Reforma Política encabeçada pela CNBB não têm o consenso de todos os bispos, afirma arcebispo de Salvador

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10 Março 2015

Dom Murilo Sebastião Ramos Krieger, arcebispo de Salvador, Bahia, em entrevista concedida a Thácio Siqueira e publicada pela agência Zenit, 09-03-2015, referindo-se à Reforma Política, encabeçada pela CNBB, disse que "as propostas da Reforma Política, encabeçada pela CNBB, não tiveram a participação de todos os bispos" e que "preferiria uma proposta nossa e, quem concordasse com elas, participasse de nossa campanha".

Eis a entrevista.

Ultimamente, referindo-se ao tema da Reforma Política e da Campanha da Fraternidade no Brasil, o senhor tem falado que não é papel da Igreja ocupar o lugar do Estado. Por que essa é a sua opinião?

A Constituição de nosso país reconhece ser dever do Estado cuidar da saúde, da educação, da escola etc. Nesse campo, atualmente a Igreja tem um papel supletivo - isto é, deve atuar onde não há a presença do Estado ou onde tal presença não é suficiente. No passado, quando a organização social era muito limitada, a Igreja sentia ser seu dever abrir hospitais, creches, escolas etc.

Hoje só tem sentido manter essas obras ou fundá-las se, com seus valores, a Igreja quiser "fazer a diferença" - isto é, apresentar uma maneira própria de curar, educar, formar etc. Essa "maneira própria" são as motivações evangélicas isto é, o desejo de mostrar como vemos o doente, o jovem a ser educado, o idoso abandonado, a partir do que nos ensinou Jesus.

Se for para ter, por exemplo, um escola "como as outras", sem os valores do Evangelho, não valeria a pena tanto esforço, mesmo que se tratasse de uma escola de boa qualidade. Afinal, como bem insiste o Papa Francisco, a Igreja não é uma ONG, mas uma extensão da presença de Cristo no mundo.

A CNBB é uma entidade séria e necessária para a nossa Igreja, mas existe a possibilidade de que os seus colaboradores errem?

Onde há seres humanos há a possibilidade de erros. Minha longa experiência na CNBB tem me mostrado que se pode falar da presença do Espírito Santo naquelas iniciativas que foram rezadas, refletidas e debatidas por todos os bispos. Assim, num documento aprovado, não prevalece a ideia de um ou de outro; nossos documentos oficiais são a síntese do que os bispos pensam. Pode-se dizer, então, que aquele texto é o que o Espírito Santo está querendo falar às nossas Dioceses.

Não digo o mesmo de iniciativas de pequenos grupos ou de comissões, onde facilmente pode prevalecer a ideia de uma pessoa ou de um grupo. Nesse caso, o que for apresentado não é um texto "da" CNBB, mas sim daquela comissão.

O que significa uma conferência episcopal encabeçar essa campanha de reforma política?

O Brasil enfrenta problemas sérios e graves. A Igreja não pode ignorá-los. Com o Evangelho nas mãos, deve dar uma orientação, apresentar critérios, ajudar na reflexão. De minha parte, nesta campanha de reforma política eu preferiria que a própria Igreja apresentasse suas propostas, fruto da reflexão de todos os Bispos, como foi feito por ocasião da Constituinte, em que a CNBB apresentou um texto riquíssimo: "Por uma nova ordem constitucional". Nesse documento, estava claro o que a Igreja no Brasil tinha como proposta para a Constituição que estava sendo preparada para ser posteriormente aprovada. Nem todas as nossas propostas foram aceitas; hoje, não poucas pessoas reconhecem que com isso quem perdeu foi o país.

Desta vez, na campanha pela reforma política, a CNBB participa de um processo que engloba dezenas de grupos da sociedade civil. As propostas feitas são, pois, expressão do que esses grupos desejam, fruto da busca de consenso. Assim, algumas das propostas não correspondem ao que nós bispos defendemos ou, ao menos, o que muitos bispos pensam; nem algumas propostas que julgamos importantes estão ali.

Repito, preferiria uma proposta nossa e, quem concordasse com elas, participasse de nossa campanha - como aconteceu por ocasião da Constituinte. Por sinal, a grande maioria das assinaturas que estão sendo colhidas são fruto do trabalho feito em nossas Dioceses e em nossas Paróquias - ao menos é o que acontece aqui na Bahia. Não creio que seja diferente nos outros estados do Brasil.

O projeto em questão, por exemplo, propõe o financiamento das campanhas com o dinheiro do povo, esse mesmo dinheiro público que mal dá para nos garantir saúde, educação e segurança, além de entrar no mérito das discussões de "gênero" e do voto de "lista fechada", tudo de acordo com a vontade do partido atualmente no poder. Por que um assunto tão opinável, e em pontos, até mesmo contrário à filosofia cristã, está sendo proposto como algo bom e que deve ser abraçado pelos católicos do Brasil?

Em parte, penso já ter respondido a essa pergunta. Ao aceitar participar de uma iniciativa que engloba dezenas de entidades, deu no que deu. Insisto: tais propostas não tiveram a participação de todos os Bispos; são fruto, sim, de uma reflexão que envolveu principalmente algumas comissões episcopais.

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