Jesus e as mulheres, o novo ensinamento

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27 Fevereiro 2021

"A Igreja apresenta-se como a única instituição mundial totalmente masculina, ainda que as mulheres que nela trabalham sejam muitas, façam coisas importantes e seriam capazes de propor ideias, projetos, críticas interessantes para todos os membros da instituição", escreve Carlo Molari, teólogo italiano, padre e ex-professor das universidades Urbaniana e Gregoriana, em Roma, em artigo publicado por Rocca, n. 5, 01-03-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo. 

Surpreende que as primeiras comunidades eclesiais tenham progressivamente fechado as portas às mulheres que Jesus havia aberto. De fato, no Novo Testamento existem dados indiscutíveis sobre o aspecto inovador das escolhas feitas por Jesus. Os primeiros documentos escritos do Novo Testamento que chegaram até nós são as cartas paulinas que remontam a uma fase posterior. Vamos começar com Paulo, que escreveu aos coríntios no início dos anos 50, cerca de 20 anos após a morte de Jesus (que ocorreu por volta do abril de 30). Refletem uma fase de evolução que já não responde mais ao pensamento de Jesus. Quando surgem as versões escritas dos Evangelhos, apareceram várias tradições consolidadas nas várias comunidades e nem sempre é possível determinar o pensamento genuíno de Jesus. Uma certa reviravolta aparece nas tradições relacionadas à importância das mulheres.

Os fariseus não consideravam as opiniões femininas significativas; Jesus, ao contrário, parecia dar grande importância à opinião delas e as aceitava como discípulas. Alguns episódios são emblemáticos como o diálogo no poço de Jacó com a samaritana (Jo 4,7-30), ou a resposta a Marta sobre sua irmã Maria: "Maria escolheu o melhor que não lhe será tirado" (Lc 10,38-41).

Marco relata a surpresa das pessoas: “O que é isso? Um novo ensinamento, dado com autoridade. [...] Sua fama espalhou-se imediatamente por toda a Galileia” (Mc 1,27-28).

Jesus era um simples artesão. Seus próprios familiares achavam que a decisão de sair de casa para se dedicar à pregação do Evangelho era uma loucura: “saíram para trazê-lo à força, pois diziam: Ele está fora de si. "(Mc 3,11). “Chegaram, então, seus irmãos e sua mãe; e, estando fora, mandaram-no chamar. E a multidão estava assentada ao redor dele, e disseram-lhe: Eis que tua mãe e teus irmãos te procuram, e estão lá fora. E ele lhes respondeu, dizendo: Quem é minha mãe e meus irmãos?" (Mc 3,31-33).

Lucas escreve em um texto: “e os doze iam com ele, E algumas mulheres que haviam sido curadas de espíritos malignos e de enfermidades” (Lc 8,1-2). Ele menciona explicitamente apenas "Maria, chamada Madalena, Joana esposa de Cuza, procurador de Herodes, e Susana", mas acrescenta: "e muitas outras, que os serviram com seus bens" (Lc 8, 2). O próprio fato de aceitar esse 'serviço' de parte de Jesus foi surpreendente para um mestre.

Giulia Galeotti comentando o episódio da mulher "E certa mulher que, havia doze anos, tinha um fluxo de sangue, E que havia padecido muito com muitos médicos, e despendido tudo quanto tinha, nada lhe aproveitando isso, antes indo a pior" (Mc 5,25-34 ), escreve: “Este episódio é paradigmático da atitude revolucionária de Jesus: deixando-se tocar por uma mulher intocável como se fosse uma leprosa, rompe o tabu religioso da impureza menstrual ... Pobre, marginalizada e humilhada pela sua condição física, a mulher sabe muito bem que não podendo se expor e ainda assim [...]tem a coragem de transgredir a proibição da lei. Ela arrisca porque confia e seu amor a salva” (ibid., p. 34 s.).

Giulia Galeotti acrescenta “da sua amizade com as mulheres, Jesus aprenderá também o significado da palavra fidelidade. Porque quando todos, nas últimas horas terrenas, desaparecerem, as únicas que ficarão perto dele serão elas. [...]. Assim, as mulheres serão as primeiras testemunhas da ressurreição, porque souberam manter vivo aquele vínculo de continuidade entre o antes e o depois” (ibid. p. 35).

Totalmente feminino é o núcleo da primeira comunidade europeia fundada por Paulo em Filipos. Durante sua segunda viagem.

