Adeus a John Shelby Spong, um dos padres da teologia pós-teísta

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28 Setembro 2021

 

Depois do teólogo belga Roger Lenaers, falecido em 5 de agosto, ele nos deixou, aos 90 anos, também o bispo episcopal John Shelby Spong, outra das figuras mais emblemáticas do novo pensamento teológico ligado ao paradigma pós-religioso e pós-teísta. Ele partiu dormindo, após uma vida que descreveu como feliz e cheia de amor e sempre acompanhada pela esperança, até mesmo pela esperança da vida eterna.

A reportagem é de Claudia Fanti, publicada por Adista, 17-09-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Vita eterna. Una nuova visione

A esse tema, aliás, dedicou um dos seus livros, intitulado Vita eterna. Una nuova visione (Vida Eterna. Uma nova visão, em tradução livre, escrito em 2009 e publicado em italiano em 2017 pela Gabrielli Editori), tentando responder de forma crível a uma questão central não só para a fé cristã, mas também para a vida de cada ser humano: “Para além da religião, além do teísmo, além do céu e do inferno, ainda é plausível falar em vida eterna”?

Ao desvencilhar definitivamente esta visão dos conceitos de prêmio e castigo, e, portanto, convidando a conduzir a própria existência sob o impulso do amor ao invés do medo, o teólogo estadunidense não havia por isso renunciado a acreditar na possibilidade que a "vida humana autoconsciente" compartilha “a eternidade de Deus e que - escreveu -, na medida em que estou em comunhão com aquela força vital em perpétua expansão, aquela potência de amor que enriquece a vida e aquele inesgotável Fundamento do ser, eu viverei, amarei e serei parte do que Deus é, não vinculado pela minha mortalidade, mas pela eternidade de Deus”. Uma virada da divindade acima de nós para aquela dentro de nós que, Spong concluiu, “não significa afastar-se de Deus, como os medrosos clamarão; significa, e eu agora o creio, caminhar em Deus”.

Mas o seu empenho em "salvar o Cristianismo como força para o futuro", tornando a sua mensagem novamente relevante e significativa para as mulheres e os homens contemporâneos, tinha começado muito tempo antes, isto é, desde quando, atento aos numerosos sinais de declínio evidenciados por todos os cantos da religião cristã, entendeu, “como bispo e como cristão engajado”, a necessidade de encontrar na Igreja a coragem que a tornasse “capaz de renunciar a muitos esquemas do passado”.

 

Why Christianity Must Change or Die

Às vésperas do século 21, seu empenho se traduziu em um livro que se tornou um marco nesta jornada de reflexão teológica: Why Christianity Must Change or Die (Por que o cristianismo deve mudar ou morrer, em tradução livre, publicado na Itália em 2019 pela editora Il pozzo di Giacobbe), posteriormente transformado em um manifesto de 12 teses pregado, "à maneira de Lutero", à entrada principal da capela do Mansfield College, na Universidade de Oxford, e depois enviado por correio a todos os líderes Cristãos do mundo: sobre Deus, Jesus, pecado original, nascimento virginal, milagres, teologia da expiação, ressurreição, ascensão, ética, oração, vida após a morte e universalismo. Doze teses que Spong havia retomado, desenvolvendo-as ainda mais, em seu último livro, escrito aos 87 anos, lançado nos Estados Unidos em 2018 e publicado na Itália graças à editora Mimesis em 2020, com o título Incredibile. Perché il credo delle Chiese cristiane non convince più (Inacreditável. Porque o credo das igrejas cristãs não convence mais, em tradução livre). Foi, na realidade, o seu quinto "último livro", cada um escondido "sem que o soubesse" debaixo do tapete do processo de elaboração do anterior, do qual o teólogo assegurara, citando motivos de saúde, que outros não se seguiriam.

Precedido por obras importantes como, além das já mencionadas, Un cristianesimo nuovo per un mondo nuovo, Gesù per i non religiosi, Il quarto Vangelo, Letteralismo biblico: eresia dei gentili, I peccati della Bibbia (editadas pela Massarie sempre organizadas por Ferdinando Sudati, como todos os livros de Spong na Itália), o volume havia oferecido uma síntese conclusiva de sua corajosa releitura pós-teísta do cristianismo, na direção de uma nova expressão religiosa compatível com as recentes aquisições científicas: sem dogmas, sem doutrina, sem hierarquias, sem a pretensão de possuir a verdade absoluta.

Uma visão do Cristianismo "tão radicalmente reformulada que pode viver neste novo mundo ousado" - como já escrevia em Um Cristianismo Novo para um Mundo Novo - mas ainda ligada à experiência que deu origem a essa fé-tradição mais de dois mil anos atrás. Não é por acaso que o autor sempre se professou um crente alegre, apaixonado e convicto da realidade de Deus: “Creio que Deus seja real e que eu vivo profunda e significativamente na relação com esta realidade divina. Proclamo Jesus, meu Senhor. Acredito que ele tenha mediado Deus de uma forma poderosa e única na história da humanidade e em mim”. No entanto, ele acrescentava no mesmo livro: “não defino Deus como um ser sobrenatural. Não acredito numa divindade que possa ajudar uma nação a vencer uma guerra, intervir para curar a doença de um ente querido, permitir que uma determinada equipe desportiva vença o seu adversário”.

 

Morte do teísmo, não de Deus

 

Segundo Spong, Deus entendido teisticamente como "um ser com poder sobrenatural" a suplicar, obedecer e agradar, estaria à beira da morte, se não já morto, embora as autoridades eclesiásticas prefiram continuar o jogo do "vamos fazer de conta". No entanto, especificava o teólogo, a morte do teísmo como descrição humana de Deus não acarreta em si a morte de Deus. Ou seja, não exige a renúncia à esperança que “exista uma realidade transcendente presente no próprio coração da vida” que seja possível chamar de Deus e que “a sua presença seja vivida como algo que nos chama para além dos nossos temerosos e frágeis limites humanos". Nem afeta a convicção de que essa realidade transcendente tenha se revelado na vida de Jesus de forma tão completa a permitir ver nele o significado de Deus.

Essa esperança em Spong nunca falhou: “Deus é a fonte última da vida. Deus é venerado vivendo plenamente, compartilhando profundamente”. E ainda: “Deus é a fonte última do amor. Este Deus é adorado ao amar com generosidade, ao difundir o amor com leveza, ao doar amor sem parar para avaliar o custo”. E por fim: “Deus é o Ser, e nós veneramos este Deus tendo a coragem de ser tudo o que podemos ser”, indo além “do modo de sobreviver fechados em nós mesmos”. E, portanto, “Deus não morreu. Entramos verdadeiramente em Deus. Somos portadores de Deus, cocriadores, encarnações do que Deus é”.

Mas no mundo pós-teísta, segundo Spong, continuará a haver espaço também para a Igreja, mesmo depois que o culto não tiver mais o propósito de confessar os nossos pecados a um "juiz paternal", nem de contar com o poder das orações comunitárias para dirigir o curso da história do mundo. Uma Igreja que se dedicará à expansão do Reino de Deus, atuando com determinação não por um programa religioso, mas pelo programa da vida, da vida em abundância para todos, não impondo a sua verdade a ninguém, mas vivendo apenas para aumentar o amor.

 

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