Mulheres e o diaconato. O sucesso da Comissão depende dos membros e sua abertura

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08 Junho 2016

Papa Francisco deu um passo inesperado, mas importante, quando ele anunciou que "parece útil para mim ter uma comissão que esclareça" a questão da ordenação de mulheres ao diaconato.

O comentário é expresso em editorial de National Catholic ReporterNCR, 03-06-2016. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

O anúncio de 12 de maio veio em resposta a perguntas durante uma reunião entre o papa e 900 líderes de congregações globais de mulheres religiosas.

Qualquer pessoa levemente familiarizada com a forma como a igreja funciona entende que ela pensa em termos de milênios e as mudanças acontecem gradualmente, às vezes com acréscimos tão pequenos que podem ser imperceptíveis no espaço de uma vida individual. Neste sentido, a comissão proposta por Francisco é um salto à evolução. Um estudo, no entanto, é apenas um estudo, e o esforço será certamente muito mais complicado do que parece.

Apesar das expectativas, é essencial entender as duas realidades em jogo:

  • A Igreja Católica continuará seriamente deficiente em áreas importantes e cada vez mais carente de credibilidade, até que, assim como a Irmã Misericordiosa Theresa Kane suplicou ao Papa João Paulo II em 1979, a Igreja abra-se "à possibilidade de as mulheres, como pessoas, serem incluídas em todos os ministérios". A pressão está aumentando de forma constante por detrás da parede da negação dos clérigos homens. O absurdo de reivindicar universalidade, enquanto se exclui as mulheres dos círculos onde as decisões mais importantes são tomadas, não pode mais se refugiar em posicionamentos teológicos e antropológicos arcaicos.
  • O controle da Igreja Católica permanece nas mãos de uma minúscula porção da comunidade, e esta parte é exclusivamente masculina e quase inteiramente celibatária (existem alguns padres casados). A eclesiologia da Igreja, suas estruturas, seus rituais, seus cânones, seus ensinamentos, suas interpretações da Escritura, sua compreensão de Deus – são todos prescritos a partir de uma cultura exclusivamente masculina e celibatária. A maioria dos católicos, então, vive os sonhos eclesiásticos de homens de 2.000 anos atrás, inclusive sobre como a Igreja "entende" as mulheres.

Em algum lugar entre esses pólos, houve agora uma pequena sacudida, com essa ideia de que a igreja vai estudar a possibilidade de ter diáconas mulheres.

A curto prazo, no contexto dos últimos 35 anos aproximadamente, a proposta é histórica e poderia mudar drasticamente a vida na Igreja como a conhecemos. Afinal, nas últimas décadas, os católicos foram impossibilitados de pensar em tais coisas, um decreto risível de longe, se não fosse inerentemente inumano. E os seres humanos não poderiam considerar o pensamento ou a assunto fora de questão.

No longo percurso da história da Igreja, a sugestão de que as mulheres possam ser ordenadas como diáconas é um pequeno consolo somente se ele for um passo em direção a uma maior inclusão na plenitude do ministério da Igreja.

O sucesso da comissão proposta por Francisco vai depender muito de dois pontos: quem será nomeado para a comissão e quão transparente o processo será.

Um estudo acadêmico profundo, rico e vibrante acerca do diaconato e das mulheres no diaconato já existe. A comissão do Vaticano deve permitir uma ampla variedade de pensamentos sobre esta questão, mas tão importante quanto isso é incluir estudiosos que já estejam profundamente imersos na discussão acadêmica e ter um número substancial de mulheres como membros.

Poucos dias antes de Francisco falar sobre diáconos, a Universidade de St. Michael’s College na Universidade de Toronto, um dos programas de teologia mais respeitados na América do Norte, patrocinou o simpósio "Mulheres, Diaconato e o Futuro do Ministério". Cada painel e palestra apresentava especialistas reconhecidos nas áreas da história da Igreja, Escrituras e teologia pastoral. Qualquer um dos palestrantes da conferência seria bem vindo em alguma comissão do Vaticano que estuda o assunto.

Uma comissão que não inclui especialistas reconhecidos – assim como aqueles em Toronto, mas também há outros – teria dificuldades para construir sua credibilidade. NCR, é claro, endossaria a participação de Phyllis Zagano, nossa colaboradora de longa data e principal autoridade no tema das diáconas mulheres, como membro.

Tão importante quanto os membros da comissão são os processos adotados para seu trabalho. O processo deve ser público e transparente; não devem haver sessões a portas fechadas e relatórios confidenciais. Esta comissão seria um exercício perfeito nas estruturas da Igreja sinodal que Francisco está tentando promover.

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