WhatsApp: o ícone das transformações de uma época. Entrevista especial com Maurício Moura

Foto Teleguiado

Por: João Vitor Santos | 03 Janeiro 2019

Até bem pouco tempo atrás, nenhum analista político se arriscava nas projeções antes de iniciar a propaganda eleitoral gratuita no rádio e na TV, tida como uma grande arma para aproximar candidatos e eleitores. Mas a campanha de 2018 quebrou essa lógica, vide a eleição de Jair Bolsonaro, candidato com um dos menores tempos no horário eleitoral. “Um dado do Facebook apontava que os brasileiros olham o celular em média 30 vezes por dia para acessar a internet (incluindo o WhatsApp nessa). O hábito dos brasileiros está ‘colado’ com o uso do celular. Portanto, por que isso mudaria durante a campanha?”, questiona o pesquisador Maurício Moura. Para ele, o sucesso de figuras como Bolsonaro está diretamente ligado ao fato de reconhecerem essa realidade e apostar nessas ferramentas como os principais canais de comunicação com o eleitor. “Nossa estimativa nos levou a concluir que cerca de 50 milhões de eleitores recebiam conteúdo eleitoral todos os dias. Um impacto enorme na campanha”, indica.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, Moura ainda aponta de que forma esse protagonismo de ferramentas como as redes e o próprio WhatsApp vem interferindo até mesmo na relação dos eleitores com os veículos de imprensa. “Os eleitos não precisam mais da imprensa tradicional para falar diretamente com as pessoas. A imprensa passará a ter um papel de menor protagonismo para ‘dar voz’ aos políticos”, avalia. Mas essas não são as únicas mudanças. “Acabou a era de achar que fazer grupos focais de maneira tradicional ajuda a entender algo”, acrescenta, lembrando da própria forma de avaliar as campanhas.

Além disso, as relações entre as próprias pessoas também sofrem mudanças desde as lógicas do WhatsApp. “A velocidade e escala trazem consigo mais ansiedade nas relações sociais. Todos querem tudo muito rápido e a vida muitas vezes não acompanha essa demanda”, observa. E, diante de tantas mudanças, é óbvio que o próprio espaço político se reconfigura. Para Moura, converte-se num “espaço certamente mais democrático, mas seguramente mais perigoso para a disseminação de mentiras”. “Vai exigir muita responsabilidade dos políticos e usuários (algo raro nas últimas campanhas)”, alerta.

Maurício Moura (Foto: Arquivo Pessoal)

Maurício José Serpa Barros de Moura é economista e pesquisador brasileiro na área de políticas públicas e análises eleitorais na The George Washington University, nos Estados Unidos, e participante do Owner/President Management Program da Harvard Business School. Possui PhD em Economia e Política do Setor Público e é fundador da empresa IDEIA Big Data, que atua na área de pesquisas.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Logo após as eleições do primeiro turno em 2018, o senhor considerou que o “grande eleitor foi o WhatsApp” . Por quê?

Maurício Moura – Porque todo o conteúdo (positivo, negativo e fake news) das eleições passou pelo ambiente do WhatsApp. Fizemos, no IDEIA Big Data, uma pesquisa e aproximadamente 80% das pessoas dizem ter recebido conteúdo político durante a campanha e 70% desses receberam diariamente. Nossa estimativa nos levou a concluir que cerca de 50 milhões de eleitores recebiam conteúdo eleitoral todos os dias. Um impacto enorme na campanha.

IHU On-Line – A campanha eleitoral nem havia iniciado e o senhor já previa que o WhatsApp seria a rede mais importante nas eleições brasileiras. O que baseou esse seu diagnóstico?

Maurício Moura – Dois fatores: o primeiro foi o fato da plataforma ter sido protagonista nos pleitos presidenciais do México e da Colômbia. O Brasil tinha tudo para caminhar na mesma trajetória. O segundo, e mais importante, um dado do Facebook apontava que os brasileiros olham o celular em média 30 vezes por dia para acessar a internet (incluindo o WhatsApp nessa). O hábito dos brasileiros está “colado” com o uso do celular. Portanto, por que isso mudaria durante a campanha? Foi essa nossa avaliação.

