Nós, Eles, Todos: a encruzilhada decisiva da teologia. Artigo de Vito Mancuso

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09 Mai 2017

“O nosso tempo impõe uma mudança de paradigma às três religiões monoteístas: antes, a fé era finalizada ao Nós; agora, deve ser finalizada ao Todos: ao Nós + Eles.”

A opinião é do teólogo italiano Vito Mancuso, professor da Universidade de Pádua, em artigo publicado por La Repubblica, 06-05-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

A questão no centro do novo livro de Jonathan SacksNon nel nome di Dio [Não no nome de Deus, em tradução livre], publicado pela editora Giuntina – foi feita por todos nós, mas, formulada por aquele que foi, por muitos anos, rabino-chefe da United Hebrew Congregations of the Commonwealth e que é uma das vozes mais autorizadas do atual debate teológico internacional, assume uma peremptoriedade.

Ei-la: “O judaísmo, o cristianismo e o Islã se definem como religiões de paz, no entanto, todas as três deram origem à violência em alguns momentos da sua história”. Como é possível? Como explicar o paradoxo de religiões que querem a paz, mas que produzem guerra e terrorismo?

A questão interessa a todos, não só aos crentes, porque a religião voltou à cena mundial e voltará cada vez mais; ou, melhor, para Sacks, o século XXI é “o início de um processo de dessecularização”, do qual a prova principal se chama demografia: “Em todo o mundo, os grupos mais religiosos têm a mais alta taxa de natalidade”, enquanto “onde as comunidades religiosas desaparecem, segue-se prontamente o declínio demográfico”.

A religião, portanto, será cada vez mais relevante, e, por isso, é urgente dissolver as suas ambiguidades. E, se à violência produzida por ela deve-se responder militarmente para conter o seu efeito, a fim de erradicar a sua causa, deve-se responder teologicamente: “Não temos outra escolha senão re-examinar a teologia que leva ao conflito violento; se não fizermos esse trabalho teológico, encontrar-nos-emos diante da persistência do terror”.

Naturalmente, a religião não é a causa direta da violência, já que nenhum século foi menos religioso e, ao mesmo tempo, mais violento do que o século XX. A raiz da violência não é a religião. A questão é muito mais complicada, tem a ver com a nossa identidade mais profunda: nós somos potencialmente violentos por sermos animais sociais. Isto é, a nossa tendência a formar grupos está, ao mesmo tempo, na origem da civilização e na origem da violência: “O altruísmo nos leva a fazer sacrifícios em benefício do grupo e, ao mesmo tempo, nos leva a cometer atos de violência contra aquelas pessoas que são percebidas como ameaças ao grupo”.

Aquela vontade de relação que positivamente gera casais, famílias, amizades, comunidades, em outros lugares causa agregações sob a forma de bandos, grupos, clãs, brigadas. Uma humanidade sem grupos é impossível, mas uma humanidade estruturada por grupos é naturalmente violenta. E o ponto é que a religião sustenta os grupos de modo muito mais eficaz do que qualquer outra força: por isso, ela parece ser a maior geradora de solidariedade e, ao mesmo tempo, de intolerância.

Contra essa ambiguidade estrutural da natureza humana manifestada pela religião em sumo grau, Sacks propõe uma “teologia do Outro”, cujo fim é gerar um desejo de identificação com aquele que, por instinto natural, é apenas um inimigo: “Para me curar da violência potencial em relação ao Outro, devo ser capaz de me imaginar como o Outro”. Essa teologia do Outro opera em nível metodológico levando a sair da lógica instintiva Nós-Eles, para abraçar a perspectiva espiritual que sabe ler a realidade do ponto de vista alheio. É o que as religiões chamam de conversão.

O ponto decisivo, porém, é que as religiões entendam que são justamente elas, hoje, que devem se converter para pôr fim à luta recíproca semelhante à “rivalidade entre irmãos”. As três religiões monoteístas, de fato, são “irmãos em competição” para agarrar o papel de verdadeiro depositário da revelação divina.

Por isso, a relação entre judaísmo, cristianismo e Islã tem sido até agora sob o sinal da superação recíproca: “O menor crê que prevaleceu sobre o maior: o cristianismo fez isso com o judaísmo, o Islã fez isso com ambos”. O século XXI, porém, “convida a uma nova leitura”.

Sacks dá o exemplo propondo uma “contra-leitura” de alguns textos decisivos da Bíblia hebraica, porque “os mesmos textos que se encontram na raiz do problema, se justamente interpretados, podem fornecer a solução”. Mediante essa releitura, Sacks mostra de modo magistral que o que os textos realmente dizem não é o que foi recebido nos séculos passados sob o sinal da diferença Nós/Eles e que está ainda hoje na base da rivalidade entre as três religiões abraâmicas, mas é a superação dessa lógica instintiva em vista da paz e da concórdia.

É decisivo notar, porém, que o critério dessa sua “contra-narrativa” é algo de externo ao texto sagrado. Não é a coerência do texto em si, nem a tradição interpretativa: o critério decisivo é a paz.

Por isso, para Sacks, o primado cabe à ética, como na melhor tradição hebraica de Moses Mendelsohn a Hermann Cohen, de Martin Buber a Abraham Heschel, de Hans Jonas a Emmanuel Lévinas. Essa exigência ética faz descobrir que “a Bíblia hebraica contém não apenas uma narrativa, mas também uma contra-narrativa”, com base na qual “o nascimento de Isaac, não destitui Ismael”, e “a escolha de Jacó não significa a rejeição de Esaú”.

Portanto, não há nenhum lugar privilegiado para disputar. Ao invés, há a redescoberta de um Deus universal e pai de todos. É por isso que “o Gênesis descreve dois pactos: o primeiro com Noé e toda a humanidade, o segundo com Abraão e os seus filhos”. O essencial é compreender que o segundo pacto particular é em função do primeiro pacto universal, e não vice-versa, como as religiões sempre pensaram. Essa é a mudança de paradigma que o nosso tempo impõe: antes, a fé era finalizada ao Nós; agora, deve ser finalizada ao Todos: ao Nós + Eles.

O problema é que os textos sagrados das três religiões monoteístas contêm muitas passagens que, interpretadas literalmente, produzem violência e ódio. A esse respeito, Sacks escreve com justiça: “Podemos e devemos reinterpretá-los”. Portanto, é preciso uma grande e honesta purificação dos textos sagrados, assinalando aqueles trechos que incitam ao ódio e à violência, talvez imprimindo-os em corpo menor, certamente acompanhados de comentários adequados. É um dever do qual a teologia e as instituições religiosas não podem mais se eximir.

Esse processo virtuoso na linguagem laica se chama de autocrítica; na linguagem religiosa, conversão; em hebraico, “teshuvá”. O novo livro de Jonathan Sacks é um belo exemplo disso e só podia vir do lado judaico. O cristianismo e o Islã, que, ao contrário do judaísmo, consideram-se religiões universais válidas para todos, serão capazes de aceitar o desafio?

  • Jonathan Sacks. Non nel nome di Dio. Ed. Giuntina, 320 páginas.

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