O que falta às religiões para aceitarem a homossexualidade

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25 Mai 2015

"A maturidade de uma sociedade é medida sobre a possibilidade dada a cada um de realizar-se plenamente em todas as dimensões da sua personalidade. Acredito que também a maturidade de uma comunidade cristã se meça sobre a capacidade de acolher todos os filhos de Deus, assim como vieram ao mundo, nenhuma dimensão excluída", afirma Vito Mancuso, teólogo italiano, em conferência proferida durante o simpósio promovido pelo Senado italiano que teve como tema O que está faltando para a religião aceitar a homossexualidade?

O discurso foi publicado pelo sítio Iniziativa Laica, em reposta ao texto "", 19-05-2015. A tradução é de Ramiro Mincato.

Eis o texto.

Embora, ainda hoje, o julgamento das religiões sobre a homossexualidade é principalmente de condenação, alguma coisa está mudando. É citadíssima a frase do Papa Francisco, de 28 de julho de 2013: "Se uma pessoa é gay, procura o Senhor e tem boa vontade, quem sou eu para julgar?” Declaração chocante esta, porque os papas, incluindo os antecessores imediatos de Francisco, sempre formularam explicitas análises sobre a homossexualidade, mas sempre de condenação. Em 2006, também Dalai Lama reafirmava a desaprovação budista: "Um casal gay veio visitar-me procurando apoio e minha bênção: tive que explicar-lhes nossos ensinamentos. Uma mulher apresentou-me outra, como sua esposa: desconcertante". Já em 2014 a abordagem era diferente: "Se duas pessoas, um casal, sentem que aquele modo de vida é realmente mais prático, uma fonte de satisfação, e se ambos estão plenamente de acordo, então isso é bom".

Hoje, tais oscilações encontram-se em todas as religiões, o que nos permite perceber a evolução produzida pelo "espírito do mundo", usando uma expressão com que Hegel qualificava a ação divina. Há, em todo o mundo, uma abrangente reescritura da relação entre indivíduo e sociedade, não mais sob a bandeira do primado da sociedade e das tradições, mas sob aquela do indivíduo e da sua realização pessoal, movimento este que leva a aprimorar temas tradicionalmente deixados de lado, como precisamente este, dos homossexuais. A atitude das religiões sobre a homossexualidade hoje apresenta as mais variadas orientações, desde a da tradicional e intransigente condenação até a da mais total aceitação.

As religiões abraâmicas, é verdade, são tradicionalmente mais fechadas e entre elas a mais radical é a do Islã: mesmo hoje, em grande parte do mundo muçulmano, a homossexualidade não é socialmente aceita e, em alguns países (Afeganistão, Arábia Saudita, Brunei, Irã, Mauritânia, Nigéria, Sudão, Iêmen), é castigada com a pena de morte. No entanto, em outros países, mesmo predominantemente muçulmanos, ela não é ilegal, como na Albânia, Líbano e Turquia onde há inclusive discussões sobre a legalização do casamento gay.

Dentro Judaísmo, os ortodoxos consideram a homossexualidade um pecado e tendem a excluir as pessoas com esta orientação, já os judeus conservadores aceitam as pessoas, mas rejeitam a prática homossexual, enquanto para judeus reformistas a homossexualidade é aceitável em todos os seus aspectos, tanto quanto a heterossexualidade.

Dentro cristianismo reproduz-se a mesma situação, não só entre as diferentes Igrejas, mas até mesmo dentro de uma mesma igreja. Os luteranos por exemplo, em Missouri, dizem não à ordenação, à bênção de casais, aos casamentos e até mesmo à aceitação dos gays entre os fiéis, enquanto, em outros estados dos EUA e no Canadá, dizem sim a todas as quatro perguntas. Pode-se dizer ainda que o mundo protestante pentecostal (adventistas, assembleias de Deus, mórmons, testemunhas de Jeová) é, em geral, oposto aos direitos dos homossexuais, enquanto o protestantismo histórico (luteranos, reformados, anglicanos, batistas, valdenses) é mais favorável.

Na Igreja Católica reproduz-se a mesma dialética, embora tendencialmente em favor do não. A doutrina chegou a dizer sim às pessoas homossexuais (cf. Catecismo, art. 2358), mas continua firme em dizer não à bênção do casal e ao casamento. Tal ‘não’, baseia-se na visão pecaminosa de todas as formas de expressão da sexualidade homossexual, pois "os atos homossexuais são intrinsecamente desordenados" (art. 2357). Disso decorre uma consequência implacável: "As pessoas homossexuais são chamadas a viver a castidade" (art. 2359). Mais controversa ainda é a posição da Igreja Católica sobre a ordenação sacerdotal.

