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29 Fevereiro 2016

A prisão de João Santana desnuda muito mais do que parece e vai muito além do que se pensa. Se o escândalo se limitasse apenas a saber de onde vieram os milhões de dólares que recebeu como “marqueteiro” da última campanha presidencial de Lula e do PT, ou das duas seguintes de Dilma, tudo ficaria no jogo escuro das finanças. Antes, ele e Duda Mendonça foram o oráculo do PP de Paulo Maluf à prefeitura de São Paulo e nunca os investigaram por isso...

O texto é de Flávio Tavares, jornalista e escritor, publicado pelo jornal Zero Hora, 28-02-2016.

O insólito já nem é o que se gasta nas campanhas eleitorais para inventar mentiras, pois o desperdício há muito é “traço nacional”.

O que me preocupa é que Santana passou a ser muito mais do que um gerente-geral de publicidade e propaganda do PT. Se fosse apenas isto, paciência! – desde o Brasil Colônia, mercenários e corsários prestaram serviços, às vezes “bons serviços” até.

O baiano Santana é o “ideólogo” do PT, ou “superideólogo”, o único com poderes absolutos, capaz de – com uma simples olhadela – emitir opinião definitiva sobre tudo e, assim, fazer e desfazer ações de governo.

No último período de Lula da Silva, ele ainda dividia o posto com Delfim Netto e Eike Batista, a dupla que tinha livre acesso ao gabinete presidencial, a qualquer hora e até na chuva. A base alugada do governo vicejou tanto que perdura até hoje.

O estilo de “ideólogo” que Santana encarna supera a definição clássica de “ideologia”. Não é só a ciência da formação das ideias. Mas vê o mundo como objeto de consumo; eleição e eleitores como mercadoria. Ou como boiada no pasto.

Essa “filosofia” do pragmatismo não tem filosofia nem ideias profundas. Só se interessa pelos resultados. E o perigo está nisto! O “marqueteiro” não tem compromisso com as coisas concretas da realidade. Seu mundo são as fantasias.

Para vender sabonetes, pasta dental e centenas de coisas mais, o marqueteiro é insubstituível. A disputa política, porém, é diferente. O voto tem algo de “sagrado” e não pode transformar- se em objeto manipulável.

Mas o marqueteiro, em vez de ideias e compromissos, tem apenas táticas. Estratégias em vez de planos. Manobras em vez de previsão.

Na campanha eleitoral em que Lula venceu pela primeira vez, o antigo líder operário (com fama de combativo) foi transformado em “Lulinha paz e amor” por Duda Mendonça e Santana. Então sócios, os dois usaram com Lula a mesma propaganda que, pouco antes, apresentavam como “ideias” de Paulo Maluf, do PP, para a prefeitura de São Paulo.

Lembram-se das milagrosas farmácias populares que curariam até as pessoas sãs?? Até o cenário de papelão da propaganda de Maluf serviu para Lula!

Há tempos, o baiano Santana manda e desmanda não apenas no PT, mas no governo de que participam o PMDB e o resto da base alugada.

Nos protestos de rua do inverno de 2013, o governo não foi ouvir os grandes estudiosos, que pesquisam as entranhas do Brasil. Mas Dilma se reuniu com Santana para que ele fizesse o remendo mágico. Surgiu, então, aquela barafunda de propostas de “reforma política”, que não reformaram coisa alguma, até porque tudo ficou em promessa da promessa prometida...

Vi, então, que eu já não conhecia mais a lúcida, atenta e minuciosa Dilma Rousseff das lutas pela redemocratização.

No Brasil, a política limita-se a “ter marqueteiros” e “fazer propaganda”. O interesse primordial de todo governo consiste nisso.

O “marketing” busca saídas, nunca soluções. Mais vale “dar a impressão” do que imprimir uma solução. E, assim, o grande “marqueteiro” é sempre o mais ardiloso...

Isto é válido para vender sabonetes ou automóveis, mas o ardil e o estratagema não podem, jamais, ser o guia da política, muito menos dos governos.

Nas guerras, a boa tática consiste em enganar o inimigo. Mas só nas guerras! Algum partido ou governo pode tomar o povo como “inimigo”, porém?

O PSDB e os demais partidos da oposição também têm marqueteiros- ideólogos e ardis próprios. Será por isto que não propõem alternativas para o que dizem combater?

Ou a roupa do rei sem roupa é, mesmo, a nudez?

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