“As petroleiras vão resistir à descarbonização”. Entrevista com Andreas Malm

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07 Julho 2021

 

Andreas Malm (Fässberg, Suécia, 1977), professor associado de ecologia humana, da Universidade de Lund, acaba de publicar na Espanha Capital fósil (Capitán Swing), um interessante estudo sobre as raízes do capitalismo e a irrupção da máquina a vapor com o carvão, no Reino Unido. Seu foco se concentra, portanto, na primeira grande fonte de emissões de gases e que segue contribuindo para o aquecimento do planeta.

Seu trabalho analisa a particular transição energética ocorrida no Reino Unido, na primeira metade do século XIX, e que fez com que o capitalismo incipiente sacrificasse a energia renovável pela máquina a vapor e o carvão como fonte de energia para ativar o desenvolvimento das indústrias de fiação e tecelagem.

Olhar para trás pode servir para constatar o paradoxo atual, pois em plena transição energética, agora, o capitalismo busca outra adaptação, recorrendo às fontes renováveis que deixou para trás.

A entrevista é de Antonio Cerrillo, publicada por La Vanguardia, 30-06-2021. A tradução é do Cepat.

 

Eis a entrevista.

 

Você escreveu um volumoso livro: quase 600 páginas. Foi difícil escrevê-lo?

Sofri, mas também curti muito.

Que autores você recomenda ler?

Se eu tivesse que escolher um livro sobre a mudança climática, escolheria El Ministerio del Futuro, de Kim Stanley Robinson. É um romance de ficção científica, mas incorpora uma profunda visão sobre a ciência climática. Foi publicado no ano passado, mas é um livro muito importante para saber o que o futuro nos reserva.

O capitalismo começa com a exploração em massa do carvão e a chegada da máquina a vapor?

O capitalismo existia antes, mas as contradições do capitalismo fizeram com que passasse das energias naturais (hidráulica) para a energia baseada no carvão.

Por que o capitalismo adota o carvão?

A primeira razão é que a energia das máquinas a vapor podia ser deslocada para regiões mais convenientes para ele, ao passo que os moinhos de água que até aquele momento tinham sido utilizados precisavam estar próximos dos rios, ficavam situados onde havia fluxo de água.

Um dos argumentos que chegou a ser oferecido (para justificar essa mudança) era que a água era mais cara, mas se demonstrou que a água era barata. Uma das razões dessa mudança é que a mão de obra barata não estava próxima aos rios, mas localizadas nas cidades. A energia do vapor conferia autonomia para localizar a indústria onde fosse mais conveniente. Algumas das razões que explicam essa transição seguem atuais, como a deslocalização que segue sendo observada hoje em dia.

Em muitos países, o carvão, o petróleo e o gás são os grandes recursos energéticos que impulsionam o nosso sistema econômico, apesar de seus impactos ambientais e climáticos...

Sim, claro, carvão, petróleo e gás. Desde o século XIX, não houve realmente uma transição energética na qual tenhamos passado do carvão para outras fontes de energia, mas, ao contrário, o carvão foi se espalhando por todo o mundo. E o que aconteceu é que outras energias se somaram ao carvão. O carvão foi mantido e com ele se uniu o petróleo e o gás, depois as nucleares e depois as renováveis. Não houve uma decisão de considerar encerrada a era do carvão e dar lugar a outras fontes de energia.

A China é a nova Manchester inglesa do século XIX que você descreve?

Sim, devido à explosão das emissões de gases na China, no ano 2000. A razão também é a deslocalização da indústria para determinadas regiões da China. Como já aconteceu outras vezes na história, o que atraiu as indústrias nessa ocasião, para localizar suas fábricas na China, foi a mão de obra barata.

E diz que tudo isso foi favorecido por uma população trabalhadora, na China, que você descreve como “dócil”.

Sim, mas isso mudou. Entre 2000 e 2010, os trabalhadores das fábricas destinadas à exportação eram dóceis e tranquilos e não faziam greves, mas tudo isso mudou em 2010, quando houve uma explosão de greves nas indústrias que eram propriedade dos estrangeiros. E essas greves continuam.

Quais as três razões que explicam a implantação e o desenvolvimento do capitalismo na China?

Não é só porque a mão de obra é barata, mas porque é uma mão de obra disciplinada, algo que vem do poder do Estado chinês sobre a população. Depois, a China oferece infraestruturas, aeroportos, centros logísticos e uma fonte de energia de carvão que não para. Todo o país se moldou a uma vontade de explorar os recursos.

Todo o litoral chinês foi projetado para os investidores. É a diferença em relação à África subsaariana, que tem mão de obra barata, mas não tem infraestrutura, nem capacidade para atrair investidores. E a terceira razão é o mercado interno da China, que é enorme.

Da mesma forma que aconteceu com a época da máquina a vapor, quando o capitalismo marchou para as cidades, o capitalismo moderno também se move.

Sim, claro.

Você considera que estamos chegando ao limite da extração de recursos. Mas o Reino Unido, que protagonizou esse capitalismo moderno, agora é um país que tem objetivos ambiciosos para reduzir as emissões de gases do efeito estufa...

Não percebo mudanças suficientes. Não acredito que o Reino Unido esteja mais avançado do que outros países da Europa. A companhia BP é uma das principais responsáveis climáticas. E o seu governo segue concedendo licenças para que as companhias de gás e petróleo continuem perfurando poços e extraindo hidrocarbonetos no Mar do Norte. E também estão abrindo uma nova mina de carvão.

Que elementos de mudança percebe para mitigar o aquecimento? Estamos diante do fim da era dos combustíveis fósseis? Ultrapassamos a fase do pico do petróleo?

