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Por: André | 11 Maio 2016

“Um bom cristão ou qualquer cidadão de boa consciência não poderia nunca apoiar um candidato a presidente que é um assassino em massa e que indica abertamente uma política de execuções extrajudiciais como parte integrante de seu programa”. Desta maneira, em uma carta pastoral intitulada “Questão de consciência”, o arcebispo Antonio Ledesma, jesuíta de Cagayán de Oro, tratava de advertir, há um mês, os eleitores filipinos sobre a candidatura de Rodrigo Duterte, ex-prefeito de Davao, cidade da ilha de Mindanao.

A reportagem é publicada por Religión Digital, 10-05-2016. A tradução é de André Langer.

Hoje, Ledesma e outros eminentes bispos católicos, como o presidente do episcopado, Sócrates Villegas, que criticaram abertamente o líder, estão perplexos com o resultado das eleições presidenciais que consagram Duterte como novo presidente da República das Filipinas. Duterte, de 71 anos, conquistou, segundo os resultados quase definitivos, cerca de 40% dos votos, com uma grande vantagem em relação ao segundo colocado.

Os filipinos quiseram dar um sinal de mudança clara ao eleger “um homem forte” como sucessor do liberal Benigno Aquino, filho da histórica presidenta Corazón Cojuanco, que devolveu a democracia às Filipinas, depois da era do ditador Marcos.

Este personagem foi evocado durante a campanha eleitoral e Duterte esteve inclusive vinculado a ele, posto que em seu Davao tolerou (e, segundo alguns, promoveu) a obra dos “esquadrões da morte”, grupos paramilitares responsáveis por mais de 1.400 execuções extrajudiciais impunes e que tinham a tarefa de “limpar” o território de criminosos.

“Estes homicídios são imorais e ilegais”, escreveu Ledesma, recordando que, “como cristãos, acreditamos na dignidade de cada pessoa, criada à imagem e semelhança de Deus, da qual surgem os direitos humanos, como o direito à vida”.

E, com tons mais fortes, que evocam cenários apocalípticos, indicou: “Este monstro infernal é um Pol Pot que não duvidará na hora de matar massas de pessoas. Novos campos de extermínio como no Camboja serão um fenômeno difundido, caso Duterte for eleito Presidente”.

Pois bem, agora, apesar de todas as tentativas para deslegitimá-lo, este “monstro”, este “moderno Pol Pot”, este “demônio” ocupará a cadeira presidencial do Palácio Malacanang em Manila e governará o país.

Toda a conferência episcopal católica, sob a liderança dos arcebispos Villegas, Ledesma, Palma e Cruz, exortou publicamente os católicos “para não votar em Duterte”. Padres e freiras se reuniram em oração para pedir aos eleitores para “não votar neste demônio”, a quem descreviam como “expressão das forças do mal”.

Apesar da forte e evidente oposição da Igreja, agora os hierarcas precisam assimilar a fragorosa derrota nesta rodada eleitoral. E, seguramente, marcará definitivamente uma mudança de época na sociedade filipina, marcando o fim da influência da Igreja nas decisões políticas, e também morais, das pessoas.

De fato, justamente porque o voto foi apresentado como “uma eleição entre o bem e o mal”, e os cidadãos, apesar de tudo, elegeram Duterte, compreende-se que o discernimento sobre as próprias decisões cotidianas dos fiéis já não depende do clero.

Ficam no passado os tempos em que, com uma mensagem pela Rádio Veritas, o cardeal de Manila, Jaime Sin, chamava os fiéis que, munidos de rosários, se manifestaram pacificamente nas ruas (em 1986) para acabar com a ditadura do general Ferdinando Marcos. Passaram-se 30 anos (e as eleições de hoje também tinham este aspecto simbólico) e a sociedade filipina mudou profundamente. Este modelo de Igreja, evidentemente, já não conta com o mesmo atrativo entre as mesmas gerações (de 100 milhões de habitantes, os jovens constituem mais de 30% da população).

Há quatro anos, a aprovação no Parlamento da lei sobre a “saúde reprodutiva” (que legalizava os métodos de controle da natalidade), fortemente criticada pela Igreja, representou um alarma. Agora, a questão se mostra com toda clareza.

O novo presidente pode proclamar, com desprezo, que “a Igreja católica não terá nenhum papel na minha administração”. “Não me importa se a hierarquia católica não me aprova”, disse pouco antes da eleição. “Deixem que estas eleições sejam uma espécie de referendo, uma espécie de plebiscito entre mim e a Igreja”, acrescentou seguro de si mesmo.

Duterte teve razão e a Igreja filipina, no país orgulhosamente mais cristão da Ásia (os fiéis representam 93% da população), está atônita: por um lado, é culpada de ter se envolvido demais na política e, por outro, chegou tarde para compreender que a credibilidade e a autoridade, além da fidelidade do povo, não se ganham com o enfoque de uma Igreja que mostra os dentes, que dita a linha, mas convertendo-se em um canal transparente da graça de Cristo capaz de iluminar as consciências.

A partir de agora, a Igreja filipina viverá o paradoxo de sentir-se “minoria”, ao passo que, no papel, é numericamente uma “maioria”. Um banho de humildade e um exame de consciência serão muito úteis, sobretudo para recobrar a vida do simples testemunho evangélico. Inclusive na era de Duterte.

De fato, algumas horas antes do anúncio da vitória de Duterte, o arcebispo Sócrates Villegas, presidente da Conferência Episcopal das Filipinas, prometeu uma atitude de “colaboração vigilante” por parte da Igreja com os candidatos eleitos em todas as instâncias. “Solicitamos aos fiéis para que trabalhem com o governo pelo bem de todos e seguiremos sendo vigilantes com a finalidade de ensinar e professar, admoestar e corrigir: esta é a nossa vocação”, explicou dom Villegas em uma nota recebida pela Agência Fides.

Dirigindo-se aos eleitos, disse: “Vossa vitória não vem nem da fama nem da popularidade, mas de Deus que os chamou para o serviço e o cuidado das pessoas mais fracas e em dificuldade”, destacando que a Igreja lhes assegura “sua oração, principalmente para que tenham sabedoria, para que possam discernir a vontade de Deus para o seu povo”.

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