"Com o pão não se brinca!", diz Francisco

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02 Fevereiro 2015

Contra a fome que continua matando e a pobreza que aumenta, o Papa Francisco pede que seja “repensado a fundo o sistema de produção e distribuição dos alimentos”. Este apelo, que será presumivelmente retomado e desenvolvido na encíclica ecológica atualmente em preparação, o Pontífice o antecipou hoje na Coldiretti [Associação agrícola], recebendo em audiência 200 dirigentes da Sala Clementina.

“A absolutização das regras do mercado, uma cultura dos rejeitos e do lixo, que no caso do alimento tem proporções inaceitáveis, junto com outros fatores, determinam miséria e sofrimento para tantas famílias”, denunciou. “Como nos ensinaram os nossos avós, com o pão não se brinca!”, afirmou com força.

A reportagem é publicada por Vatican Insider, 01-02-2015. A tradução é de Benno Dischinger.

“O pão participa, de certa forma, da sacralidade da vida humana, e por isso não pode ser tratado como mercadoria”, explicou Bergoglio citando um episódio de sua infância: “Ensinavam-nos a segurá-lo e beijá-lo e recolocá-lo na mesa”.

Para os agricultores a terra se torna a irmã, nasce uma relação familiar”. Mas, “também quem domina o deus dinheiro, de alguns que não têm sentimento dizemos: ‘vendem a própria mãe’. Aqui devemos dizer: ‘Vendem a mãe terra’.”

Caros amigos – acrescentou o Papa em seu discurso à Associação agrícola, - faço votos que o vosso trabalho para cultivar e proteger a terra seja adequadamente considerado e valorizado; e vos convido a dar sempre o primado às instâncias éticas com as quais, como cristãos, enfrentais os problemas e os desafios das vossas atividades”.

Segundo o Papa Francisco, “realmente não existe humanidade sem o cultivo da terra”, assim como “não há vida boa sem o alimento que ela produz para os homens e as mulheres de todos os continentes”. E por isso o Pontífice quis acentuar “o papel central” da agricultura, e honrar “o trabalho de quantos cultivam a terra, dedicando generosamente tempo e energias” a uma atividade “que se apresenta como verdadeira e própria vocação” e  “merece ser reconhecida e adequadamente valorizada, também nas concretas escolhas políticas e econômicas”.

“Trata-se, explicou o Papa Francisco – de eliminar obstáculos que penalizam uma atividade tão preciosa e que com frequência a fazem parecer pouco apetecível às novas gerações, embora as estatísticas registrem um crescimento do número de estudantes nas escolas e nos institutos de Agrária, que deixa prever um aumento dos ocupados no setor agrícola”.

E, concluiu o Papa, “ao mesmo tempo é preciso prestar a devida atenção à desde já demasiado difusa subtração de terra à agricultura para destiná-la a outras atividades, talvez aparentemente mais rendosas”.

O Papa também fez um aceno às mudanças climáticas. “Cada agricultor sabe muito bem quanto se tornou difícil cultivar a terra numa época de aceleradas mudanças climáticas e de eventos metereológicos sempre mais difusos”. “Como continuar a produzir bons alimentos para a vida de todos – se perguntou Bergoglio – quando a estabilidade climática está em risco, quando o ar, a água e o próprio solo perdem sua pureza por causa da poluição?”.

O Papa recordou que a custódia da terra é a “primeira tarefa” a nós confiada por Deus. “O convite – concluiu – é o de reencontrar o amor pela terra como “mãe”, como diria São Francisco, da qual fomos tirados e à qual estamos chamados a retornar constantemente. E daqui também decorre a proposta: proteger a terra, fazendo aliança com ela, para que possa continuar a ser, como Deus a quer, fonte de vida para toda a família humana”.

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