Padre Sorge, um jesuíta de ferro. Entrevista com Bartolomeu Sorge

Padre Sorge com o papa Francisco | Foto: Vatican Media

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04 Novembro 2020

A "tempestade" de escândalos financeiros que abalam "o barco da Igreja" foi desencadeada há poucos dias, envolvendo os Sagrados Palácios na escuridão, mas o padre Sorge, como nos dias de sua luta contra a máfia em Palermo, não perdeu as esperanças. Ao telefone, numa manhã de outubro, está alegre e incisivo como sempre, projetado com otimismo para o tempo que virá, apesar dos 91 anos, ignaro da morte súbita que o espera em poucas semanas. “A Igreja está em quarentena, foi atingida por um vírus terrível. Mas é uma passagem obrigatória para se purificar”, garante, com um paralelo entre a pandemia e os desmandos nas Salas Sagradas. “Do lockdown judiciário sairá melhor e curada”. Sem surpresa especial com o que está acontecendo, porque "eu tinha certeza de que o Papa Francisco aceleraria sua obra de reforma para desarticular as estruturas de poder estragadas no Vaticano".

A entrevista é de Domenico Agasso Jr., publicada por La Stampa, 03-11-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Bartolomeu Sorge, teólogo e cientista político jesuíta, faleceu no dia 02-11 em Gallarate (Varese), na residência para jesuítas idosos onde o cardeal Carlo Maria Martini passou os últimos anos. Especialista na doutrina social da Igreja, dirigiu as revistas La Civiltà Cattolica, Aggiornamenti Sociali e Popoli. Foi inspirador e protagonista da "Primavera de Palermo", período histórico da capital siciliana da segunda metade da década de 1980 ao início da década de 1990, caracterizada pelo florescimento de iniciativas sociais - entre elas o seu Instituto Pedro Arrupe de formação política - e do nascimento de associações e comitês. Difundir a cultura da legalidade para libertar as terras sicilianas do jugo da máfia era sua missão.

Eis a entrevista.

Padre Sorge, como o senhor está vivendo estes tempos difíceis para a Igreja, abalada por investimentos imprudentes e suposta corrupção?

Enfrento-os com orações em minha "clausura" ditada pelo coronavírus. Acima de tudo, rezo para apoiar o Papa Francisco. Ele precisa disso. Toda a Igreja deve manifestar a ele uma proximidade profunda, grata, sincera e coerente”.

Como a obra de Jorge Mario Bergoglio deve se enquadrar na história do papado?

Ele é o primeiro Pontífice que coloca as mãos seriamente nas estruturas de poder da Igreja e do Vaticano para erradicar o que está podre, limpá-las da "poluição" e reformar e atualizá-las internamente onde necessário. Portanto, é inevitável que o coloquem "na cruz". Não estou surpreso e, acima de tudo, ele não está surpreso.

O que o senhor quer dizer?

Nos primeiros tempos de seu pontificado, Francisco declarava que queria uma Igreja "em saída", transparente e missionária. Ele usufruía de um apoio triunfal da opinião pública e eu pensava comigo mesmo: ele terá muito que sofrer. Eu não tinha dúvidas: iriam atacá-lo. E o primeiro sinal teria sido identificável na intensidade das palmas que o acompanhavam em todas as ocasiões.

Pode nos explicar?

Se um Papa realmente começa a mudar situações travadas por séculos, é impossível que todos, especialmente dentro do recinto católico, continuem a elogiá-lo. Se aplaudem unanimemente, significa que nada foi renovado. Mas quando algumas mãos, começando pelas dos supostos amigos, param de se mexer para aclamá-lo, então a "revolução" já começou. A próxima confirmação são os assobios e os ataques.

Eles vão pará-lo?

Não, o Papa não se deixa intimidar, ele segue em frente.

Como o senhor definiria Francesco em poucas palavras?

Corajoso, com uma força moral e profética extraordinária, porque ninguém antes dele tinha ido tão longe. Este é o Papa que está implementando as reformas mais delicadas da Igreja solicitadas pelo Concílio Vaticano II. Ele está trabalhando para torná-la aberta, dialogante, límpida e pura, como Deus quer.

Ele terá sucesso?

A Igreja está em quarentena. Foi atingida por um vírus terrível: os escândalos, os venenos, as polêmicas resultantes de investigações e decisões clamorosas. Mas o "lockdown" eclesiástico é parte de um processo, uma etapa obrigatória para purificar-se, a partir do Evangelho, de Jesus. Sairá melhor e curada. Para sempre.

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