Não acredito no pico de petróleo. Fala-se muito de um pico do petróleo em 2005. Quando se viu que o preço do petróleo subia, pensou-se que o petróleo iria acabar. Mas a menor produção foi compensada com a descoberta do fracking e outras formas de extrair petróleo que não são convencionais.

E ocorreu um boom que fez com que, por exemplo, os Estados Unidos sejam o maior explorador e exportador de gás, porque encontraram novos fornecimentos. Aprendemos que o capitalismo é capaz de gerar novas tecnologias e criar mais fornecimentos de petróleo e gás disponíveis para extrair esses recursos.

O problema é que restam muitos recursos de carvão, petróleo e gás disponíveis no solo. E o perigo é que, como há tantos recursos e reservas disponíveis, sigam sendo extraídos até o infinito, até que, ao final, o planeta exploda. Essas reservas não estão acabando.

Naturalmente, a extração do petróleo e o gás não pode continuar per sécula seculórum. Mas seu final está longe. Não podemos vislumbrar esse limite na extração, esse limite está longe porque o capitalismo é capaz de se modificar, de se adaptar e continuar extraindo estes recursos.

Não vislumbra esse pico do petróleo...

O pico do petróleo não virá porque nos aproximaremos dos limites impostos pelos custos ou reservas, mas ocorrerá quando houver uma mudança no paradigma, tanto político como moral, no qual o protagonismo da mudança recaia sobre os movimentos sociais que pressionem para acabar com isso.

Não é um indício do pico do petróleo ou de seu esgotamento que o preço do barril atinja altos preços?

Mas vemos que os preços do petróleo sempre variam, sobem e caem. No ano passado, estavam em queda, neste ano, estão em alta. Mas quando o preço do barril de petróleo sobe, isso beneficia as companhias de gás e permite que elas extraiam por meio de sistemas não convencionais, como se viu no Canadá. Portanto, o preço alto do petróleo não marca o seu fim.

É relevante que algumas companhias petrolíferas invistam em energias renováveis?

Não sei o caso da Repsol. A Shell, BP e Total dizem que estão investindo mais em renováveis. Mas o problema destas empresas é que tanto a energia eólica como a solar são baratas no tocante à obtenção do recurso e não acarretam uma mão de obra barata. A energia elétrica solar e eólica é cada vez mais barata, a mais barata que se viu na história da humanidade.

Deveria ser uma benção para a espécie humana ter acesso à eletricidade barata e poder se afastar dos combustíveis fósseis. Mas quando estas grandes empresas decidem investir em energia eólica ou solar, em petróleo ou em energias, o que buscam é o máximo lucro. E quanto à taxa de retorno, no caso da energia eólica ou solar, o lucro é de 4%, ao passo que no caso do gás ou petróleo é de 15 a 20%. É mais rentável. Ainda que falem de renováveis, na verdade, estas grandes empresas seguem investindo nos combustíveis fósseis porque é o que mais lucros oferecem.

Mas na Espanha, na União Europeia, há uma série de planos de energia que condicionam as políticas energéticas e de clima. E na Espanha estamos assistindo a uma transição energética importante... E estão sendo realizados grandes investimentos nas renováveis. As fontes limpas são a receita mais importante frente às mudanças climáticas?

São um componente indispensável, mas mesmo hoje 80% da energia vem dos combustíveis fósseis. E é preciso reduzir esta porcentagem a zero, ou ao mais próximo possível de zero. É um enorme desafio, e é preciso alcançar esse objetivo. Não podemos simplesmente retirar esses 80%, sem a substituição por outra. A energia eólica e a solar devem ser rapidamente ampliadas, e muito.

Como abriremos mão dos combustíveis fósseis, em apenas 30 anos?

É tecnicamente possível reduzir o consumo de combustíveis fósseis a zero ou ao mais próximo possível de zero, em algumas décadas, em todo o mundo. Mas um dos principais problemas é que, embora tecnicamente possamos fechar uma plataforma de petróleo, os donos destas petroleiras vão continuar desejando produzir porque é lucrativo.

Por exemplo, a Noruega é o maior produtor de gás e de petróleo da Europa ocidental. Em 2019, abriram o maior campo de extração de petróleo, o da petroleira Johan Sverdrup. Portanto, não estão cortando a extração e querem continuar assim até 2070. E tecnicamente, então, fechar a plataforma.

O Estado da Noruega poderia fazer isso amanhã mesmo. Mas o problema é que há um grande capital investido neste campo de petróleo. E almeja manter essa exploração até 2070, porque caso seja fechado antes, não recuperarão o investimento com os seus lucros, e é de seu interesse manter isso até 2070.

E o que os cidadãos podem fazer? Não fazer investimentos nesses ativos fósseis? Manter o petróleo no subsolo? Ou seguir o modelo de Greta Thunberg?

A resposta já foi dada por outros. “Deixe de ser um indivíduo, atue coletivamente para pressionar e alcançar uma mudança real”.

Disse que é necessária uma mudança de mentalidade. Detecta certa resignação do cidadão ao constatar que não tem capacidade suficiente para influenciar na mudança. É preciso parar de voar?

Sim. Voar talvez seja a única coisa que não podemos substituir por energia renovável, pelo menos até agora. A longo prazo, veremos. Podemos criar uma indústria de carburantes sem combustíveis fósseis. Há experimentos de aviões com energia solar, existem o hidrogênio e os combustíveis sintéticos de diferentes tipos. Mas hoje em dia é improvável que a frota de aviões, em nível mundial, possa ser substituída por energia renovável.

 

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