“A falta de microchips é a ponta do iceberg do que nos aguarda”. Entrevista com Alicia Valero

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17 Setembro 2021

 

Alicia Valero é engenheira química e pesquisadora do CIRCE [Centro de Pesquisas de Recursos e Consumos Energéticos], um instituto que há décadas analisa a escassez das matérias-primas e que há tempo vinha alertando sobre a crise de abastecimento que assola a indústria europeia e que parece longe de atenuar. Uma situação provocada pelo aumento exponencial da demanda e uma oferta que não é suficiente para atendê-la. Confessa que a solução não é fácil e passa pelo sério investimento na economia circular e em parar de ser uma sociedade do usar e jogar.

Valero é doutora em engenharia química pela Universidade de Zaragoza. Além disso, formou-se na Universidade Técnica de Berlim, Universidade Paul Sabatier de Toulouse e no British Geological Survey. Atualmente, dirige o grupo de pesquisa de Ecologia Industrial, no CIRCE, e é professora titular em Zaragoza.

A entrevista é de M. Llorente, publicada por Heraldo de Aragón, 12-09-2021. A tradução é do Cepat.

 

Eis a entrevista.

 

Essa crise no fornecimento de microchips se deve exclusivamente à pandemia?

Esse problema que parece pontual devido à pandemia, na verdade, é um problema estrutural. A demanda por matérias-primas está aumentando exponencialmente. Somos cada vez mais pessoas neste planeta. Além disso, as novas tecnologias digitais, mas também as energias renováveis, requerem um alto número de diferentes elementos que são escassos na natureza.

A falta de microchips é apenas a ponta do iceberg do que provavelmente nos aguarda no futuro. Talvez estejamos entrando na era da escassez. O planeta simplesmente não tem recursos para tudo, nem para todos, se seguirmos assim.

Até quando irá se estender?

Diante de um problema tão importante, que está colocando em xeque o setor automobilístico, entre outros, obviamente são buscadas soluções. As empresas compreendem que são vulneráveis e precisam diversificar seus provedores e garantir que as cadeias de fornecimento não sejam rompidas. Novas fábricas de microchips estão sendo criadas e pouco a pouco a produção será normalizada, ainda que provavelmente o problema se estenda até o próximo ano.

Dito isso, se a tendência é para a internet das coisas e que todos os objetos sejam inteligentes, as dificuldades que estão ocorrendo agora, provavelmente, serão o pão nosso de cada dia.

Essa escassez tem a ver com o forte aumento do preço das matérias-primas?

Todas as matérias-primas têm o mesmo problema: um aumento exponencial da demanda e uma oferta que não é o suficiente para satisfazer essa demanda. O primeiro obstáculo é o das fábricas que não podem atender o pico da demanda. Mas a grande fábrica, a do planeta, também não é ilimitada em recursos e, mais cedo ou mais tarde, vamos nos deparar com seus limites.

Qual será o impacto dessa falta de microchips no PIB europeu?

No CIRCE, da Universidade de Zaragoza, há duas décadas analisamos a escassez de matérias-primas. Não é algo novo e há tempo alertamos. Em um estudo que publicamos em 2018, determinamos que certamente, nas próximas décadas, teremos problemas de desabastecimento de prata, cádmio, cobalto, cromo, cobre, gálio, índio, lítio, manganês, níquel, chumbo, platina, telúrio e zinco. Justamente os metais essenciais para a eletrônica e as energias renováveis.

Pode ser um freio à eletrificação?

Os fabricantes de automóveis estão muito preocupados. Hoje em dia, um veículo é um computador com rodas. Junto ao problema dos microchips, agora, une-se o dos elementos para fabricar as baterias dos carros elétricos.

O cobalto, lítio, níquel e manganês são componentes essenciais das baterias e sua produção aumentará de 20 a 40 vezes até 2050. Além de escassos, sua produção está concentrada em poucos países, alguns muito instáveis sociopoliticamente falando, o que os torna muito vulneráveis.

Avançar para a mobilidade sustentável pode levar a mais problemas de abastecimento?

As energias renováveis e as tecnologias limpas são absolutamente necessárias para interromper as mudanças climáticas (e já estamos atrasados!). Mas, aqui, surge um novo problema: passaremos de uma dependência de combustíveis fósseis a uma multidependência de muitos materiais que são escassos na natureza e controlados por poucos países.

Mas, além disso, os recursos minerais são extraídos com combustíveis fósseis. Se a demanda de matérias-primas aumenta exponencialmente, também aumentam as emissões associadas à mineração (que hoje em dia respondem por 10% do total e certamente aumentarão). Esse assunto é gravíssimo e não foi levado em consideração.

Relocalizar fábricas de baterias elétricas, na Europa, faz parte da solução?

Ficamos no mesmo. Se somos meros montadores de baterias e nos falta a matéria-prima, seguimos na encruzilhada. É preciso solucionar a raiz do problema: garantir um fornecimento estável e limpo de matérias-primas.

 

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