10 Janeiro 2026
Para Pequim, "é um ato típico de intimidação americana". Mas o magnata garante: "Eles só comprarão produtos americanos".
A reportagem é de Massimo Basile, publicada por La Repubblica, 08-01-2026.
Os Estados Unidos escolheram um caminho de brutalidade declarada ao revelar seus planos para a Venezuela: os campos de petróleo do país sul-americano serão explorados "indefinidamente" pelos Estados Unidos, as decisões de Caracas serão "ditadas" pelos americanos e o dinheiro da venda de petróleo bruto será controlado diretamente por Donald Trump. Do presidente dos Estados Unidos ao secretário de Energia, Chris Wright, do secretário de Estado, Marco Rubio, à secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, ninguém esconde o motivo que levou os Estados Unidos a atacar a Venezuela para depor o presidente Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores.
Ninguém mais fala sobre a luta contra as drogas. Em uma publicação na plataforma de mídia Truth Social, Trump anunciou que Caracas começará a entregar parte de seu fornecimento aos Estados Unidos, entre 30 e 50 milhões de barris, o equivalente a aproximadamente dois meses de produção por dia. "Este petróleo será vendido a preço de mercado, e esse dinheiro será controlado por mim, como presidente dos Estados Unidos da América", declarou Trump, acrescentando mais tarde: "Caracas só comprará produtos fabricados nos EUA com o dinheiro que receber do petróleo bruto". Não está claro o que a Venezuela receberá em troca do fornecimento, avaliado entre US$ 1,8 e US$ 3 bilhões, e a base legal para os Estados Unidos reivindicarem o petróleo caso o governo interino não aceite o plano de Trump também não está clara.
A Venezuela produz atualmente menos de um milhão de barris por dia. Enquanto isso, o primeiro impacto das palavras dos Estados Unidos já se faz sentir: a estatal petrolífera PDVSA admitiu ter iniciado negociações com os EUA para o fornecimento de petróleo bruto. "Este processo", diz um comunicado, "está sendo conduzido sob acordos semelhantes aos vigentes com empresas internacionais, como a Chevron". A medida americana, contudo, provocou uma reação furiosa da China, visto que a maior parte do petróleo sancionado acaba em Pequim: "Este é um típico ato de intimidação por parte dos Estados Unidos", afirmou a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores. Em Washington, a porta-voz da Casa Branca, Leavitt, não descartou o envio de soldados americanos para proteger as operações das petrolíferas. Trump, acrescentou ela, "reserva-se o direito de usar as Forças Armadas, se necessário; não é algo que ele queira fazer; a diplomacia é sempre a primeira opção". Por fim, Trump quer que o governo interino lhe assegure que não haverá ataques ou sabotagens contra americanos, enquanto Trump pediu a Caracas que se livre de todos os corretores e intermediários que mantiveram contatos com a Rússia, o Irã e a China ao longo dos anos.
Enquanto isso, amanhã, Trump se reunirá com gigantes petrolíferos americanos na Casa Branca para finalizar o plano de infraestrutura e exploração dos campos de petróleo venezuelanos. Apesar de possuir o que é considerado as maiores reservas de petróleo do mundo, a Venezuela teve até agora pouca influência nos mercados devido à ampla instabilidade interna e às duras sanções. O país é capaz de produzir grandes quantidades de petróleo extrapesado, o que significa que mesmo uma pequena recuperação no setor pode ter um impacto significativo nos mercados. Na semana que terminou em 2 de janeiro, os estoques americanos caíram 3,8 milhões de barris, enquanto os analistas previam um aumento de 1,1 milhão, um sinal de aumento da demanda. Este é mais um motivo pelo qual Trump quer o controle total dos campos de petróleo da Venezuela.
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