Eduardo Cunha e o enigma da base aliada

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05 Fevereiro 2015

"Estamos diante de um enorme desafio político no Brasil. Nas eleições presidenciais de 2014,o acirramento da campanha levou ao lulismo e sua candidata a escolher o retorno - tático - ao discurso de certa polarização entre povo e elite, trabalhadores e especuladores e na defesa da autonomia internacional do Brasil", constata Bruno Lima Rocha, professor de ciência política e de relações internacionais na ESPM, Unifin e Unisinos.

Segundo ele, "gora a sinuca de bico do povo brasileiro é urgentemente acumular forças - como está sendo realizado nos embates contra o aumento das passagens urbanas no Rio, São Paulo e logo em Porto Alegre - para tentar frear o retrocesso do 3º turno e, com a máxima urgência, driblar os malabarismos da ex-esquerda restante ainda vinculada ao lulismo e travar um projeto alternativo. De preferência, passando bem longe das urnas".

Eis o artigo.

Para anunciar a vitória de Eduardo Cunha na eleição para a Presidência da mesa da Câmara, tomo como referência matéria de O Globo (dos repórteres Filipe Matoso e Nathalia Passarinho, com a última atualização de 02/02/2015) apenas para provocar, já que o governo de centro-direita tem uma inimizade tática com os grupos hegemônicos de mídia, estabelecendo a divisão do campo da comunicação em escala industrial em PIG1 e PIG2. Voltando ao tema da base aliada, o nobre e ilibado deputado federal fluminense, com livre e amplo trânsito no baixo clero, foi eleito para a presidência da Câmara Baixa do Brasil (a Câmara de Deputados Federais). Sejamos justos, ninguém representa melhor a cultura política da democracia indireta brasileira e os votos do baixo clero, de 220 a 300, conta de chegada como dizem os clássicos da ciência política nacional a partir do estabelecimento do presidencialismo de coalizão.

Eduardo Cunha, do onipresente PMDB, representa o partido do vice, mas não necessariamente o vice, que também ninguém sabe a quem representa além da distribuição oligárquica da representação política. O país está contra a parede assim como este governo que já transacionava com os neoliberais ainda na corrida de 2º turno.

A extrema-esquerda e a esquerda reformista restante deveriam agradecer aos ex-reformistas e seus aliados stalinistas por tamanha desfaçatez. No Brasil não precisamos mais de 4 parágrafos para explicar os mecanismos de estelionato eleitoral. Indicam um banqueiro para coordenar a equipe econômica e os aliados elegem um oligarca para arrancar mais cargos de 1º e 4º escalão da administração federal direta e indireta. Na base ainda mobilizada da pirâmide social, o duplo discurso opera como freio, impedindo a aproximação estratégica entre os protestos organizados a partir de pólos à esquerda (como do direito à cidade e o direito á mobilidade urbana) e os movimentos sociais e populares ainda orgânicos.

Eduardo Cunha (PMDB-RJ) recebeu 267 votos, Arlindo Chinaglia (PT-SP) levou consideráveis 136 votos, Júlio Delgado (PSB-MG), operando como laranja da direita que perdera as eleições levou 100 votos e, como materialização da esquerda reformista eleita no Congresso, Chico Alencar (PSOL-RJ) ganhou singelos 8 votos.

Esta é a permanente contradição. Por esquerda (ainda que de forma difusa), se convocam 2 milhões de brasileiros; nas regras da democracia indireta, os oligarcas quase sempre levam, governando mesmo quando de forma imoral, o lulismo sobe no palanque fazendo o de sempre: campanha por esquerda e governo por direita.

O 3º turno vitorioso no Brasil

Sei que parece repetitivo, mas estamos diante de um enorme desafio político no Brasil. Nas eleições presidenciais de 2014,o acirramento da campanha levou ao lulismo e sua candidata a escolher o retorno - tático - ao discurso de certa polarização entre povo e elite, trabalhadores e especuladores e na defesa da autonomia internacional do Brasil.

Ao mesmo tempo, e ao que tudo indica, durante o próprio 2º turno da campanha, o consenso do lulismo e o Campo Majoritário do PT (sei que a sigla mudou, mas sincera e honestamente prefiro esta definição) fez a opção pelas garantias das margens absurdas (margens asiáticas em um país com regulação da força de trabalho) de ganhos dos especuladores e a retirada do papel central do Poder Executivo através da administração direta do Estado e oligarquias federais para, enquanto Estado e governo central, agir em nome da confiabilidade entre os agentes com poder de veto.

Veio daí a ideia de delegar a alguém de confiança da Banca - no caso, Joaquim Levy - e manter a absurda alta nas taxas de juros, depois de chegar ao menor patamar em 2013. Culminou com o esgotamento do modelo lulista - pacto conservador, melhoria das condições materiais de vida e ceticismo da população diante da democracia indireta - e teve seu ápice nos protestos de Maio, Junho e Julho de 2013. A solução mágica foi tentar a "reforma política" após, no início daquele ano, haver retirado o apoio ao texto do relator da mesma reforma política. No páreo cabeça a cabeça da campanha de 2o turno, a aproximação com a Banca implica em reforçar a posição de "autonomia" do governo do Copom e as garantias de que as margens de ganhos rentistas são invioláveis.

Sem exagero, podemos comparar o 3º turno e o chamado "estelionato eleitoral" (concordo com o termo) com a triste campanha ocorrida na província, onde "pelo bem do Rio Grande" o vitorioso candidato José Ivo Sartori (PMDB e PSB,  dentre outras legendas no co-governo de quase todos) escondera os planos de redução drástica do tamanho do serviço público na Província, fazendo vazar, vazando ou no mínimo dando a entender que tais ideias circulam no Palácio Piratini (lócus de governo do Poder Executivo) que pode extinguir ou privatizar órgãos estratégicos para esta sociedade como Fundação Cultural Piratini, Fundação de Economia e Estatística, Fundação Zoobotânica, Corag (gráfica) e outros.

No plano federal não há privatização direta, mas a sequência da política de concessões e um acordo tácito. Mantendo as margens dos especuladores e dos ganhos rentistas, o Planalto está disposto a apanhar nas ruas e no Congresso para aprovar o "pacote de maldades" caracterizado pelas medidas provisórias 664 e 665.

Logo na virada do ano o ministro do Planejamento Nelson Barbosa foi desmentido e desautorizado pela presidenta a respeito da possibilidade (concreta por sinal) de mudança de cálculo no reajuste do salário mínimo. Ao longo deste mês, além das MPs da desgraça, ainda foi vetada a mudança da base de cálculo da isenção do imposto de renda. Como dizem alguns bons estudiosos de economia política crítica da Espanha, "la bestia tiene hambre", a "besta tem fome, muita fome". A besta quer incidir sobre tudo, manda cortar gastos em todos os 39 ministérios (39 pastas, mas com a maioria delas sem condição de execução) e pode paulatinamente, recuar ao patamar da desconfiança da primeira metade do governo Lula.

Apontando conclusões

Agora a sinuca de bico do povo brasileiro é urgentemente acumular forças - como está sendo realizado nos embates contra o aumento das passagens urbanas no Rio, São Paulo e logo em Porto Alegre - para tentar frear o retrocesso do 3º turno e, com a máxima urgência, driblar os malabarismos da ex-esquerda restante ainda vinculada ao lulismo e travar um projeto alternativo. De preferência, passando bem longe das urnas.

Resultado: mais do mesmo com ainda menos espaço e margem de manobra para o que resta do PT que ainda governa junto a seus ex-inimigos históricos. É este o país que saiu das urnas em 2015.

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