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25 Setembro 2015

“Qualquer dia desses vou lá pronunciar um discurso mais curto que os de Fidel e Chávez. Nunca estive na ONU”, brincou Raúl Castro sobre sua participação na Assembleia Geral das Nações Unidas. Era junho de 2014 e o presidente cubano falava na Bolívia, na presença dos mandatários amigos Evo Morales, o anfitrião, e Nicolás Maduro, da Venezuela. Todos riram. No final das contas, em seus 84 anos de vida, o mais novo dos Castro só esteve, que se saiba, uma vez nos Estados Unidos, e em 1959. Mas não eram palavras vazias: Raúl Castro retornou na quinta-feira ao antigo inimigo, para participar de vários eventos na reunião anual da ONU, que este ano comemorar seu 70° aniversário.

A reportagem é de Silvia Ayuso, publicada por El País, 24-09-2015.

O momento também não é casual. Muitas coisas mudaram não somente nos últimos anos, mas desde sua brincadeira na Bolívia. Ou não era brincadeira? Naquele momento, sem que até mesmo aliados como Maduro soubessem, seu Governo e o de Barack Obama já realizavam negociações secretas que seis meses mais tarde, em 17 de dezembro, levariam ao anúncio de retomada das relações que espantou o mundo. A reunião da ONU em Nova York permite mais um gesto no processo de normalização, diz William LeoGrande, professor da American University de Washington e especialista em assuntos cubanos.

“É um passo a mais na crescente relação diplomática construída por Raúl Castro e Obama. Normalizar as relações é claramente uma prioridade para ambos e suas consultas periódicas ajudam o processo a se manter ativo”, considera o coautor do livro Back Channel to Cuba, sobre as negociações secretas entre Washington e Havana no último meio século. Viajar à ONU “dá a Raul outra oportunidade de se ver frente a frente com Obama”, afirma.

A Casa Branca e Havana não quiseram confirmar se ocorrerá uma reunião privada como a feita por Obama e Castro em abril no Panamá durante a Cúpula das Américas. Mas não se descarta alguma forma de encontro. E ambos conversaram por telefone há uma semana, pouco antes do início da visita do papa Francisco — mediador fundamental na retomada de relações — a Cuba. Jorge Bergoglio agora está nos EUA — também para ele é a primeira vez — e mesmo que Raúl Castro só discurse na Assembleia Geral na tarde de segunda-feira 28 (Obama falará no mesmo dia, mas na parte da manhã), Havana anunciou que ele viajaria antes a Nova York para assistir o discurso do Papa, na sexta-feira. Um encontro adequado, diz Carl Meacham.

“O Papa foi fundamental no apoio moral e logístico nas reuniões secretas para se conseguir a normalização. Ele faz parte de onde estamos agora”, lembra. Ao mesmo tempo, para Raúl Castro, comparecer à reunião da ONU serve para enviar “um sinal”, arrisca o diretor do programa América do Centro de Estudos Internacionais e Estratégicos (CSIS). “É uma tentativa de demonstrar que estão prontos para retomar sua presença na comunidade internacional”.

A até agora única viagem norte-americana de Raúl Castro foi a Huston, Texas, em abril de 1959, quando se uniu à última etapa da visita norte-americana de seu irmão Fidel. Washington e Havana ainda não haviam cortado as relações que demorariam mais de meio século para serem retomadas, há apenas dois meses. Segundo Brian Latell, um ex-analista da CIA que escreveu vários livros sobre os Castro, testemunhas escutaram como os dois irmãos mantiveram uma acalorada discussão em seu quarto no 18° andar do luxuoso hotel Shamrock.

Historiadores como LeoGrande não se atrevem a confirmar essa altercação desmentida na época por seus protagonistas, mas concordam que, naquele momento, “Raúl e Che Guevara estavam preocupados pelo fato de Fidel estar sendo muito complacente com os EUA nessa viagem”.

Enquanto Raúl era um comunista declarado, Fidel ainda não havia se pronunciado claramente a respeito. Para além do fato da briga ter ocorrido ou não e pelo motivo indicado ou não, o fato é que Fidel continuaria por mais de 40 anos no poder com seu irmão Raúl como seu eterno sucessor, até que uma doença o retirou da direção da ilha em 2006.

Mesmo com Raúl já há quase uma década no poder que tomou de forma interina de seu irmão mais velho em 2006 e definitivamente em 2008, até agora nunca havia se decidido a comparecer à reunião mundial na qual Cuba todo ano denuncia o “bloqueio”, o embargo que os EUA impõem à ilha desde 1962.

Mas Fidel aproveitou o palanque que dá a possibilidade de dirigir-se a todo o planeta. Ele o fez em quatro ocasiões: 1960, 1979, 1995 e 2000, durante a Cúpula do Milênio. Não foram muitas, mas todas inesquecíveis.

Seu discurso de 1960 é, de fato, há mais de quatro décadas o recordista em duração na história da ONU: quatro horas e 29 minutos.

Aconteça o que acontecer esses dias em Nova York, Raúl, que como bom militar prefere discursos concisos e curtos, prometeu há um ano que de maneira nenhuma tentará imitar seu irmão em relação à oratória. “Não se assustem que não vou pronunciar o discurso de Fidel na ONU, caso contrário Ban Ki-Moon irá se levantar e irá embora”, disse na Bolívia.

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