Minas terrestres, a hipoteca que pesa sobre o futuro de paz

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07 Dezembro 2015

Elas matam. E quando não o fazem dilaceram corpos e almas. Invalidam para sempre, com enormes custos também para a coletividade. Elas haviam sido proibidas de Ottawa, no distante 1999. Mas as minas terrestres continuam ceifando vítimas inocentes. Porque são a arma "abominável e bárbara jamais concebida". Já o dizia Kofi Annan.

A reportagem é de Francesco Palmas, publicada no jornal Avvenire, 04-12-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Algum tempo atrás, havia se acendido uma pequena chama de esperança. Mortos e feridos pareciam em queda. E o objetivo de um mundo livre das minas em 2025 não parecia tão inalcançável. Mas os dados não mentem nunca.

Quando foi assinado o tratado no Canadá, ainda se contavam 9 mil vítimas por ano. A proibição e os esforços dos operadores de paz estavam garantindo ótimos resultados. Assim foi até 2013. Mas, desde então, a tendência infelizmente se inverteu.

As vítimas começaram a crescer novamente, com uma hipérbole em 2014. Mortos e feridos aumentaram em 12%. Um dado "inquietante", talvez o mais trágico do relatório de 2015 do Observatório sobre as Minas.

Os especialistas que o redigiram pertencem à organização não governamental Norwegian People’s Aid, um gigante mundial da recuperação humanitária, junto com Halo Trust e o Mines Advisory Group (MAG). Das 300 páginas do relatório, emerge um mapa de fronteiras precisas. Destacam-se dez países, os mais perigosos e mortais em nível mundial. São os as macropeças de um mosaico infernal, tecido de crises e guerras, algumas semipermanentes, outras esquecidas.

O Afeganistão tem o triste primado. As minas explodem aqui mais do que em outros lugares. Seguem a Colômbia, a Angola, a Bósnia, a ex-Birmânia, o Paquistão tribal, a Síria trágica, o Camboja sem rosto e o Mali do jihadismo renascente. Muitas das campanhas cambojanas ainda estão minadas. Os agricultores não podem voltar para as terras. Cultivá-las é impossível. "Perigoso demais", dizem os especialistas. As minas as infestam. São um drama humanitário que persiste, longe das guerras, a décadas de distância. Desaceleram o retorno dos refugiados e dos deslocados. Destroem as atividades econômicas.

Existem ao menos 100 milhões em todo o mundo. Pensem: desde 1945, foram inventados 600 tipos de minas terrestres. A Itália era uma grande produtora. Hoje não mais, felizmente. As suas minas de "ação estendida" marcaram uma triste página da indústria nacional: as Valmara-59 e as Valmara-69 foram utilizadas copiosamente pelos iraquianos, para minar o deserto do Kuwait. Eram os anos da primeira Guerra do Golfo. Há um belíssimo livro de Gino Strada, que deveria ser lido e difundido, para não se esquecer. Pappagalli Verdi conta sobre as minas terrestres italiana, empregadas por mujhaeddin afegãos.

O Afeganistão está cheio de minas: uma, enorme, é a soviética PFM-1. Vocês já devem ter ouvido falar dela: ela também se chama "mina borboleta", pela forma característica, muito atraente para as crianças que a confundem com um brinquedo. Foi produzida em vários tons de marrom, verde e branco.

Loucuras de guerra. Armas terrivelmente simples, fabricadas com poucos materiais: um invólucro, uma carga explosiva e um dispositivo de ignição. Basta uma mínima compreensão no uso dos explosivos. A internet fornece até manuais para fabricar armas anti-homem, tão rudimentares quanto aniquiladoras. Tudo com um custo ínfimo. O preço é a garantia de proliferação: três dólares pelas minas menos sofisticadas e 10-15 dólares para as mais destruidoras.

Muitos componentes se encontram no mercado civil. Caso contrário, existe o mercado negro das armas, onde imperam as minas chinesas e ex-soviéticas. As mais comuns pertencem à família Mrud ou Mon-50, copiadas da estadunidense M-18 Claymore. Construídas nos países do bloco comunista, elas foram amplamente empregadas em todo o mundo. São continuamente redescobertas no Afeganistão, Bósnia, Croácia e Kosovo.

