Papa Francisco de forma inesperada revoluciona o sínodo dos bispos

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24 Mai 2021

 

"Francisco considerou que é chegado o momento de envolver amplamente os leigosRoma não será mais o cão de guarda de tradições muitas vezes superadas e sem mais sentido, mas um guia fraterno para escolher juntos os caminhos a serem percorridos nas questões mais sentidas na vida das pessoas", escreve Carlo Di Cicco, jornalista e escritor, que foi vice-diretor do Osservatore Romano até 2014, em artigo publicado por Tiscali, 23-05-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

O Pontífice inesperadamente adia de um ano a assembleia já convocada para iniciar pela primeira vez uma grande participação popular na sua preparação.

Na véspera do Pentecostes, o maior feriado cristão junto com a Páscoa, que marca o nascimento da Igreja, o Papa Francisco surpreendeu a Igreja Católica com a maior virada nos quase 60 anos de história do Sínodo. Pretende assim realizar uma nova consciência de que a Igreja não é assunto do clero, mas sim uma realidade a ser vivida em pé de igualdade por todos os batizados, leigos ou eclesiásticos. E assim, sem tocar as trombetas, mas com uma simples "Nota", o próximo sínodo dos bispos que deveria discutir o tema da sinodalidade foi adiado por um ano para permitir que toda a Igreja o prepare, envolvendo pela primeira vez todos, clero e leigos, em nível local, nacional, continental e mundial.

Este é um sinal concreto e importante depois da experiência do Covid, aplicar primeiro à sua Igreja a recomendação, repetida em todos os níveis da instituição e de âmbito público e privado: sair da pandemia tentando ser melhores do que antes. Portanto, o sínodo dos bispos programado para o mês de outubro de 2022 será celebrado em outubro de 2023. Com relação ao passado, o Papa Francisco aprovou, de fato, uma nova forma de realizar o caminho preparatório que deverá envolver com análogo empenho bispos, especialistas e capilarmente todo o povo de Deus.

Trata-se de uma decisão realmente revolucionária, fortemente aderente ao espírito do Concílio Vaticano II. A decisão do Papa não desacelera, mas imprime um impulso na fase de reforma da Igreja que não pode se limitar apenas ao funcionamento da Cúria Romana, mas deve renovar toda a Igreja considerada como povo de Deus. E, por ser povo, as questões tanto de fé como de governo não podem deixá-lo à margem da reflexão e da decisão. Enquanto há pressões de várias partes para que Roma escute as instâncias da base que busca viver o Evangelho nas diferentes culturas, Francisco aponta uma grande maneira de superar o perigo do choque entre o centro e a periferia. Não mais olhando de lado ou considerando as dioceses de todo o mundo como súditos de Roma, mas renovando-se juntos - centro e periferia na fraternidade operativa - para tornar o Evangelho atraente novamente para a humanidade de hoje e de amanhã.

Modificar o sínodo significa facilitar a solução do poder na Igreja e dar eficácia ao testemunho cristão em nosso tempo. O equilíbrio entre o primado do Papa e a colegialidade episcopal, que foi um dos temas mais delicados do Concílio Vaticano II, se aperfeiçoa associando finalmente todo o povo de Deus às decisões relativas à missão da Igreja no mundo. Fazer do Sínodo um evento vivido por todo o povo e não apenas pelos “responsáveis pelo trabalho” é uma herança conciliar já madura para uma substancial novidade do método, bem como do mérito. O tema do sínodo em preparação para a nova experimentação tem como tema “Por uma Igreja sinodal: comunhão, participação e missão”. Francisco considerou que é chegado o momento de envolver amplamente os leigos. Roma não será mais o cão de guarda de tradições muitas vezes superadas e sem mais sentido, mas um guia fraterno para escolher juntos os caminhos a serem percorridos nas questões mais sentidas na vida das pessoas.

