Seis coisas para procurar em “Amoris Laetitia”

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07 Abril 2016

"Em lugar de pontuar definições que seriam difíceis de alterar no futuro, a Igreja às vezes, como fez no Vaticano II, deixa as coisas um pouco bagunçadas de forma que a doutrina tenha tempo para se desenvolver", escreve o padre Thomas Reese, jesuíta e jornalista estadunidense, em artigo publicado por National Catholic Reporter, 05-04-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis o artigo.

Amoris Laetitia”, a tão esperada exortação apostólica escrita pelo Papa Francisco em reposta ao Sínodo sobre a família, será lançada na próxima sexta-feira, dia 8 de abril no Vaticano. O título latino significa, em português, “A alegria do amor”.

Aqui apresento seis coisas a procurarmos na exortação quando ela estiver publicada.

Primeiro, lembre-se de que a maioria dos católicos vivem no sul global. Portanto, o que este documento diz para eles? Será que a exortação preocupa-se somente com questões norte-americanas e europeias, ou será que ela tem algo a dizer aos milhões de católicos e católicas do sul?

Na África, por exemplo, a Igreja vem se esforçando para descobrir uma forma de conciliar a vida sacramental da Igreja – especialmente o matrimônio – com as tradições africanas.

Assim, enquanto que nos países ocidentais, que seguem o direito romano, o matrimônio é visto como um contrato legal entre um homem e uma mulher que acontece quando as palavras de consentimento são proferidas, na África, o matrimônio é muitas vezes um acordo envolvendo duas famílias que se dá gradualmente ao longo dos anos. Não há um momento mágico.

Visto que Francisco é o primeiro papa do sul global, podemos ter certeza de que as pessoas do sul estiveram presentes em seus pensamentos enquanto ele escrevia a exortação.

Segundo, o que a exortação diz sobre as famílias que sofrem com a pobreza e com a marginalização?

O amor deveria conquistar a todos, mas a pobreza, a guerra e a migração forçada são obstáculos que tornam difícil a vida em família – quando não impossível. Esta é uma realidade para muitíssimas delas.

Quando um pai salvadorenho tem de deixar sua família por anos para encontrar trabalho nos Estados Unidos, quando refugiados asiáticos ou africanos são forçados a sair de suas casas por causa de conflitos civis, como podemos esperar que a vida em família prospere?

Em sua encíclica Laudato Si’, o Papa Francisco condenou as causas econômicas e políticas da poluição ambiental; não se surpreenda caso ele salientar como o capitalismo e a globalização têm feito mal a famílias. A família em que o pai está desempregado enfrenta dificuldades para sobreviver. Ele vai querer uma ação governamental de apoio a elas.

Terceiro, procurar por um tom pastoral.

Os dois primeiros e importantes documentos do Papa Francisco, Evangelii Gaudium e Laudato Si’, foram notórios pela facilidade de leitura e pelo tom pastoral. Ele não fala em abstrato. Nem cansa os leitores exortando-os. Ainda que o papa não venha alterar o ensino católico, esta exortação não irá se parecer como a seção sobre o matrimônio do Catecismo da Igreja Católica.

Quarto, como ele fala sobre a mulher?

Francisco se viu frequentemente falando sobre a mulher. Ele não está familiarizado com a linguagem os as problemáticas das feministas dos países de primeiro mundo. Será que ele teve alguma ajuda aqui, ou vai ele continuar a usar a linguagem de João Paulo II e soar como um avô amoroso porém deslocado da realidade?

Quinto, o que ele dirá – e o que ele não dirá – sobre o controle de natalidade?

O Papa Francisco deixou claro a sua hesitação quanto a alterar o magistério católico, mas também ele não quer ser um impedimento em questões como essa.

Em outros papados, haveria todo um capítulo dedicado a defender o ensino da Igreja contra o controle artificial da natalidade. Francisco mais provavelmente irá incentivar os confessores a serem pacientes e compassivos com os que acham o ensino católico difícil de observar. Esse é um caso onde menos é mais.

Sexto, será que Francisco irá além do que o Sínodo de 2015 sobre a família disse sobre os fiéis divorciados e recasados?

O Sínodo dos Bispos propôs o uso do “foro interno” aos católicos que se divorciaram, mas que, por algum motivo, não podem se submeter ao processo eclesiástico de anulação. O Sínodo não explicou claramente como isso funcionaria, o que deixa a sua intenção aberta a várias interpretações.

Tanto a esquerda quanto a direita gostariam de ver essa solução mais claramente definida, porém a ambiguidade é um jeito católico tradicional de trabalhar em períodos de transição. Em lugar de pontuar definições que seriam difíceis de alterar no futuro, a Igreja às vezes, como fez no Vaticano II, deixa as coisas um pouco bagunçadas de forma que a doutrina tenha tempo para se desenvolver.

Eu ainda devo mencionar um sétimo ponto: não se surpreenda se todas as previsões estiverem erradas.

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