Num documento da Congregação para a Educação Católica de 2005, sobre a admissão de homossexuais no seminário, lemos: "A Igreja, embora respeitando profundamente as pessoas em questão, não pode admitir ao seminário e às ordens sagradas aqueles que praticam a homossexualidade, apresentam tendências homossexuais profundamente radicadas ou apoiam a assim chamada cultura gay. Estas pessoas encontram-se, de fato, numa situação que obstaculiza gravemente um correto relacionamento com homens e mulheres". Isso não impede, no entanto, sua presença no clero católico e nas comunidades religiosas de homens e mulheres, com uma percentagem difícil de calcular, mas certamente não menor do que na sociedade, ou, como muitos consideram, em dobro ou até ainda mais.

A maioria dos católicos, especialmente entre africanos e asiáticos, compartilham a intransigência doutrinal, enquanto em favor dos direitos dos homossexuais há movimentos específicos de fiéis, não poucos teólogos e religiosos, até mesmo algum bispo singular, e desde há poucos dias, a Conferência Episcopal Alemã e a Conferência dos Bispos da Suíça. Esta última escreveu: "A pretensão de que as pessoas homossexuais vivam a castidade é rejeitada por ser considerada injusta e desumana. A maior parte dos fiéis considera legítimo o desejo das pessoas homossexuais terem sexo e relações de casal, e uma grande maioria gostaria que a Igreja os reconhecesse, apreciasse e abençoasse".

Em âmbito cristão os argumentos contra o amor homossexual são dois: a Bíblia e a natureza. O primeiro é baseado em alguns textos bíblicos que a condenam explicitamente, em particular Levítico 18,22-23 e 1 Coríntios 6,9-10. O segundo afirma o imprescindível dado da natureza, que se impõe à consciência a ponto de transformar-se em lei, a lei natural, onde o macho procura a fêmea e a fêmea procura o macho, de modo que qualquer outra forma de afetividade é considerada não natural, expressando ou uma patologia ou uma verdadeira e própria perversão, isto é, doença ou pecado.

Qual é a força destes argumentos? O argumento bíblico é fraco, não só porque Jesus não falou uma única palavra a respeito disso, mas principalmente porque a Bíblia contém textos de todos os tipos, incluindo alguns considerados hoje eticamente insustentáveis. Os textos bíblicos que condenam os gays, eu penso, devem ser colocados entre estes eticamente insuistentáveis, ao lado daqueles que incitam violência ou que apoiam a subordinação das mulheres. Enquanto tais, eles precisam ser superados.

Quanto ao argumento baseado na natureza, pessoalmente, não tenho dúvidas de que a relação fisiologicamente correta seja a da complementaridade entre os sexos masculino e feminino, pois esta tem uma comprovação da natureza: todos nós viemos ao mundo assim. Também, não há dúvidas, porém, que o fenômeno da homossexualidade se dá e sempre se deu na natureza. É preciso, portanto, considerar os dois dados juntos: temos uma fisiologia de fundo e uma variante com relação a ela. Como definir essa variante? As interpretações tradicionais de doença ou pecado não convencem mais: a homossexualidade não é uma doença que se pode curar, nem é um pecado ao qual se condescende deliberadamente. Como interpretar, então, esta variante: deficiência, riqueza, ou apenas outra versão da normalidade? Isso, cada homossexual, deverá responder por si mesmo. O que eu posso dizer é que este estado se impõe ao sujeito, não é objeto de escolha, e por isso trata-se de um fenômeno natural. Com isso cai também o argumento contra o amor homossexual com base na lei natural.

Os argumentos a favor estão concentrados num só: o direito à plena integração social de todo ser humano, independentemente de sua orientação sexual, assim como se prescinde da idade, riqueza, educação, religião, cor da pele. Aceitar uma pessoa significa aceitar também sua orientação sexual. Não se pode dizer, como a doutrina católica atual, de querer aceitar as pessoas, mas não sua orientação afetiva e sexual, porque uma pessoa é também sua afetividade e sua sexualidade.

A maturidade de uma sociedade é medida sobre a possibilidade dada a cada um de realizar-se plenamente em todas as dimensões da sua personalidade.

Acredito que também a maturidade de uma comunidade cristã se meça sobre a capacidade de acolher todos os filhos de Deus, assim como vieram ao mundo, nenhuma dimensão excluída.

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