Francisco está provando ser um mestre consumado do método participativo. Já o havia escrito no documento programático de seu pontificado, mas talvez sob o choque do primeiro papa não europeu depois de tantos séculos, não foi compreendido aonde um papa latino-americano poderia levar. Agora se entende melhor que ele pretendia, finalmente praticar as consequências de considerar a Igreja como povo de Deus, como o concílio havia declarado. O primeiro princípio para progredir na construção de um povo - lemos naquele texto da Evangelii Gaudium - é considerar o tempo superior ao espaço. “Dar prioridade ao tempo é ocupar-se mais com iniciar processos do que possuir espaços... Trata-se de privilegiar as ações que geram novos dinamismos na sociedade e comprometem outras pessoas e grupos que os desenvolverão até frutificar em acontecimentos históricos importantes. Sem ansiedade, mas com convicções claras e tenazes”. O tema do povo de Deus é um tema central da pastoral de Francisco que pretende envolver de uma forma especialmente surpreendente os pobres. Tornar o povo protagonista nas decisões a serem tomadas significa reconhecer sua dignidade e transformar sua consciência. Francisco iniciou um processo em um ponto importante, que permaneceu quase bloqueado por décadas.

Já em 1966, o jovem teólogo Ratzinger, fazendo um balanço do concílio com o qual havia colaborado como teólogo, expressou sua satisfação com a instituição do sínodo dos bispos: “Devemos definir o sínodo episcopal como um pequeno concílio permanente, sua instituição nesta situação significou a certeza de que o Concílio continuará mesmo depois de sua conclusão oficial, na medida em que pertence à vida ordinária da Igreja; e ademais que o concílio não constituirá um episódio, que logo passará, mas, através do sínodo, o que foi semeado nos dias, muitas vezes tempestuosos da assembleia conciliar, será levado ao amadurecimento”. Francisco se revincula àquele espírito conciliar que quer praticar e não apenas teorizar.

Já na comemoração do 50º aniversário da instituição do Sínodo dos Bispos, em 17 de outubro de 2015, o Papa jesuíta levava a cumprimento a visão teórica do Sínodo como caminho juntos de toda a Igreja. “O Sínodo dos Bispos - lê-se a Nota nesta véspera de Pentecostes - é o ponto de convergência do dinamismo da escuta mútua no Espírito Santo, conduzida em todos os níveis da vida da Igreja. A articulação das diferentes fases do processo sinodal permitirá ouvir realmente o Povo de Deus e garantirá a participação de todos no processo sinodal. Não é apenas um evento, mas um processo que envolve em sinergia o Povo de Deus, o Colégio Episcopal e o Bispo de Roma, cada um segundo a sua função”. É o passo final, ainda que experimental, de 60 anos da história conciliar da Igreja.

Até agora o papa realizou em pequenos passos a ampliação da participação no sínodo e agora com uma decisão forte pretende completar a obra que não mortifica a função episcopal, mas a torna fiadora da instância que vem do povo. Já não há mais um andar baixo e um alto na Igreja, mas um único andar onde todos ouvem a todos e - a exemplo de Jesus - cada um pensa no outro antes que a si mesmo. Os fiéis não são mais considerados massa passiva de manobra, mas corresponsáveis pela missão.

A Nota vem após a reforma da celebração sinodal de 2018 e após a nomeação da primeira mulher para um papel de liderança no sínodo com direito a voto. Portanto, o percurso da próxima assembleia sinodal “será articulado em três fases, entre outubro de 2021 e outubro de 2023, passando por uma fase diocesana e uma fase continental, que darão vida a dois Instrumentum Laboris diferentes, até àquela conclusiva em nível da Igreja Universal. A abertura do Sínodo acontecerá tanto no Vaticano como em cada diocese. O caminho será inaugurado pelo Santo Padre no Vaticano de 9 a 10 de outubro próximo. Com as mesmas modalidades, no domingo 17 de outubro, será aberto nas dioceses, sob a presidência do respectivo bispo”. Em todas as fases preparatórias, a coordenação será realizada pela Secretaria Geral do Sínodo, que verificará a real participação em todos os níveis.

Diz-se que a Igreja não é uma democracia. E isso é verdade no sentido de que a Igreja não inventa a si mesma, mas segue o Evangelho de Jesus. Na realidade, a Igreja também é uma democracia no sentido de que o discernimento do que significa crer em Jesus nos vários momentos da história, é feito por todo o povo dos batizados que, portanto, são chamados a não serem mais apenas ouvintes, mas especialistas de Evangelho conhecido e praticado.

 

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