Depois de se separar de Barnabé, Paulo chegou a Filipos com Silas, Lucas (que talvez se juntou em Trôade) e Timóteo (que se juntou em Listra). Visto que não havia sinagoga no sábado, eles vão ao longo do rio onde os judeus se reúnem para orar e fazer abluções. Havia apenas mulheres e os quatro homens sentaram-se com elas e conversaram sobre Jesus e seu Evangelho. Entre as ouvintes está Lídia, uma comerciante de púrpura de Tiatira. Lídia pede para ser batizada com sua família e os “obriga” a ficar em sua casa.

Esta comunidade permaneceu muito querida para Paulo. O nome original era Krenide modificado por Filipe II, pai de Alexandre quando quis anexar a cidade à Macedônia.

Hoje na Igreja

Giulia Galeotti, comentando os dados estatísticos da presença feminina na Igreja Católica em 2012, na véspera da eleição do Papa Francisco, escreveu: “As mulheres na Igreja, portanto existem. Elas são muitos e fazem muito. Elas constroem, rezam, animam hospitais, casas de repouso, casas de família, centros de acolhimento, prisões, ensinam, cuidam, evangelizam, são teólogas, trabalham nos tribunais eclesiásticos, dirigem paróquias sem presbítero, cuidam da direção espiritual. E além de trabalhar, as mulheres na Igreja Católica pensam. Elas escrevem, refletem, propõem, discutem, estimulam. No entanto, elas não contam para nada. A discrepância entre o verdadeiro compromisso feminino na Igreja em todos os níveis e o espaço mínimo deixado para elas no topo é realmente inacreditável" (Mulheres e Igreja, em Papa Francisco e mulheres, Il Sole 24 Ore, junho de 2014 p. 12).

De minha parte, terminei as reflexões do número 6/20 sobre a Mulher no relato bíblico das origens (p. 50-51) com as palavras: “Voltemos o olhar para esta novidade e descobriremos que existem outros passos a serem realizados". O presente caderno é a ocasião propícia para realizá-los.

Naquela ocasião eu me referia à apresentação do livro editado por Paola Cavallari e apresentado por Lilia Sebastiani publicado pela Gabrielli Non sono la Costola di nessuno. Letture sul peccato di Eva. Como escreveu Paola Cavallari em sua contribuição (Stavano di fronte l’uno all’altra, p. 85-116) e também é relatado em parte no verso da 4ª capa, "o pecado original - uma construção da Doutrina cristã, foi um pecado contra Eva. Pecado contra as mulheres e contra o Espírito; pecado que enfraqueceu, se não sufocou, ao longo dos séculos, o alimento da vida da alma. Um pecado que é (foi) um estupro do coração e da mente - mais grave do que qualquer exclusão factual visível - perpetrada no campo sacramental, litúrgico e apostólico, da pregação e da evangelização: aqui, nesses âmbitos, se tornam visíveis os efeitos e consequências daquela premissa” (p. 115).

Conclui a sua contribuição observando: “Por fim, é bom pensar que com o Cântico se colocou o selo final de uma história que começou no primeiro livro, na exultação e no júbilo de duas almas que, doando-se, mas não se possuindo, desaguam uma na outra, consentindo à vocação do prazer, que é harmonizadora e unificadora, antes mesmo de ser procriadora” (idem, p. 116).

Ela cita em nota os votos da teóloga Maria Caterina Jacobelli: “Espero não morrer antes que a reflexão teológica com base na Bíblia coloque o aspecto de união acima daquele de procriação” (ivi n.61 Adista 90 de 1999).

Por sua vez, Cavallari conclui: “Ao lado, habita um Deus que sempre os espia, para traçar arcos policromos de amizade, arcos policrômicos, incapaz de escapar à sede de amor” (ivi p. 116).

Comentando o interessante documentário produzido por Liliana Cavani sobre as Clarissas de Urbino que lastimam o total desinteresse de seus companheiros franciscanos, Lucetta Scaraffia acrescenta: “Mesmo esses franciscanos, ainda que herdeiros do vínculo privilegiado entre Francisco e Clara, se comportam como se as monjas nada tivessem a dizer, como se seu pensamento fosse destituído de qualquer interesse. Cozinhar e rezar, cumprir ordens e guardar silêncio, este parece ser o único papel à disposição das religiosas dentro da Igreja” (Perguntas abertas, em Papa Francisco e as Mulheres, o.c.175).

Ela conclui: “A Igreja, portanto, apresenta-se como a única instituição mundial totalmente masculina, ainda que as mulheres que nela trabalham sejam muitas, façam coisas importantes e seriam capazes de propor ideias, projetos, críticas interessantes para todos os membros da instituição. As mulheres, portanto, fazem parte da Igreja de maneira invisível, como um tecido oculto: uma reserva que não é aproveitada tanto e como se poderia e se deveria” (ibid., p. 175-176).

Muitos hoje concordam com a urgência dessas decisões.

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