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18 Março 2016

Chegamos ao momento mais grave da crise política do país. Após Dilma chamar Lula ao ministério, Moro mandou vazar uma conversa grampeada entre os dois. Com chamado midiático, o clima nas ruas é de convulsão.

A reportagem é de Guilherme Boulos, publicada por Folha de S. Paulo, 17-03-2016.

Moro apostou alto. Ao grampear um telefonema envolvendo a presidente da República e divulgar o áudio no momento politicamente mais conveniente para os que querem derrubá-la, o juiz ultrapassou a linha vermelha. Tirou definitivamente a toga e assumiu sua condição de militante político.

Foi para o "vai ou racha". Era o sinal que faltava. Sua decisão levou alguns milhares às ruas, exigindo a renúncia da presidente. Foram registrados conflitos em várias cidades. Em alguns lugares, linchamentos.

Um ciclista foi agredido na avenida Paulista por ter "cara de petista" e bicicleta vermelha. Uma mulher levou um soco na mesma avenida por recusar-se a gritar pela prisão de Lula. Episódios de intolerância como esses espalham-se pelo país.

Caminho sem volta

O caminho escolhido pelos que querem derrubar o governo é perigoso. Não se tira pitbulls das ruas com a mesma facilidade com que se os insufla. Propagar ódio com tal intensidade pode ser um caminho sem volta.

Quem pensa que é só contra os petistas se engana. Agora há pouco, o secretário de Segurança de Alckmin, Alexandre de Moraes, foi escorraçado da avenida Paulista por tentar liberar a faixa de ônibus.

O clima criado por essas manifestações não admite nenhum tipo de contestação. Nem mesmo em relação a uma faixa de avenida. Quanto mais em relação ao mérito. O feitiço poderá virar contra o feiticeiro.

A oposição partidária de direita parece que ainda não assimilou as consequências da vaia de domingo. Acha que vai surfar nessa onda. Pode até ser, mas não é pequeno o risco de ser afogada por ela.

A velha direita não seduz a multidão que ajudou a insuflar. As manifestações querem um salvador, um justiceiro de pulso, que –em nome do "bem"– está liberado para violar a Constituição, desrespeitar garantias individuais e "botar ordem na casa". Por isso gostam tanto de Sérgio Moro, por isso alguns exaltam Bolsonaro.

O que é mais chocante nisso tudo é a passividade do STF. Um juiz de primeira instância faz o que quer, adota medidas de exceção como regra, grampeia a presidente e não há reação.

Quando em 2008 o então presidente do Supremo, Gilmar Mendes, acreditou ter sido grampeado, acusou o "estado policial". Lula, presidente à época, demitiu o diretor-geral da PF. O atual silêncio do STF é ensurdecedor.

O que está em jogo

É preciso compreender o que está em jogo nesses dias tumultuados. Não se trata nem de defender o governo Dilma e muito menos de brecar as investigações de corrupção.

Dilma decidiu por aplicar o programa derrotado nas urnas e encampar retrocessos em relação às políticas sociais, acreditando que atrairia o mercado. Conseguiu desagradar a todos e, com isso, criou a base social para o golpismo. Paga o preço de suas escolhas.

Em relação às investigações, devem ser levadas adiante. Mas uma investigação que assegure as garantias constitucionais e que não escolha alvos politicamente. Sem linchamento, sem seletividade.

O que está em jogo é deter uma ofensiva odiosa, que impõe o pensamento único e métodos de intolerância.

O clima construído nas ruas é de caça às bruxas e não apenas contra o petismo. É contra a bicicleta vermelha, a "cara de petista" e a recusa em entoar seus gritos. Representa um risco real a liberdades democráticas.

Aos que insuflam esta situação é sempre bom lembrar o destino de Carlos Lacerda após o golpe de 1964. Quem aposta na tática incendiária tem sempre o risco de ver o fogo sair do controle.

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