Teólogo diz que o debate do 'Amoris' sobre comunhão está resolvido na África

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22 Março 2017

Com a aproximação da abertura de uma importante conferência sobre a África que acontecerá em Roma, seu principal organizador, o nigeriano Padre Paulino Odozor, diz que o debate sobre a comunhão para católicos divorciados e recasados civilmente desencadeado pelo 'Amoris Laetitia' já está resolvido na África - e que a resposta é não.

O comentário é de John L. Allen Jr. e Ines San Martin, publicado por Crux, 21-03-2017. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Um encontro em Roma esta semana visa trazer as vozes da África para o mundo e, mesmo antes de acontecer, o principal organizador já está fazendo isso, ao declarar, nesta segunda-feira, que o debate sobre a comunhão para católicos divorciados e recasados civilmente desencadeado pelo Amoris Laetitia já está resolvido na África - e que a resposta é "não".

"Nas paróquias comuns na maior parte da África, observa-se que as pessoas que estão na situação de que você está falando não se apresentam para a comunhão, porque eles aceitam que estas são as regras," disse o padre Paulino Odozor, um teólogo nigeriano que leciona na Universidade de Notre Dame.

"Estabelecemos isso há muito tempo", disse ele, falando abertamente sobre a possibilidade de os católicos divorciados e recasados civilmente receberem a comunhão: "não podem".

Odozor falou no "The Crux of the Matter", o programa de rádio semanal da Crux, que vai ao ar no Canal Católico Sirius XM 129, toda segunda-feira às 13h EST (Eastern Standard Time).

Ele está em Roma como o principal organizador de uma conferência que acontece de 22 a 25 de março, intitulada "African Christian Theology: Memories and Mission for the 21st century" (em português, Teologia Cristã Africana: memórias e missões para o século XXI), organizada pelo Global Gateway Center da Universidade de Notre Dame.

Odozor disse que tem ficado frustrado, até mesmo enojado, com o foco obsessivo do debate católico acerca do Amoris no ocidente na questão da comunhão.

"O problema do Ocidente é que ele reduz as coisas, restringindo um texto como aquele a uma ou duas questões", disse ele. "Relendo Amoris Laetitia, fiquei impressionado com sua incrível riqueza. Nós, na África, às vezes nos questionamos sobre a forma como o catolicismo no ocidente pega uma questão e concentra-se apenas nela, sem olhar para todo o contexto.

"É terrível", ele disse, "e torna-se até repulsivo".

A respeito de outros assuntos, Odozor disse que a maior qualidade da Igreja na África é o seu povo.

"As pessoas são nosso maior bem, um povo animado de Joanesburgo a qualquer outro lugar na África," disse ele. "São as pessoas, sua fé. Sempre que sinto minha fé mais baixa, basta arranjar dinheiro para comprar uma passagem para qualquer país na África!" A respeito de desafios, ele citou a necessidade urgente de uma "segunda onda" de evangelização.

"Os Estados Unidos têm centenas de faculdades e universidades católicas e a África precisa de instituições como essas", afirmou. "A primeira evangelização já aconteceu, mas é necessária uma segunda onda, que é uma tarefa tanto institucional quanto intelectual... Precisamos dar uma sustentação consistente ao pensamento do Cristianismo e ao Catolicismo Africanos, uma base teológica consistente".

Em uma explosão de nacionalismo, Odozor também previu que se o Papa Francisco visitar o seu país natal, a Nigéria, eles devem bater o recorde de público de seis milhões de pessoas em um evento papal, conquistado pelas Filipinas em janeiro de 2015.

Eis a entrevista.

Você está reunindo clérigos, teólogos, ativistas e leigos e estudantes. A ideia é trazer representantes de toda a Igreja católica na África?

Sim, é isso que tentamos fazer. Para ter um bom diálogo, tentamos atingir todos os tipos de pessoas da comunidade. Nós tentamos atingir as pessoas que representam várias vozes e vários segmentos da comunidade, para que juntas elas nos digam sobre sua Igreja, para discutir a Igreja, ponderar sobre o futuro da Igreja, celebrar as realizações de sua Igreja e nos dizer o que ela poderia estar fazendo melhor para tornar o Evangelho de Cristo mais conhecido na África e tornar a África um lugar melhor.

Quem é o público-alvo? É a própria comunidade cristã na África ou você quer que a voz da África seja ouvida pelo resto da Igreja?

Ambas as coisas. Em primeiro lugar, esses vários segmentos da comunidade cristã na África e o diálogo entre eles são um componente da conferência. Mas também é verdade que estamos indo a Roma deliberadamente, pois é lá que o mundo católico se encontra. As pessoas que não podem viajar ao redor da África podem ver e ouvir. Estamos tentando ter certeza de que as realidades da África estarão lá.

Algo assim tem seus riscos, sabe. Você tem que estar preparado para lavar roupa suja em público, na frente de todo mundo. Essa escolha é corajosa, mas o que mais podemos fazer? Se a África quer ser levada a sério, tem que ser honesta sobre si mesma. Não queremos que as pessoas apenas ouçam as coisas maravilhosas que estamos fazendo. Também queremos que elas ouçam as coisas ruins que estamos fazendo e as coisas que não estamos fazendo bem.

