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14 Março 2016

“Tudo indica que a maioria dos manifestantes que pede o impeachment é a favor de nosso sistema constitucional de direitos. Essa não é, porém, a impressão que temos ao acompanhar os protestos”, escreve Pablo Ortellado, professor do curso de gestão de políticas públicas da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP, em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, 14-03-2016.

Ele pergunta: “Por que esses setores colocam-se sob a liderança de grupos, como o Movimento Brasil Livre, que pregam a privatização e o desmonte do sistema público de saúde e educação? Por que toleram a participação de skinheads, de defensores da intervenção militar, de grupos que querem impedir que homossexuais constituam família?”

Eis o artigo.

Neste domingo (13), o Brasil presenciou sua maior manifestação política desde o fim da ditadura. Em São Paulo, segundo o Datafolha, cerca de 500 mil pessoas foram às ruas pedindo o impeachment da presidente Dilma Rousseff

Os manifestantes alegadamente reagem aos vultuosos desvios de recursos da principal empresa pública brasileira. Segundo o Ministério Público Federal, os desvios na Petrobras somam, pelo menos, R$ 14,5 bilhões, dos quais R$ 2,9 bilhões já foram recuperados. A dimensão do esquema de corrupção escandalizou o país, ajudou a derrubar a aprovação da presidente Dilma e criou condições políticas que podem provocar sua destituição.

Desde o final de 2014, a indignação contra a corrupção e o governo Dilma ganhou a liderança de grupos como o Movimento Brasil Livre, além do apoio de entidades empresariais (Fiesp), a adesão de veículos de comunicação (Rede Globo) e a articulação de políticos (Eduardo Cunha).

Esses agentes subordinam a justa indignação popular contra a corrupção à agenda liberal de reformas que deve subtrair direitos da população. Articulam também a substituição dos grupos políticos denunciados por corrupção por outros sobre os quais recaem suspeitas tão ou mais graves. 

Ano passado coordenei, com duas colegas, pesquisas de opinião com os manifestantes mobilizados nos protestos de abril e de agosto contra o governo federal. Os dados mostraram que os participantes dos atos em São Paulo desconfiam muito do PT, mas não têm confiança nos outros partidos e nos grandes meios de comunicação.

Mostraram ainda que os manifestantes defendem o caráter público, universal e gratuito do sistema de educação e do sistema de saúde. Evidenciaram, por fim, que a maior parte deles defende direitos individuais, como a união homoafetiva.

Em resumo, tudo indica que a maioria dos manifestantes que pede o impeachment é a favor de nosso sistema constitucional de direitos. Essa não é, porém, a impressão que temos ao acompanhar os protestos.

Por que esses setores colocam-se sob a liderança de grupos, como o Movimento Brasil Livre, que pregam a privatização e o desmonte do sistema público de saúde e educação? Por que toleram a participação de skinheads, de defensores da intervenção militar, de grupos que querem impedir que homossexuais constituam família?

Por que os manifestantes fazem apologia de uma Polícia Militar que é sistematicamente acusada de desrespeitar os direitos humanos? Por que aceitam que o afastamento da presidente Dilma seja conduzido e termine por beneficiar políticos como o deputado Eduardo Cunha, acusado de participar dos desvios da Petrobras? 

Em 1989, um candidato a presidente foi eleito com a plataforma de combate "aos marajás", apenas para sofrer, pouco depois, processo de impeachment. Essa memória histórica deveria funcionar como um alerta.