Papa Francisco não quer politicagem em torno do Jubileu

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19 Março 2015

Realmente um estranho país, a Itália, onde as coincidências se tornam quase uma obsessão, e a história se repete continuamente, porque nada passa ou muda até o fim. Assim, a 15 anos do Grande Jubileu do ano 2000, eis outro ano santo e novamente uma investigação sobre uma suposta "quadrilha" envolvida em grandes obras e grandes eventos.

A reportagem é de Francesco Peloso, publicada no sítio Linkiesta, 17-03-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Sem falar – paralelamente – da sempiterna discussão sobre quem deve ser o comissário para o novo Jubileu convocado pelo Papa Francisco. Os fatos se cruzam, as datas se sobrepõem, os homens mudam – mas até certo ponto –, as reações políticas permanecem as mesmas.

É claro que há também alguma diferença em relação ao passado: Bergoglio não avisou ninguém sobre a iniciativa que estava prestes a tomar, mas a anunciou de surpresa, no dia 13 de março, aniversário da sua eleição, a apenas nove meses do início do ano santo, no próximo dia 8 de dezembro.

Não há tempo para começar as obras em estacionamentos multiandares e multibilionários, estruturas de acolhida, uma chuva de intervenções no sistema viário e para multiplicar contratos e contratinhos como se fossem pães e peixes.

O principal problema será garantir um mínimo de ordem em uma capital já sufocada pelo caos cotidiano no momento em que milhões de fiéis irão desembocar em Roma e no Vaticano.

Claro, do sistema hoteleiro ao comércio, passando pela restauração, para a cidade, o Jubileu, mesmo assim, é um evento que não se pode perder. No entanto, o anúncio do papa – de fato, surpreendentemente, não combinado anos antes com as autoridades italianas – coloca um limite objetivo a qualquer tentativa de especulação.

As reações da classe política à novidade não foram exatamente exemplares: como um reflexo condicionado, desencadeou-se a corrida frenética para a nomeação de um comissário para o Ano Santo da misericórdia.

E não foram suficientes para tranquilizar as afirmações do Vaticano sobre o fato de que o Jubileu de Bergoglio será um ano de confissões, de perdão, de acolhida espiritual a todos (em suma, não se assistirá a uma sequência de eventos espetaculares).

Até porque, no sólio de Pedro, está sentada uma estrela da comunicação global, um personagem que – pela carga inovadora com que governa a Igreja universal – é capaz de atrair multidões imponentes de fiéis. Consequentemente, a mensagem de abertura ao mundo lançado por Bergoglio envolve também a Itália e a sua capital, que deverão se defrontar em pouco tempo com um grande evento mundial.

Enquanto isso, o prefeito de Roma, Ignazio Marino, tentou manter a titularidade plena em relação à gestão organizacional do Ano Santo, enquanto o governo está tentando – sem muita confiança – tirar dele.

Por isso, dá-se o nome de Franco Gabrielli, atual responsável da Proteção Civil, como o próximo prefeito da capital – e, portanto, hipotético comissário-sombra. A memória corre para Guido Bertolaso, ex-subsecretário de Berlusconi e famoso responsável pela Proteção Civil. Ele sempre aparecia diante das câmeras com um blusão azul escuro, um uniforme informal que demonstrava a operatividade efetiva, um homem pronto para mergulhar as botas na lama junto com os seus, quase uma representação plástica da retórica do fazer.

Depois, soube-se que ele, o presidente do Conselho Nacional das Obras Públicas, Angelo Balducci, o empresário Diego Anemone e outros – incluindo os funcionários públicos Mauro Della Giovampaola e Fabio De Santis – faziam parte da famosa "quadrilha", que geria os contratos das obras extraordinárias para os grandes eventos, e, nestes últimos, o Vaticano estava envolvido até o fim.

A grande aliança entre alguns homens da "quadrilha" nasceu nos tempos do Jubileu do ano 2000, prova geral de todos os grandes eventos posteriores (o prefeito de Roma e comissário do Jubileu era Francesco Rutelli; Luigi Zanda, atual chefe dos senadores do Partido Democrático, liderava a Agência para o Jubileu, a estrutura pública que devia gerir os fluxos de peregrinos. A gestão do Ano Santo não foi manchada por investigações graves, mas se formou na época um núcleo de poder e uma prática de intervenção extraordinária).

A regra de ouro que preside todas as grandes obras é uma só: procedimentos extraordinários para reduzir os tempos da burocracia, de tal modo, no entanto, que quase sempre não funcionem os controles, a transparência sobre os custos e as concorrências por contratos regulares.

Tudo é decidido imperialmente, em nome de um fim superior: a Campeonato Mundial de Natação, o G8 da Maddalena e, em tempos mais recentes, a Expo Milão.

Balducci, com outros personagens envolvidos na investigação, era consultor da Propaganda Fide, o dicastério vaticano das missões que podem contar com um vasto patrimônio imobiliário. Este último, depois, esteve no centro de diversas intervenções do Judiciário italiano em relação a trocas de favores que envolviam políticos e ministros.

E como esquecer que, para o Vaticano, quem geria o Jubileu na época era Dom Crescenzio Sepe, depois premiado por Wojtyla com a púrpura cardinalícia e, posteriormente, com o prestigioso cargo de prefeito justamente da Congregação para a Evangelização dos Povos (Propaganda Fide)?

Hoje, Sepe é arcebispo de Nápoles, cidade na qual, sábado próximo, o Papa Francisco irá em visita.

Em Roma, do Jubileu do ano 2000, restou uma obra em particular: um gigantesco estacionamento escavado na montanha do Gianicolo, atrás de São Pedro, que devia servir para acolher milhares de ônibus e de carros de peregrinos ao longo de todo o ano, a solução definitiva para a invasão de ônibus turísticos.

Custou 80 bilhões de liras, metade a cargo do Vaticano, metade paga pelo Estado italiano. Hoje, é uma obra substancialmente inutilizada. Nos anos seguintes, vieram à tona as contas do IOR da "quadrilha" que tinha um caixa próprio, o padre Evaldo Biasini (Congregação do Preciosíssimo Sangue), e, depois, os apartamentos da Propaganda Fide usados como mercadoria de barganha política.

No fim, na tentativa extrema de defender Bertolaso, o Vaticano organizou uma audiência especial para Bertolaso e toda a Proteção Civil na Sala Paulo VI, na presença do papa e do secretário de Estado, Tarcisio Bertone, e do inevitável Gianni Letta, braço direito do Cavaliere e gentil-homem de Sua Santidade, por sua vez.

Outros tempos, mas até certo ponto, se é verdade que ainda hoje um cardeal como o sul-africano Wilfrid Fox Napier disse que a Propaganda Fide não quer se adequar às reformas da Cúria vaticana desejada pelo papa.

Enquanto isso, a nova divindade tutelar das grandes obras, Ercole Incalza, diretor do Ministério de Infraestrutura, acaba algemado. O ministro do mesmo dicastério, Maurizio Lupi, da reconhecida escola Comunhão e Libertação, o havia defendido há apenas alguns meses no Parlamento, e nas interceptações publicadas nestes dias Lupi, no mínimo, não apresenta uma boa imagem.

E pensar que, justamente no dia 7 de março passado, junto com dezenas de milhares de membros da Fraternidade de Comunhão e Libertação, o ministro tinha ido à Praça de São Pedro para se encontrar com o papa.

Os tempos mudam, mas as histórias se repetem.