Algumas variantes matam em um raio de 200 metros, investindo conta qualquer pessoa que circule por aí. São sistemas mortais, de uma letalidade intrínseca e permanente. Têm uma longevidade de dezenas de anos. Limpar o ambiente custa caro. Demanda uma infinidade de tempo, porque as tecnologias laser e nucleares ainda não estão totalmente maduras. Guerrilheiros e produtores fizeram a sua parte. Usam invólucros sofisticados. Os dispositivos tornaram-se impermeáveis aos agentes atmosféricos e semi-invisíveis para os instrumentos eletrônicos de busca. Não existe mais os recipientes de madeira e de ferro, como nos tempos da Segunda Guerra Mundial.

A tecnologia das minas evoluiu. As baquelitas deram lugar à resina sintética, que não é agredida pelos componentes químicos do solo e escapam dos olhos eletrônicos dos detectores de minas. Quando tudo vai bem, é possível limpar não mais do que 15-20 metros quadrados por dia. E os custos são crescentes: para cada euro gasto em um campo minado, são necessárias 20 vezes mais no trabalho de desminagem.

O Tratado de Ottawa é a nossa única esperança. Mais de 160 países o ratificaram. Mas é incompleto. Faltam ao apelo os grandes produtores de minas: China, Rússia, Estados Unidos, Israel e as duas Coreias. O Departamento de Estado, em Washington, garante que adere desde o ano passado ao "espírito e aos objetivos humanitários" da Convenção. Ele garante que nunca mais vai usar mais minas terrestres. Ele não o faz desde 1991, com uma exceção no Afeganistão em 2002. Então, por que ainda não o ratifica? Óbvio: ele deve alimentar os campos minados da península coreana, para evitar uma invasão terrestre do norte, como em 1950.

Ainda se morre e de pena com minas em 63 países (incluindo quatro territórios). Ucrânia e Omã estenderam a trágica lista justamente este ano. Morre-se de mina no Donbass, apesar da trégua. Destino semelhante cabe ao desesperado povo saharawi, totalmente esquecido. A Índia, a Birmânia e o Paquistão produzem-nas em abundância. As fronteiras estão disseminadas com elas. E não há dados certos sobre os conflitos na Líbia, Mali, Iêmen, Síria e Iraque. O Daesh usa minas e explosivos tanto nos cercos ofensivos, quanto nas fortificações defensivas.

"O que temos visto em Kobane supera muito os nossos piores pesadelos", conta um operador da Handicap International. "Cerca de 80% da cidade está em ruínas, e há artifícios que não explodiram por toda a parte." As minas não fazem manchetes, mas já mataram e mutilaram 100 mil indivíduos nos últimos 15 anos: 3.679 só em 2014, dos quais 1.243 morreram, e os outros estão feridos. Por causa de uma guerra insensata.

Quando explode, uma mina terrestre desencadeia uma onda de choque de seis mil metros por segundo. Por toda a parte ao redor, a temperatura dispara até quatro mil graus. O barulho é ensurdecedor, intolerável para o ouvido humano. O pé investido pela explosão se desfaz, junto com os ossos da perna. Os estilhaços atingem o resto do corpo, deturpando até o rosto e os olhos. Mutilam e causam hemorragias. Fazem mais de 10 vítimas por dia, em sua maioria civis (80%) e crianças (39%).

É há um grito de alerta. Guerrilheiros e jihadistas estão fazendo um uso cada vez mais maciço de dispositivos explosivos artesanais: os famigerados IED, semelhantes em tudo às minas terrestres, como as bombas de fragmentação. De 1965 até hoje, foram usadas 460 milhões de submunições. Ainda existem, sem terem sido detonadas, 132 milhões, espalhadas aqui e ali, como uma espada de Dâmocles sobre as gerações futuras.

Identificá-las é extremamente complicado, até mesmo para as equipes experientes. Os mais otimistas preveem décadas de trabalho. Talvez seja preciso até mais. Mas não devemos perder a esperança. O Moçambique ensina isso, ao ter se declarado livre no dia 17 de setembro das minas terrestres e dos dispositivos que não explodiram. Podemos recomeçar a partir daí.

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