Não ao proselitismo

Foto: Pexels

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

08 Junho 2021

 

"A evangelização, de fato, tem em comum com o proselitismo o desejo de que o outro acolha a proposta de compartilhar a fé em Cristo. Mas a verdadeira evangelização inverte a intenção pela qual é movido o proselitismo. Proselitismo é espalhar uma ideia para fortalecer o próprio grupo e a si mesmo. É óbvio que um partido político em campanha eleitoral faça isso, mas a Igreja não pode fazê-lo". 

A opinião é do teólogo e padre italiano Severino Dianich, cofundador e ex-presidente da Associação Teológica Italiana e professor da Faculdade Teológica de Florença. O artigo foi publicado na revista Vita Pastorale, de junho de 2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo. 

 

Muitas vezes hoje se fala de evangelização, e tão pouco se elaboram os instrumentos, os métodos, a hierarquia das coisas a serem ditas, a linguagem adequada ao homem de hoje. Muitas vezes, ao tentar algumas propostas para o discurso de fé a ser feito para os não crentes ou a pessoas de outras religiões, acontece ouvir a resposta: “Mas são coisas que devem ser ditas aos nossos fiéis, nada de procurar os outros! " Do dever de evangelizar, recai-se no da catequese e do cuidado pastoral, como se houvesse o medo de enfrentar esta árdua tarefa, que, no entanto, constitui o coração de toda a missão da Igreja. As razões dessa atitude não são difíceis de identificar.

Se por "evangelização" entendemos a proposta da fé cristã àqueles que a não conhecem ou, mesmo conhecendo-a, não a compartilham, deve-se reconhecer que na Europa há um milênio que não se evangeliza. Com o distante Islã, lutou-se com mão armada. Com o raro maometano presente, ele foi considerado, como Damasceno o acreditava, um herege que distorceu a revelação cristã. A dramática relação com o judaísmo é bem conhecida. O ateu, em uma sociedade cristã, era impensável. Enviamos missionários aos grandes povos dos outros continentes. Mas foi preciso criar seminários próprios para eles, porque aqueles normais não preparavam para a evangelização. Eles, sim, deveriam ter evangelizado. Nossas Igrejas tiveram a tarefa de apoiar, inclusive financeiramente, sua louvável obra. Quando se desenvolveu a cultura iluminista, da qual a cultura atual é filha, na Igreja Ocidental, desencadeou-se uma formidável contraofensiva de natureza apologética, da qual usufruímos preciosos legados de aprofundamento de muitos aspectos da fé, mas que favoreceu um clima polêmico, nada propício para a evangelização.

A virada histórica da descolonização contribuiu depois para um despertar crítico da consciência cristã para os comprometimentos não raros da obra missionária, com a iníqua conquista de territórios e a subjugação de povos. Enquanto na Europa, não poucos entendem a evangelização como se fosse uma obra de recristianização da nossa cultura, e assim provocam a suspeita de que a Igreja aspire a restaurar seu antigo poder sobre a sociedade secularizada que hoje é governada democraticamente. O evento histórico e o individualismo dominante, tudo parece conspirar para dissuadir os cristãos de comunicarem a sua fé a outros. Quem nos dá o direito de querer que todos compartilhem a nossa fé? Pretender que outros compartilham a minha fé não é uma subjugação em relação às pessoas? É preciso reconhecer que pode sê-lo.

A evangelização, de fato, tem em comum com o proselitismo o desejo de que o outro acolha a proposta de compartilhar a fé em Cristo. Mas a verdadeira evangelização inverte a intenção pela qual é movido o proselitismo. Proselitismo é espalhar uma ideia para fortalecer o próprio grupo e a si mesmo. É óbvio que um partido político em campanha eleitoral faça isso, mas a Igreja não pode fazê-lo. O apóstolo Paulo se insurgiria, exibindo o seu testemunho: "Não nos pregamos a nós mesmos, mas a Cristo Jesus, o Senhor" (2Cor 4,5). Ou a evangelização é a oferta de um dom recebido, na total gratuidade do dom, ou não é evangelização.

Para evangelizar é necessário deixar a Igreja em segundo plano, para que o espaço do discurso seja totalmente ocupado por Jesus: solus Christus. Só Jesus é o salvador, só Jesus é o Senhor, só o Filho de Deus é digno que se acredite nele, ou seja, de se dedique a ele a própria vida. O Catecismo do Concílio de Trento, comentando o Símbolo, observa que no Credo se professa “crer ‘a Santa Igreja’ e não ‘na Santa Igreja’; isso para distinguir, mesmo com a diversidade da frase, Deus criador do universo, das coisas criadas”.

A evangelização só é pura se a sua intenção for pura, pura de todo pensamento retroativo que vise a satisfação pessoal ou o interesse da comunidade. A eventual, mas não rara, recusa do interlocutor nos causará tristeza, mas se viesse a ter menos afeto e um consequente desinteresse por ele, este seria o sinal inequívoco de que a gratuidade do dom não nos havia motivado: havíamos feito proselitismo, não evangelização. Os departamentos de estatísticas do Vaticano calculam se e em quanto o número de católicos está crescendo. É uma pesquisa sociológica útil, mas não tem nada a ver com fé. Jesus queria que a Igreja servisse ao mundo, não que fosse servida. Só o amor pela humanidade justifica a grande obra de difusão da fé no mundo. Francisco defendeu com veemência isso na Evangelii gaudium: “Todos têm o direito de receber o Evangelho. Os cristãos têm o dever de o anunciar, sem excluir ninguém, e não como quem impõe uma nova obrigação, mas como quem partilha uma alegria, indica um horizonte estupendo, oferece um banquete apetecível. A Igreja não cresce por proselitismo, mas ‘por atração’”(14).

 

Nota do Instituto Humanitas Unisinos – IHU

 

De 04 de junho a 10 de dezembro de 2021, o Instituto Humanitas Unisinos – IHU realiza o XX Simpósio Internacional IHU. A (I)Relevância pública do cristianismo num mundo em transição, que tem como objetivo debater transdisciplinarmente desafios e possibilidades para o cristianismo em meio às grandes transformações que caracterizam a sociedade e a cultura atual, no contexto da confluência de diversas crises de um mundo em transição.

 

XX Simpósio Internacional IHU. A (I)Relevância pública do cristianismo num mundo em transição

 

Leia mais