Papa e gênero: a difícil fronteira entre natureza e cultura. Artigo de Paola Cavallari

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14 Outubro 2016

"Quando se acrescenta o conflito ideológico, alimentado por correntes integralistas, caímos em banalizações e distorções ditadas pelo preconceito. O gênero se torna ‘ideologia de gênero’, uma produção demoníaca que deve ser extirpada, e ponto final."

A opinião é da filósofa e ensaísta italiana Paola Cavallari, redatora da revista Esodo há mais de 20 anos. Fundadora do grupo Donne e Uomini in Cammino. O artigo foi publicado pela agência italiana Adista, 15-10-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

É difícil expressar em poucas linhas um comentário às declarações do papa na viagem de volta das terras caucasianas. Ele abordou vários assuntos; dentre eles, casamento e "gênero" tiveram uma repercussão relevante.

Como escreve Lucia Vantini (da Coordenação de Teólogas Italianas), no precioso livreto Genere, o tema em questão é complicado, por causa das múltiplas abordagens com as quais deve analisado e por causa das várias abordagens teóricas e posições políticas em que se articula.

Quando se acrescenta o conflito ideológico, alimentado por correntes integralistas, caímos em banalizações e distorções ditadas pelo preconceito. O gênero se torna "ideologia de gênero", uma produção demoníaca que deve ser extirpada, e ponto final.

Para avaliar a entrevista do papa, é melhor se basear na transcrição completa, relatada pelo site do Vaticano, em vez dos resumos dos jornais. Só assim é possível captar o quadro multifacetado em que a figura do papa se destaca por causa dos insistentes tons pastorais que ele adota.

Francisco se revela como aquele pastor de almas ao qual, por vocação, foi chamado. Difusamente, ressoa a tarefa da atenção caridosa, da misericórdia, da acolhida: "A última palavra não é do pecado: a última palavra é da misericórdia".

Não falta a preocupação do diálogo e, em particular, entre as religiões, porque "o ecumenismo deve ser feito caminhando juntos, rezando uns pelos outros"; Em relação à frase sobre o casamento – "A imagem de Deus não é o homem [masculino]: é o homem com a mulher" – não se pode deixar de notar que ela vai na direção de uma mudança profunda em relação ao milenar androcentrismo clerical. Dizer que Deus é homem e mulher indica um processo de transformação teológica epocal em curso, do qual o papa, embora nas sombras e luzes de que falaremos, não se isenta. Até não muito tempo atrás, de fato, a mulher era excluída de ser considerada "imagem de Deus".

As zonas de sombra, em vez disso, se adensaram na passagem em que Francisco, referindo-se ao ensino da "teoria do gender" adotado nas escolas, defendeu que "isso é contra as coisas naturais". Como o papa pode não alimentar dúvidas sobre as fronteiras entre natureza e cultura?

A "natureza" de que ele fala reconhece à mulher o direito de palavra nas assembleias públicas, litúrgicas ou não? Ou lhes atribui o silêncio? E por que Jesus de Nazaré afirmou que a sua mãe e os seus irmãos são aqueles que fazem a vontade do Senhor, e não os consanguíneos naturais?

O alerta em defesa do matrimônio é pronunciado por quem é institucionalmente célibe. Durante séculos, o matrimônio foi considerado pela doutrina como remedium concupiscentiae, e a sexualidade era vista com desconfiança, senão rejeitada. O casamento era aceito apenas para fins de procriação. A isso, acrescentam-se as trevas, estas também sexofóbicas, que envolvem o dogma do pecado original.

Por último: durante séculos, o culto mariano enfatizou, no universo do imaginário eclesial católico, a relação Mãe-Filho (masculino), passando por cima da riqueza erótica da relação mulher-homem. O amor conjugal adulto, consciente, maduro, atento à reciprocidade não encontrou aliados nas salas do clero.

A Amoris laetitia tem, sim, vestígios de mudança positiva; mas a encíclica não menciona nem a misoginia – que ainda permeia a doutrina, a práxis pastoral etc. – nem a culpabilização exercida contra aqueles que têm orientações sexuais diferentes da heterossexualidade.

Um mea culpa ajudaria a conscientização sobre a supremacia colonial sobre as mulheres, cometida pela própria Igreja (junto com outros), encaminhando-nos juntos, sem hierarquias entre homens e mulheres, rumo a uma Igreja profética!

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