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16 Março 2015


Manifestações contra o governo Dilma tomaram ruas e praças de diversas cidades, neste domingo (15), culminando com as 210 mil pessoas ocupando boa parte da avenida Paulista, de acordo com o Datafolha, em São Paulo. Algumas estimativas, baseadas em cálculos das polícias estaduais, apontam para mais de 1,5 milhão de pessoas em todo o país.

O comentário é de Leonardo Sakamoto, jornalista, publicado por seu blog, 15-03-2015.

As manifestações, que foram em sua maioria pacíficas, protestaram contra a corrupção, os desvios na Petrobras, a alta da inflação e dos combustíveis, a falta de ética na política, a culpa do PT, o desenvolvimento econômico pífio e a falta de serviços públicos de qualidade, entre outros temas. O fio condutor, contudo, era a dúvida sobre a capacidade do governo Dilma Rousseff de conduzir o país. Uma grande parte dos presentes pedia a abertura do processo de impeachment contra ela. E grupos bem menores, mas incômodos, reivindicavam intervenção (golpe) militar e reclamavam da “ameaça comunista'' – afinal, há malucos em todos os lugares.

Quem esteve na manifestação na capital paulista, por exemplo, constatou que a maioria dos presentes não pertencia a grupos sociais mais pobres e sim das classes alta e média. Isso não deslegitima a natureza ou invalida a pertinência das reivindicações dos presentes, apenas indica que, a depender do que acontecer com a economia (leia-se “desemprego''), nos próximos meses, o caldo de insatisfação pode crescer ainda mais e protestos se tornarem ainda maiores.

No começo da noite, quando os ministros José Eduardo Cardozo (Justiça) e Miguel Rossetto (Secretaria Geral) apresentaram, na TV, as medidas que seriam tomadas para combater a corrupção e a impunidade por um governo assustado com o tamanho dos protestos, um novo panelaço foi ouvido em bairros de várias cidades brasileiras. E parte do governo continua achando que tudo isso é insatisfação de “coxinhas''.

Já disse aqui uma série de vezes, mas nunca é demais repetir. O segundo governo Dilma Rousseff começou tal como terminou o seu primeiro: de forma muito, muito ruim.

Ela incorre em estelionato eleitoral, pois prometeu um mandato de políticas progressistas em sua campanha à reeleição e, até agora, adotou apenas uma cartilha conservadora. As medidas econômicas que seu ministro da Fazenda, Joaquim Levy, têm tomado poderiam muito bem ter sido adotadas por Armínio Fraga, que seria ministro de Aécio Neves, ou pela “turma do Itaú'', como sua campanha se referia ao grupo de Marina Silva.

Ao mesmo tempo, a economia para resolver os problemas de caixa que sua própria gestão ajudou a criar tem sido feita às custas de mudanças em benefícios previdenciários e sociais. Ou seja, da classe trabalhadora em detrimento aos mais ricos. Enquanto isso, taxação de grandes fortunas, de grandes heranças, de lucros e dividendos ainda é especulação.

O que Dilma Rousseff esquece é que ela não ganhou o segundo turno por conta do marqueteiro João Santana – que se participou da produção do péssimo discurso difundido em cadeia de rádio e TV, no domingo passado (8), produziu uma piada de mau gosto.

Pessoas que não são ligadas ao partido, mas defendem bandeiras de esquerda e enxergavam na continuidade do mandato uma possibilidade maior de diálogo para essas pautas, levaram, junto com organizações e movimentos sociais, a campanha ao espaço público e às redes sociais no segundo turno. Conquistaram votos como o PT fazia antigamente – antes do partido se apegar demais ao poder, apaixonar-se pelo reflexo (mentiroso) do espelho e adotar práticas que antes abominava.

Essa militância histórica que defende bandeiras ligadas à efetivação dos direitos humanos e os movimentos sociais foram, por vezes, ignorados ou nem mesmo atendidos nos últimos quatro anos.

Parlamentares representantes do agronegócio, por exemplo, tomaram litros de cafezinho com Dilma, enquanto lideranças indígenas eram atendidas apenas por alguns ministros.

Após a eleição, a grande pergunta era se o governo daria o devido valor a esses grupos, empoderando alas do próprio governo que já tentavam pautar esses temas na agenda e atendendo às reivindicações ou se continuaria levando-os em banho-maria ou ignorando-os em nome da governabilidade – uma palavra tão tosca quanto casuísmo, oportunismo, corrupção e hipocrisia?

Processos de terras indígenas mofam esperando canetadas presidenciais. A reforma agrária parou.

Os trabalhadores rurais e urbanos perdem benefícios. Comunidades tradicionais são expulsas em obras que beneficiam grandes doadores de campanha. A tão sonhada reforma urbana não passou nem perto. O combate ao trabalho escravo está deixando de ser vitrine para se tornar vidraça brasileira. Direitos reprodutivos? Ah, vá! Enfim, a lista é maior que isso.

Adotar o que foi prometido em campanha não significaria acirrar os ânimos ou criar cisões. Pelo contrário, seria atuar pela efetivação de direitos fundamentais, por serviços públicos de qualidade, no combate à corrupção e contra os mimos entregues aos financiadores de campanha e uma boa reforma política – o que beneficiaria tanto os que votaram nela, como também em Aécio, em Marina, em Luciana.

Iria deixar uma minoria de ultraconservadores, que não gosta de ver direitos garantidos, bastante insatisfeita – para não dizer possessa. Mas seria uma quantidade muito menor de pessoas do que aquelas que ocuparam as ruas neste domingo.

Muitos imaginaram que, com o segundo turno, Dilma daria uma guinada à esquerda. E se enganaram. E se decepcionaram. E mesmo a possibilidade de um governo peemedebista não tem sido suficiente para grupos que lhe deram apoio renovarem totalmente seus votos de confiança. A bandeira da “defesa da institucionalidade'', trazida diante de palavras de ordem de impeachment, é deveras frágil.

Ela não está sozinha e as manifestações de sexta – significativamente menores que as de domingo – mostraram isso. Mas duvido que sejam suficientes para mantê-la no poder.

Vai depender de seu governo decidir se irá colocar em prática as promessas que vendeu nas eleições para seus eleitores, resgatando, com isso, parte do apoio que se perdeu. Ou se irá caminhar, com os aliados que restarem, para o buraco.

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