Também queremos que outras pessoas vejam o que a África está fazendo. Um grupo que você não mencionou [na conferência] é o das pessoas que não são africanas, mas que têm interesse na África... a Igreja Africana não está fechada em si mesma, mas é uma Igreja que quer celebrar a sua catolicidade, que quer ser Igreja à sua própria maneira, mas também quer ser 'Igreja' em comunhão com as outras igrejas do mundo.

Você mencionou que é preciso ser realista sobre a África. O que você diria que é o principal recurso da Igreja na África e o que precisa ser melhorado?

As pessoas são nosso maior bem, um povo animado de Joanesburgo a qualquer lugar na África. São as pessoas, sua fé. Sempre que sinto minha fé mais baixa, basta arranjar dinheiro para comprar uma passagem a qualquer país na África!". Venho rejuvenescido, mesmo liturgicamente, tudo.

Mas, sabe, o Cristianismo africano também está enfrentando muitos desafios: desafios do pentecostalismo e assim por diante. O próprio Cristianismo Africano está enfrentando o desafio de ter raízes profundas não só na cultura, mas também no Evangelho. Pode-se dizer que isso não acontece apenas na África, que é o desafio em qualquer lugar, mas a África tem suas próprias especificidades nesse desafio. Lembre-se de que são Igrejas jovens.

Há também a questão do apoio institucional para a Igreja na África. Sou professor em Notre Dame, mas não temos algo equivalente a Notre Dame na África. Os Estados Unidos têm centenas de faculdades e universidades católicas e a África precisa de instituições como essas. "A primeira evangelização já aconteceu, mas é necessária uma segunda onda, que é uma tarefa tanto institucional quanto intelectual... Quando nos reunimos em uma conferência como essa, é a nossa pequena contribuição para esse esforço. Precisamos dar uma sustentação consistente ao pensamento do Cristianismo e ao Catolicismo Africanos, uma base teológica consistente, e queremos ver o que podemos fazer ao refletir sobre este desafio.

Vamos falar sobre o quanto a Igreja na África é diferente da Igreja no Ocidente. Neste momento, o Ocidente está capturado pelo debate sobre Amoris Laetitia e especificamente sobre a questão de católicos divorciados e recasados civilmente poderem receber a comunhão. Isso é algo pelo qual a África sequer se interessa?

O problema do Ocidente é que ele reduz as coisas, restringindo um texto como aquele a uma ou duas questões. Relendo Amoris Laetitia, e eu reli vindo no avião, fiquei impressionado com sua incrível riqueza. Nós, na África, às vezes nos questionamos sobre a forma como o catolicismo no ocidente pega uma questão e concentra-se apenas nela, sem olhar para todo o contexto. É terrível e pode ser nojento... mesmo que haja um debate sobre os católicos divorciados e recasados e a comunhão, isso não deve ser descontextualizado.

Especificamente sobre a questão de se alguém que se divorcia e se casa novamente fora da Igreja pode receber a comunhão, isto é um problema para a Igreja na África?

Não, porque já resolvemos isso há muito tempo. Não podem.

E todos aceitam isso?

Todos aceitam isso.

Em toda a África? A resposta seria a mesma tanto na África do Sul quanto na Nigéria, por exemplo?

Acredito que sim. Basicamente, nosso problema na África não é o divórcio, o recasamento e os católicos receberem os sacramentos ou não. O nosso problema é o que fazer com a poligamia e as famílias polígamas, coisas assim. Nas paróquias comuns na maior parte da África, observa-se que as pessoas que estão na situação de que você está falando não se apresentariam para a comunhão, porque eles aceitam que estas são as regras. Não é um problema, especialmente considerando que as pessoas agora têm a oportunidade de avaliar seus casamentos e perguntar se foram feitos de maneira válida [através do processo de anulação]. Se foi feito de maneira válida, então, bem... que pena!

Incomoda quando as pessoas falam sobre a Igreja 'na África', como se fosse a mesma coisa em todo o continente?

Não tem problema, porque há semelhanças.

Para concluir, qual a opinião dos católicos africanos sobre o Papa Francisco?

Eles o amam, o amam. Nós adoraríamos, no entanto, que ele nos visitasse mais vezes! Santo Padre, se estiver ouvindo, nós te amamos e nós adoraríamos tê-lo por perto.

[O que impressiona os africanos sobre Francisco] é sua simplicidade, sua honestidade... sabe, esse cara é um pastor e ele vai no cerne da questão, como fazem os pastores. Ele nem sempre coloca as coisas em grande linguagem teológica, mas bons pastores têm esta coisa, eles sabem como falar com as pessoas. Talvez você nem sempre goste do que fazem, mas respeita a intenção, que é levar Cristo às pessoas e fazer o Evangelho funcionar para elas.

Nós, teólogos, gastamos muito tempo discutindo sobre isto ou aquilo e tudo bem, somos pagos para fazer isso, mas o povo o adora.

Imagine que o Papa Francisco visite a Nigéria e faça uma parada em Lagos. Que multidão ele alcançaria?

Milhões ...

Os Filipinos bateram o recorde com 6 milhões para ver o Papa em Manila em janeiro de 2015.

Nós podemos vencê-los!

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