"É um papa revolucionário. Assusta até mesmo fora do Vaticano"

Mais Lidos

  • De Rerum Novarum a Leão XIV: não era o vapor, mas a ética; não são os dados, mas a dignidade. O que vale não é mensurável. Artigo de Paolo Benanti

    LER MAIS
  • Deus Trindade: circularidade-encontro-amor. Comentário de Adroaldo Palaoro

    LER MAIS
  • Juventude e novas direitas, para além dos estereótipos e dos extremos. Entrevista com Beatriz Besen

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Aceleracionismo Amazônico

Edição: 559

Leia mais

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

06 Novembro 2015

"Depois de cada encontro, quando Francisco conclui com um "rezem por mim", não é só um modo de dizer: ele sabe muito bem que precisa do apoio de todo o povo da Igreja", afirma o jornalista e apresentador italiano Riccardo Bonacina.

A reportagem é de Adriana Comaschi, publicada no jornal L'Unità, 05-11-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Cardeais, bispos, o jornal Avvenire, todos veem o vazamento de documentos como um ataque contra Francisco: você compartilha?

Faço uma premissa: acompanhei pouco os detalhes das notícias, acabo de voltar depois de seis dias na África. Certamente, este papa não é muito amado na Cúria. Vimos isso também durante o Sínodo, depois basta ler um pouco os blogs e algumas publicações. Além disso, Francisco está fazendo uma revolução séria. Ele não está tranquilo em Santa Marta, mas vive o seu papel de primeiro inter pares de modo revolucionário, precisamente, franciscano, podemos dizer, radical, sem ambiguidades. E eu falo sobre todos os seus gestos: ele vai ao oculista, não entra nos Sagrados Palácios, está construindo a segunda casa para indigentes perto da colunata de Bernini, as suas viagens são todas dirigidas para a periferia.

Apenas por dizer: eu participei de uma audiência na Sala Nervi há não muito tempo. O papa chegou e encontrou nas primeiras fileiras as autoridades: pois bem, ele fez com que levassem as crianças e as pessoas portadoras de deficiência e moveu as autoridades, que tinham um aspecto bastante chocado. E depois: nomear bispos para Palermo e Bolonha, dois padres das ruas, e ainda antes Dom Galantino como chefe da Conferência Episcopal Italiana (CEI), fazer a reforma da Sagrada Rota sobre a nulidade do matrimônio, a encíclica Laudato si', que alguém como Carlo Petrini está apresentando por toda Itália... são coisas incríveis.

Há quem se pergunte se Chaouqui e Balda foram manipulados por alguém até mesmo de fora do Vaticano, porque Francisco daria medo em muitos, não só do outro lado do Rio Tibre...

É plausível, porque esse papa mistura todos os equilíbrio de poder: o binômio Vaticano/negócios, Vaticano/bancos, Vaticano/política. Uma das questões centrais nesses primeiros anos do seu pontificado foi marginalizar a função da Cúria. Bergoglio está reduzindo os dicastérios vaticanos, em suma, tira água de todas as estruturas de poder. Se pensarmos que, até poucos anos atrás, havia Ruini, que representava um equilíbrio para cultura, finanças, política... Eu digo isso como observador atento e católico, embora não seja um vaticanista.

Que reação podem provocar, nos leitores e, mais em geral, nos fiéis os desperdícios e luxos vaticanos que vieram à tona nesses dias?

Devo dizer que, nas antecipações dos livros publicados, eu não vi coisas surpreendentes. Nós sabíamos que o aparato curial vivia de desperdícios e fazia essas coisas. O que me admira é que não há histórias de sexo... Sabemos que, na barriga do Vaticano, aninham-se fatos desse tipo. Trata-se de fatos conhecidos. Quanto à reação: com maior razão um grande "força, Francisco!", gritado batendo três vezes as mãos, como no estádio, "vai, não pare!". O resto, eu repito, são coisas óbvias. E não há anos, há séculos.

Fatos conhecidos: a Igreja nunca soube reagir?

João Paulo II estava concentrado nas viagens e em um cenário global, pouco se importava com o que acontecia no Vaticano. Bento XVI estava bem consciente do demônio dentro da Igreja, a corrupção: tentou pôr a mão – com relação à pedofilia, por exemplo, fez coisas pesadas –, mas, em certo ponto, percebeu que não conseguia. Tanto é que se diz que ele favoreceu Bergoglio, porque havia intuído que não se precisava de um reformador, mas de um revolucionário. E Bergoglio o é: completamente fora das lógicas de poder.

Francisco terá sucesso nessa sua missão?

Eu faço algumas orações pelo papa, além da torcida...

Para o padre Lombardi, os livros publicados descrevem uma realidade já superada justamente pela ação reformadora de Bergoglio. É isso mesmo?

A meu ver, sim, o que está saindo atesta a seriedade do que está acontecendo do outro lado do Rio Tibre, é a reação contrária a uma mudança epocal. Depois de cada encontro, quando Francisco conclui com um "rezem por mim", não é só um modo de dizer: ele sabe muito bem que precisa do apoio de todo o povo da Igreja.