''Estas são as divergências que me distanciam de Bento.'' Entrevista com Peter Hünermann

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

23 Março 2018

Peter Hünermann, 89 anos, é o teólogo alemão em torno do qual desmoronou o sistema da comunicação vaticana. Foi sobre ele que Bento XVI escreveu na passagem da carta que Dario Edoardo Viganò omitiu de tornar pública e por causa da qual, agora, o monsenhor renunciou.

A reportagem é de Andrea Gualtieri, publicada por La Repubblica, 22-03-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Ao telefone da Alemanha, quando perguntado sobre a poeira levantada nos sagrados palácios, o erudito ri embaraçado. Depois, deixa escapar: “Mamma mia!”.

Eis a entrevista.

Professor, o senhor esperava que o papa emérito se posicionasse contra seu texto de análise do pontificado de Francisco?

Não, realmente.

Mas as divergências entre o senhor e Ratzinger tem raízes consolidadas.

Em 2005, ele se expressou de modo crítico sobre o capítulo que eu escrevera para o Comentário Teológico do Concílio Vaticano II. E depois havia a questão da encíclica Veritatis splendor, de Wojtyla.

Era 1993: o senhor estava entre as vozes que contestaram a imposição de dogmas papais absolutos sobre os temas morais. Ainda está convencido da sua linha?

Houve uma grande discussão entre teólogos e moralistas. Eu tomei posição junto com um grande número de estudiosos, e, depois, a nossa linha foi defendida publicamente. Eu também expliquei a minha argumentação teológica em uma revista especializada.

Nunca teve a oportunidade de discutir pessoalmente com Ratzinger?

Nós nos encontramos e debatemos.

Como se despediram?

Parece que a questão não ficou esclarecida (risos).

O senhor acha que as posições de vocês voltaram a ser atuais com o pontificado de Francisco?

Ele se expressou de modo claro na exortação apostólica Amoris laetitia, quando fala de comunhão aos divorciados em segunda união e enfatiza a importância do discernimento e o papel do confessor.

Pode-se dizer que, nos anos 1990, vocês foram precursores do debate sinodal sobre a família?

Quem sabe? Talvez sim, em certo sentido.

Qual é o elemento mais relevante na reforma da Igreja promovida por Bergoglio?

O estilo evangélico com o qual ele vive: é um impulso espiritual muito forte para todos os católicos, dos bispos aos sacerdotes e aos leigos. E, depois, a importância que ele atribui às Conferências Episcopais locais: é evidente que ele espera delas soluções criativas para os problemas atuais.

A maior autonomia dos episcopados era outro dos pontos pelos quais, na época, vocês lutaram. Mas hoje também há resistências: o cardeal Sarah, por exemplo, tomou uma posição rígida sobre as declinações dos ritos e dos sacramentos.

É verdade. Até mesmo alguns bispos demonstraram que não estão prontos: alguns são mais abertos, outros mais hesitantes. E, além disso, a inovação não é fácil de transmitir em termos pastorais. Mas, sobre isso, o papa atual está em sintonia com o Concílio Vaticano II. Mesmo que sua ênfase ressoe como uma novidade em relação com seus antecessores, de Paulo VI a João Paulo II e Bento XVI.

Ratzinger afirma que há uma “continuidade interior” entre seu pontificado e o de Francisco. O senhor concorda?

Há muitos elementos em comum, mas também muitos aspectos de descontinuidade. Depois, há estilos diferentes, da comunicação à pastoral. Os caráteres são diferentes. E é preciso dizer que um foi papa, o outro é papa agora.

O que Bergoglio escreveu no livro “Homens segundo Cristo” que a Livraria Editora Vaticana pediu que o senhor editasse e que Ratzinger não resenhou?

Eu parti do pressuposto de que o papa atual não é um professor de teologia, mas um pastor. Por isso, quis reler seus escritos doutrinais na contraluz de um dos volumes que é estudado pelos seminaristas, que é a filosofia antropológica de Gabriel Amengual. O resultado está perfeitamente alinhado com aquele texto. Francisco o conhece e claramente busca inspiração nele no seu magistério.

O senhor falou com Viganò sobre a carta de Bento XVI sobre o senhor?

Não, não tive contatos pessoais com Viganò.

Leia mais