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Com sistema político apodrecido, Lula continuará sendo um candidato possível, diz historiador

Apesar de toda exposição negativa que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e seu partido vêm sofrendo, devido às denúncias de corrupção envolvendo a Petrobras e as maiores empreiteiras do país, ambos permanecem sendo "atores de primeira grandeza no jogo político nacional", avalia o historiador Daniel Aarão Reis, um dos fundadores do PT que se tornou seu crítico.

Após a ação da Polícia Federal contra o ex-presidente, Aarão previu um futuro difícil para o PT, mas disse que não o vê morto. Na sua visão, Lula e seu partido "continuam ancorados em vastas camadas populares, reconhecidas pelos ganhos materiais e simbólicos conquistados ao longo dos mandatos petistas". Para ele, "o sistema político brasileiro está apodrecido" e, dentro desse contexto, o ex-presidente permanece um candidato viável. "É um sistema que acoberta e incentiva a corrupção. É preciso reformá-lo em profundidade. (...) Se isto não acontecer, Lula continuará sendo um candidato possível."

A entrevista é de Mariana Schreiber, publicada por BBC Brasil, 07-03-2016.

Professor do curso de História da UFF (Universidade Federal Fluminense), Aarão chegou a presidir o PT do Rio de Janeiro nos anos 90, mas se desfiliou da legenda ainda antes do escândalo do mensalão, por discordar dos rumos do partido. Ele nota que as denúncias de corrupção começaram nos anos 90, principalmente em prefeituras que o PT conquistou no interior de São Paulo – mas foram abafadas pela corrente majoritária do partido, liderada por Lula.

Para o ex-militante petista, não há como eximir a presidente Dilma Rousseff e seu antecessor do esquema de desvios da Petrobras: "A dimensão da corrupção é surpreendente. Lula e Dilma são obviamente responsáveis por este descalabro. (...) Se sabiam ou não, é completamente irrelevante. Eles são responsáveis. Fugir disso é como ocultar o sol com uma peneira".

Eis a entrevista.

Em 2007, após a crise do Mensalão e a reeleição de Lula presidente, o senhor escreveu em um artigo: "nada indica que Lula e o PT possam ser eliminados da cena política nacional, ao contrário, mais do que nunca parecem enraizados na sociedade brasileira". Qual o seu diagnóstico hoje?

Eu continuo achando que o PT e Lula são atores de primeira grandeza no jogo político nacional. Há um conjunto de interesses que se estruturou em torno do PT e não há, no horizonte imediato, indicações de que estes interesses estejam migrando para outros partidos ou para outras alternativas políticas. As próximas eleições municipais serão um teste para avaliar a extensão – e a profundidade – dos abalos sofridos por Lula e pelo PT.

Que interesses são esses?

O PT e Lula, em especial, continuam ancorados em vastas camadas populares, reconhecidas pelos ganhos materiais e simbólicos conquistados ao longo dos mandatos petistas. Além dos milhares de militantes bem postados nos vários níveis dos aparelhos do Estado (federal, estaduais e municipais). Iludem-se os que imaginam, exercitando o wishful thinking(pensamento guiado pelo desejo), que o PT está morto e bem morto.

Os acontecimentos da última semana aumentaram as chances de impeachment da presidente Dilma?

As chances de um impeachment parecem maiores do que estavam antes da "delação premiada" de Delcídio do Amaral (na quinta-feira, a revista IstoÉ divulgou o conteúdo de uma suposta delação do senador petista, não confirmada oficialmente, com graves acusações a Lula e Dilma). Resta confirmá-las e comprová-las. E conseguir uma substancial maioria, de dois terços (dos deputados), para concretizar a primeira etapa do processo (aprovar a abertura do processo na Câmara). Coisa muito difícil, apesar do desgaste de Dilma e do PT. As manifestações previstas para o dia 8 (de defesa de Lula) e o dia 13 ( em protesto contra Dilma), podem jogar – ou retirar – água desta fervura. Poderão – ou não – ser decisivas.

O que diferencia o contexto atual do de 2006? Que fatores contribuíram para a superação da crise do mensalão não estão presentes agora?

Eu mencionaria dois aspectos que me parecem mais relevantes. De um lado, a exasperação das oposições. De outro, o desnorteamento das bases sociais e políticas do PT. Comecem os com a análise das oposições: elas estavam convencidas de que iriam ganhar a disputa em 2014. Perderam e não se conformaram. Em 2006, as oposições estavam certas de que Lula "sangraria" até o fim de seu primeiro mandato e nem teria coragem de se recandidatar. Não por outra razão, deixaram de investir na hipótese do impeachment.

