé, e disse que a discussão no seminário não se limitará apenas a esse tema.

Em sua entrevista ao Crux, Ghirlanda alertou para o perigo que a “eficiência” representa para a vida espiritual de um padre, dizendo que ela se torna um problema quando um padre está “exercendo o ministério como se os efeitos positivos dependessem dos seus próprios esforços e dos meios aplicados, esquecendo-se de que só se é eficaz pela ação da graça, embora combinada com tudo o que o sacerdote põe à disposição”.

“É perder de vista que tudo deve ser feito como se dependesse de nós, conscientes de que tudo depende de Deus”, disse ele, citando a passagem bíblica: “Quando tiverem cumprido tudo o que lhes mandarem fazer, digam: Somos servos inúteis”.

Ghirlanda também alertou para o uso indevido das mídias sociais na era digital, dizendo que elas “podem distrair muito um padre” e podem “tirar muito tempo, desnecessariamente”.

“Não quero demonizar as mídias sociais, porque, quando bem usadas, também podem ser um instrumento apostólico muito válido”, disse ele, mas podem levar à “armadilha” daquela que ele chamou de curiosidade doentia.

A tela, disse ele, “gera uma curiosidade que nunca é satisfeita e, portanto, gera outra curiosidade sobre notícias, informações etc., que nem sempre é necessária”, enquanto uma vida espiritual saudável requer um tempo longe do mundo digital voltado para a oração e a meditação sobre as Escrituras e a vida de Jesus.

“Às vezes, a intrusão das redes sociais elimina” esse espaço de “silêncio interior” necessário a uma oração genuína, disse ele.

Ghirlanda apontou para a natureza hiperpolitizada, polêmica e muitas vezes tóxica do debate público hoje, especialmente no mundo online, e observou que a própria Igreja não está imune a isso.

“A Igreja e, portanto, os padres vivem na história e em uma sociedade específica. Infelizmente, o espírito da divisão e da polêmica também penetra na Igreja”, disse.

As polarizações, disse ele, “são criadas onde todos acreditam que têm a verdade absoluta e não estão dispostos a ouvir os outros”.

Isso, disse Ghirlanda, é aquilo que o Papa Francisco chamou de “autorreferencialidade”, que é uma atitude na qual “eu encontro a verdade apenas em mim mesmo e não preciso de nenhuma verificação externa, de nenhuma objetificação”.

“Isso fecha todo diálogo, leva a uma atitude polêmica e excludente em relação aos outros que não pensam como eu”, o que não é saudável para a vida e o ministério sacerdotais, disse ele.

Na visão de Ghirlanda, o sinal mais forte de uma vida espiritual saudável para um padre “é o serviço, é passar a vida inteira a serviço dos outros, não reservando nada para si mesmo”.

“É claro que isso não é fácil, e a busca de implementação é para toda a vida”, disse ele, dizendo que um verdadeiro espírito de serviço “é aquele ‘abandonar tudo’ que Jesus pede e que esperamos conseguir realizar pelo menos no fim da vida.”

 

Leia mais