IHU On-Line – O que explica a grande popularidade do WhatsApp, superando muitas vezes até Facebook, Twitter e Instagram?

Maurício Moura – O fato de ser gratuito e privado ao mesmo tempo. As pessoas se comunicam sem “gastar” e isso aumenta o volume de interações. Além disso, os grupos são fechados e garantem mais privacidade que o Facebook e o Instagram. Para completar, o WhatsApp não possui “algoritmos” selecionando conteúdo. Tudo circula a todo o momento.

IHU On-Line – Nesta campanha eleitoral, o WhatsApp foi tido como a principal ferramenta de disseminação de notícias falsas. Como o senhor compreende esse fenômeno?

Maurício Moura – As fake news sempre estiveram presentes em campanhas eleitorais. A diferença é que temos plataformas que promovem escala e velocidade. E, na realidade, a guerra contra as fake news será vencida somente com educação dos usuários, e não via controle das plataformas.

IHU On-Line – Que espaço político emerge dessas redes sociais, especialmente o WhatsApp?

Maurício Moura – Um espaço certamente mais democrático, mas seguramente mais perigoso para a disseminação de mentiras. Vai exigir muita responsabilidade dos políticos e usuários (algo raro nas últimas campanhas). E, como mencionei antes, passa pela educação.

IHU On-Line – Que outras mudanças ou rupturas essas ferramentas, como WhatsApp e redes sociais, têm trazido para as relações sociais?

Maurício Moura – Baseado nas nossas pesquisas na Universidade, a velocidade e escala trazem consigo mais ansiedade nas relações sociais. Todos querem tudo muito rápido e a vida muitas vezes não acompanha essa demanda. Dito isso, a academia ainda está longe de ter um diagnóstico definitivo.

IHU On-Line – O senhor tem acompanhado os efeitos da incidência do Big Data em sistemas eleitorais em diversos lugares do mundo. Gostaria que analisasse essas transformações nos pleitos pós-Big Data e relacionasse com a realidade brasileira.

Maurício Moura – Do ponto de vista estritamente eleitoral, as análises de opinião pública exigem ir além de olhar as pesquisas de intenção de voto. Precisamos monitorar as redes, necessitamos entrar na rotina via tecnologia e trazer elementos qualitativos com muito mais rapidez. Acabou a era de achar que fazer grupos focais de maneira tradicional (convidando pessoas para conversar num ambiente controlado) ajuda a entender algo. Sob a perspectiva do eleitor, o mesmo hoje possui acesso à informação com grande volume e velocidade como nunca antes. Isso significa, na prática, que pode mudar de ideia e opinião muito mais rápido. Tal representa um desafio extraordinário para quem faz pesquisa.

IHU On-Line – Que similaridades e dissociações o senhor observa na eleição de Donald Trump, nos Estados Unidos, e de Jair Bolsonaro, no Brasil, levando em conta o papel da internet e das redes sociais?

Maurício Moura – Do ponto de vista macro, ambos criaram uma narrativa de candidatos “fora e contra o sistema”. Para fortalecer esse posicionamento, os canais pouco tradicionais (mais modernos) de comunicação foram essenciais. No caso do presidente americano, foi o Facebook e o Twitter, e para Jair Bolsonaro foi o WhatsApp.

IHU On-Line – Jair Bolsonaro foi eleito presidente da República sem ter participado de debates em redes de televisão e rádio e sem conceder muitas entrevistas, fazendo de suas redes sociais a principal via de comunicação com o eleitor. Como tem observado esse processo? E quais os limites dessa “nova política”?

Maurício Moura – Isso mudou e é definitivo. Os eleitos não precisam mais da imprensa tradicional para falar diretamente com as pessoas. A imprensa passará a ter um papel de menor protagonismo para “dar voz” aos políticos. Todavia, o caso Bolsonaro é único porque teve um tema de saúde envolvido que o impediu de participar da maioria dessas atividades. Dito isso, não acho que seja crível passar por futuras campanhas sem participar de entrevistas e debates.

IHU On-Line – Como analisa as iniciativas e propostas de controle e regulação sobre redes sociais no Brasil, especialmente visando o combate às notícias falsas?

Maurício Moura – Importantes mas não atacam o principal que é a educação dos eleitores/usuários.

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