Do ponto de vista das bases sociais e políticas do PT, mesmo no auge do escândalo do dito "mensalão", Lula conservava um grande prestígio junto às camadas populares e junto a muitos intelectuais formadores de opinião. Nada disso acontece agora. Dilma, esquecendo-se dos compromissos assumidos no segundo turno, adotou uma orientação completamente oposta ao que dissera na campanha. Mas o estelionato eleitoral teve pernas curtas. Ela não ganhou credibilidade junto às oposições e perdeu prestígio junto às camadas populares. Já Lula, afastado do poder há cinco anos, não tem mais as margens de manobra de que dispunha em 2006. São muitas as diferenças, portanto, entre aquela conjuntura e a atual.

Os anos 90 foram marcados por denúncias de corrupção em prefeituras do PT – reveladas inclusive por pessoas de dentro do partido, que tentaram combatê-las. Também segundo seu artigo, o grupo liderado por Lula, Articulação, abafou esses casos e mesmo expulsou os denunciantes da legenda. Essa tolerância com a corrupção, esses casos, seriam o embrião dos escândalos de hoje?

Certamente. Nos anos 1980, o PT aprovou resoluções claras proibindo formalmente ao partido e a seus líderes recorrer a financiamentos de empreiteiras, bancos ou grandes empresas capitalistas, mesmo que fossem legais. Estas resoluções foram gradativamente desrespeitadas por Lula e José Dirceu até que foi possível revogá-las em nome de um discutível "realismo político".

Ao longo dos anos 1990, o PT foi se revelando cada vez mais seduzido pelo poder do que pelos princípios que formulara quando de sua fundação. Teve início, então, a promiscuidade entre o partido e Lula e as grandes empresas. Tratava-se de um sistema consolidado. Em vez de reformá-lo, o PT preferiu aderir a ele. Tornou-se um partido "como os outros". Isto começou nos anos 90 no Estado de São Paulo. As tramoias foram amplamente denunciadas, mas a maioria da mídia e do próprio PT não se interessou por elas...

Como senhor recebe as denúncias de escândalo na Petrobras e dos supostos favorecimentos de Lula por empreiteiras? Qual sua visão sobre as condutas do ex-presidente? E de Dilma?

A mudança de pele do PT foi lenta, segura e gradual. Escrevi um longo artigo, referido por você, em que estudava esta "mutação", consolidada ainda em meados dos anos 1990. De qualquer forma, a dimensão da corrupção é surpreendente. Lula e Dilma são obviamente responsáveis por este descalabro. No Brasil e no mundo, os líderes políticos gostam de se apropriar pessoalmente dos êxitos de seus governos e atribuir os fracassos e erros a subordinados. Entretanto, eles devem assumir a responsabilidade política pelos êxitos e fracassos. Se sabiam ou não, é completamente irrelevante. Eles são responsáveis. Fugir disso é como ocultar o sol com uma peneira.

Depois de tantas denúncias, Lula tem força para disputar uma eleição presidencial?

O sistema político brasileiro está apodrecido. É um sistema que acoberta e incentiva a corrupção. É preciso reformá-lo em profundidade. Para isto acontecer, é preciso que a sociedade se mobilize e pressione a "aristocracia" política, encastelada nas alturas do poder e nesta Ilha da Fantasia chamada Brasília. Se isto não acontecer, Lula continuará sendo um candidato possível.

No artigo já citado, o senhor também descreve a trajetória que levou o PT de um partido com ideais revolucionários, socialistas, a uma instituição pragmática, com objetivos eleitorais. Havia outra forma de chegar ao poder no Brasil?

Eu não chegaria a dizer que o PT era revolucionário. Nem socialista, ni muchomenos. Mas era reformista, e alguns chegaram a formular a hipótese de um "reformismo revolucionário" (Carlos Nelson Coutinho). O abandono dos princípios foi muito ruim, porque o fermento reformista que orientava o PT dissolveu-se e não surgiu nenhuma alternativa credível que pudesse assumir os ideais abandonados. Seria mais democrático o PT insistir com suas propostas até que a população se convencesse de sua adequação e viabilidade. Mas o PT preferiu o atalho da acomodação. Tratava-se de "chegar lá". Mas se "chegou lá" para que exatamente? Para ser "um partido como os outros?".

Há muitas queixas dos petistas à imprensa. O senhor concorda? Ou entende que as denúncias são muito graves e merecem ampla cobertura?

Penso que a grande mídia tem sido muito unilateral e as críticas dos petistas têm fundamento. Se recebessemos a visita inesperada de um marciano no Brasil, ele pensaria que o PT, Lula e Dilma inventaram a corrupção. Nada mais falso. Eu diria que o PT foi um dos últimos a aderir a este sistema, ancorado em nossa história. A corrupção é inerente à espécie humana. Mas há sistemas mais ou menos favoráveis a ela. O sistema político brasileiro acoberta e incentiva a corrupção, por isto é que ela alcançou esta dimensão gigantesca. Se não for reformado, de nada valerá trocar lideranças.

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