O governo argentino está à procura da bênção do Papa

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Por: André | 31 Mai 2016

O Governo argentino começou uma ofensiva para mostrar-se próximo ao Papa, após o encontro que Jorge Bergoglio teve com a presidenta da Associação Mães da Praça de Maio, Hebe de Bonafini, no qual ela considerou que Francisco estava triste porque a Argentina vive um clima similar ao que houve após a derrocada de Juan Domingo Perón. No domingo, o secretário da Juventude, Piter Robledo, divulgou seu encontro com o Papa e disse: “Francisco me disse que não acredita que estejamos vivendo um clima como o de 1955”. No entanto, o chefe de Gabinete, Marcos Peña, apressou-se em elogiar uma iniciativa propiciada pelo Papa.

A reportagem é publicada por Página/12, 30-05-2016. A tradução é de André Langer.

A mensagem que o Governo procura transmitir é que não há nenhum tipo de conflito com o Vaticano. Os gestos ocorrem depois que o PRO [Proposta Republicana] questionou algumas ações do Papa, como enviar um rosário a Milagro Sala ou receber Bonafini. Nessa oportunidade, Peña mostrou-se decepcionado e comparou a Mãe da Praça de Maio com aqueles que tentaram assassinar João Paulo II ou aqueles que implantaram a segregação racial na África do Sul.

Uma grosseria pela qual o chefe de Gabinete nunca se desculpou, embora o Governo tenha entrado para rever sua estratégia depois que a dirigente filomacrista Margarita Barrientos assegurou que o Papa não quis recebê-la e a informação depois ficasse relativizada: o Papa convidou-a, mas Barrientos – que não perde uma oportunidade para elogiar o Macri – negou-se a ir.

A vice-presidenta Gabriela Michetti disse que o Papa não entendia o projeto de Macri. Depois teve que voltar atrás e dizer que não tiveram a oportunidade para explicá-lo “em apenas 20 minutos”, em uma crítica velada ao pouco tempo que o Papa concedeu ao Presidente no Vaticano.

Mas talvez o gole mais amargo para os macristas foram as duas horas que Bergoglio concedeu a Bonafini, a puros risos. Com um gesto mais adusto, recebeu Macri, e por poucos minutos. Após e encontro, Bonafini falou de um Papa entristecido com o revanchismo na Argentina.

Para responder a Bonafini, o Governo escolheu o subsecretário da Juventude, que poucos dias atrás demitiu da secretaria cerca de 30 pessoas acusando-as de serem militantes kirchneristas para substituí-las por jovens do PRO. “Não quero que a secretaria seja um locar partidário”, disse Robledo, sem ruborizar.

Com a mesma onipresença, Robledo disse no domingo após o seu encontro com o Papa: “Francisco me disse que não acredita que estejamos vivendo um clima como o de 1955”. “Aproximei-me e conversei ao ouvido para dizer-lhe que confiasse em nosso Governo, que estávamos trabalhando para os que menos têm e que não acredite naqueles que dizem o contrário. Disse-lhe que não é verdade que somos a direita e que fique tranquilo que estamos trabalhando pela unidade, para ao menos tentar diminuir a brecha”, disse Robledo.

Peña trilhou o mesmo caminho, que celebrou o fato de que o primeiro Jogo pela Paz será em La Plata, Argentina. “É uma alegria apoiar o projeto Scholas Ocurrentes com a marca que lhe deu o Papa Francisco como ferramenta de difusão dos valores da paz, da inclusão, do respeito pela diversidade e do encontro entre os jovens de todo o mundo”, disse o chefe de Gabinete. Na sexta-feira, Macri assinou um decreto pelo qual manifestou “seu compromisso com os valores e as ações promovidas pelo Papa Francisco através da Fundação Scholas Ocurrentes”.

As palavras de Bonafini também provocaram a resposta da Igreja argentina. “Hebe de Bonafini não é a pessoa indicada para informar o Papa sobre a situação da Argentina”, disse o bispo Jorge Casaretto. “O Papa tem canais de informação muito melhores. Há uma Igreja na Argentina, há bispos, há Conferência Episcopal. Nós somos informantes melhores”, disse.