Cinco autores contemporâneos que usam a Bíblia como matéria prima

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25 Novembro 2015

"Os velhos e novos testamento crescem nestes meses como o universo literário amplo no qual todos os registros são possíveis: amor, humor, crueldade, ciúme, dominação, machismo, irracionalidade, bondade, ridículo. Transcendência", escreve Berna González Harbour, jornalista e escritora, em artigo publicado por El País, 23-11-2015.

Eis o artigo.

Não temam, escritores e leitores. Podemos nos empanturrar, nos saciar de romances policiais, históricos, de perdas, realistas, góticos ou açucarados, mas sempre nos restará a Bíblia como matéria-prima. Os velhos e novos testamento crescem nestes meses como o universo literário amplo no qual todos os registros são possíveis: amor, humor, crueldade, ciúme, dominação, machismo, irracionalidade, bondade, ridículo. Transcendência. Várias obras recentes mergulham e reescrevem à sua maneira, bastante salutar, alguns episódios. E sua atualidade é absoluta.

1. Erri De Luca se detém, em Las Santas del escándalo [As Santas do Escândalo] na figura de cinco mulheres aparentemente pouco exemplares: prostitutas, adúlteras ou uma grávida anterior ao casamento (já ouviram falar?). Elas nos ensinam que, no que se entende por pecado, pode haver também sabedoria, riqueza, uma entrega genial. “Estas mulheres vão de encontro às normas e ousam a transgressão. Não têm nenhum poder, nem classe, e, no entanto, governam o tempo”, afirma o autor. Ocorre que “a história sagrada tem muito menos preconceitos que a nossa história profana”. De Luca (Nápoles, 1950) descreve como Onan “derramou em terra” a sua semente para evitar a paternidade, o que acabou por dar o nome ao prazer solitário, ou Hurga em hebraico, para nos contar como os verbos têm sexo. Uma delícia.

2. Sergio Ramírez (Mesatepe, Nicarágua, 1942) reescreve em Sara (Alfaguara) esse personagem bíblico sob uma lógica atual. Sua Sara é uma mulher típica, dona de uma sabedoria popular que a faz duvidar de um Deus que impõe aos homens cortar o prepúcio com uma pedra ou que fala sem se mostrar. Chama-o de O Mago e desconfia de para onde está levando seu marido, capaz de amar a empregada enquanto a prostitui com o faraó. Sara é hilariante, sábia, sarcástica, uma espécie de A vida de Brian sob a forma de excelente literatura, e nos ensina que aqueles que acreditamos serem grandes têm mais falhas do que nos recordamos. Um livro para sempre.

3. Emmanuel Carrère. O autor (Paris, 1957) examina a fundo o Novo Testamento em El Reino [O Reino], em que mistura, mais uma vez, ficção, memórias, história e reflexões para contar o seu encontro e desencontro com o cristianismo. Um dos livros do ano.

4. Ricardo Menéndez Salmón. O autor, que recebeu recentemente o Prêmio Américas de melhor romance em espanhol de 2014, elegeu a infância de Jesus Cristo para investigar uma personalidade que certamente lhe foi negada. O protagonista perdeu seu filho e com ele o seu casamento, e se refugia na escrita. De suas mãos, surge uma busca peculiar das raízes de Jesus, o menino, envolvidas entre as sombras do nascimento de uma religião. Para Menéndez (Gijón, 1971), Niños en el Tiempo [Crianças no Tempo] é uma maneira de encarar a figura de Jesus Cristo sem os pressupostos conhecidos.

5. Amos Oz (Jerusalém, 1939) optou pela figura de Judas para reescrever esse episódio que considera “o Chernobil do antissemitismo cristão”. Judas é um romance surgido do louvável impulso de mudar a história. E esse é o fabuloso poder do clube dos escritores. Assim, não tenha medo.

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