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Por: Cesar Sanson | 23 Junho 2016

"Encerrado o conflito, tem início a tarefa de diminuir a profunda assimetria existente entre a Colômbia sofisticada e a Colômbia selvagem. Com o acordo de paz, é um outro país que se põe em marcha, mas os desafios colocados para que ele siga adiante são enormes. O que vem pela frente, sem dúvida, não será fácil, mas será menos ruim do que os 225.000 mortos e os seis milhões de pessoas deslocadas pelo país". O comentário é de Joaquín Villalobos, ex-guerrilheiro salvadorenho e assessor do Governo colombiano no processo de paz com as FARC, em artigo publicado por El País, 22-06-2016.

Eis o artigo.

Meio século de conflito, várias tentativas de negociação frustradas, dois anos de conversações secretas e quatro de negociações públicas — eis o caminho percorrido e que levou a guerrilha das FARC a assinar em Havana o acordo de cessar-fogo e de desarmamento.

As aproximações confidenciais tiveram início no começo de 2010, durante o Governo do presidente Álvaro Uribe, agora o principal opositor do processo. Esses contatos foram retomados pelo presidente Juan Manuel Santos e, no final daquele ano, começaram as conversações secretas, acertando-se uma agenda que incluiu o desarmamento e se definiu Havana como sede das negociações.

Durante todos esses anos, a opinião pública colombiana se manteve dividida entre os que acreditavam e os que não acreditavam que o desarmamento da guerrilha seria possível. Com esse acordo, as FARC colocaram suas armas sobre a mesa, mas com uma data definida para abandoná-las, razão pela qual o mito de que isso não seria possível foi demolido.

Fala-se muito nas garantias e mecanismos definidos para que os acordos sejam cumpridos, mas a realidade é o seu principal fiador. Depois de várias décadas de violência constante, é do interesse do próprio Estado colombiano estar presente e levar o desenvolvimento para a Colômbia rural, profunda e selvagem. Da mesma maneira, após meio século de luta armada, é do interesse das próprias FARC abandonar as armas e passar para a luta política. Em sua essência, o acordo de paz é o encontro histórico desses dois interesses. Em meio a esse processo, deverão ser tratados os estragos deixados pelo conflito quanto à reinserção, justiça, vítimas e o narcotráfico.

Avançar não significa dizer que as dificuldades terminaram. Avançar é trocar alguns tipos de problemas por problemas de outro tipo, que surgem como produto do fato de que os anteriores foram solucionados. O grande desafio da situação de pós-conflito será a pacificação em áreas onde a insurgência, o para-militarismo e a criminalidade se tornaram, na ausência do Estado, profissões reconhecidas, respeitadas e remuneradas.

Encerrado o conflito, tem início a tarefa de diminuir a profunda assimetria existente entre a Colômbia sofisticada e a Colômbia selvagem. Com o acordo de paz, é um outro país que se põe em marcha, mas os desafios colocados para que ele siga adiante são enormes. O que vem pela frente, sem dúvida, não será fácil, mas será menos ruim do que os 225.000 mortos e os seis milhões de pessoas deslocadas pelo país.

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