02 Fevereiro 2015
Só o ecumenismo das vítimas pode renovar a raiz da grande árvore dos monoteísmos, e cada um contribuirá para mudar os outros, somente com a condição de purificar constantemente a si mesmo.
A opinião é do historiador e político italiano Massimo Toschi, ex-comissário de Cooperação Internacional da Região Toscana, na Itália. O artigo foi publicado no sítio pessoal do jornalista italiano Gad Lerner, 16-01-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Eis o texto.
Ouvindo o papa no avião para Manila e as suas palavras surpreendentes, pensei em quando o frère Christian, no mosteiro de Tibhirine, na Argélia, abriu a porta pela primeira vez ao chefe do GIA (Grupo Islâmico Armado) no Natal de 1993. A sua primeira palavra foi "Merde". Não uma dezena do terço ou uma jaculatória, mas uma palavra muito humana de protesto.
Isso não apaga o seu extraordinário testamento, em que ele pede ao Senhor que possa ver o Islã com o olhar e com os olhos de Deus. Portanto, nenhum martírio de peito de fora, com a arrogância da verdade, mas a graça discreta do martírio, a ser vivido no ponto mais delicado e definitivo da vida, permanecendo, e não partindo.
O papa nos surpreendeu, no avião, no diálogo com os jornalistas, com a afirmação: "Espere um soco quem ofender a minha mãe... Portanto, ter a liberdade, sem ofender... Mas se o Dr. Gasparri, que é meu amigo, diz um palavrão contra a minha mãe, espere um soco (o papa faz o gesto de dar um soco)".
É evidente a linguagem do paradoxo, mas duas observações nos ajudam a compreendê-la. Acima de tudo, para dar um soco, é preciso ser forte, mas a grande maioria da humanidade é fraca. Eu sou fraco. Como deficiente e poliomielítico, eu não tenho a força para dar um soco em ninguém. Essa minha condição de fraqueza é uma graça ou uma desgraça? Eu acho que é uma graça, que diz respeito não apenas à minha história cotidiana, mas também à grande história. Como diz o apóstolo: "É quando sou fraco que sou forte".
Em segundo lugar, não nos esqueçamos em nenhum momento que, em Paris, foram mortas 20 pessoas, 20 vítimas no coração da Europa, que não devem obscurecer as vítimas de todas as partes do mundo. E é daí que é preciso partir. É o sinal trágico de uma globalização do terror, que diz respeito e interpela a todos. Poderíamos chamar de mártires da liberdade os cidadãos mortos em Paris.
O papa, no início do seu diálogo no avião, disse ainda: "Dois são os direitos fundamentais: a liberdade religiosa e a liberdade de expressão. Falemos claro, porém, vamos para Paris. Não se pode esconder uma verdade. Cada um tem direito à própria religião, sem ofender. Segundo: não se pode ofender e fazer a guerra, matar em nome da própria religião, em nome de Deus. A nós, isso que acontece agora nos surpreende. Mas pensemos na nossa história: quantas guerras religiosas tivemos! Pensemos na Noite de São Bartolomeu. Também nós fomos pecadores sobre isso, mas não se pode matar em nome de Deus. Isso é uma aberração".
O papa chama a Igreja a confessar continuamente os seus pecados em relação à guerra religiosa. Usou-se Deus para justificar a guerra. O Ocidente cristão fez do século passado o século da guerra e deve se purificar constantemente disso, para não retornar ao turbilhão da violência.
A confissão plena do pecado da Igreja contra a guerra cria as condições para que o judaísmo e o Islã saiam da captura da justificação do matar, que Deus já negou desde o "no princípio": não matar.
Há um novo ecumenismo das vítimas, também em Paris. Elas são os verdadeiros mestres para uma nova compreensão do judaísmo, do cristianismo e do Islã, e das suas sagradas escrituras, a partir da paz, e não da guerra. Desse processo de purificação, ninguém está excluído, e todos estão envolvidos.
Um processo de purificação exigente e corajoso, que torne manso o estatuto dos três grandes monoteísmos, que os transforme em mansidão e paz, cada um reconhecendo unilateralmente os seus pecados e as suas responsabilidades em relação à violência e à guerra.
Nesse processo de purificação, todos somos chamados a sair do "terrorismo das fofocas", feliz expressão do Papa Francisco, que fere as religiões e o grande mistério da alteridade que elas contêm. Não se trata de limitar um direito ou de contrapô-lo a outro, mas de escolher unilateralmente o primado e o cuidado do outro, por um bem maior, que é a vida dos pequenos, dos fracos, porque as palavras também são pedras e podem se tornar pedras, capazes de apedrejar e de matar.
Só o ecumenismo das vítimas pode renovar a raiz da grande árvore dos monoteísmos, e cada um contribuirá para mudar os outros, somente com a condição de purificar constantemente a si mesmo.
A globalização da violência pede que se vá além do ecumenismo das diplomacias religiosas ou pararreligiosas e das liturgias polidas, para ações e palavras onerosas, que desarmem os corações de todos e de cada um.
É preciso ir além de Assis, e esse processo deve chegar de Jerusalém a Gaza, a Beirute, a Aleppo, a Damasco, até Bagdá e Teerã, sobre as linhas do sofrimento do mundo, onde o mandamento de Deus se faz palavra de verdade dos pequenos da terra.
Estes pedem que se resolva o conflito israelense/palestino, onde o judaísmo também deve se encarregar das crianças de Gaza e da dignidade de um povo, e que a paz substitua a guerra entre sunitas e xiitas, e que o terrorismo islâmico seja apagado dos corações e dos gestos dos jovens muçulmanos.
O papa nos indica o caminho mais uma vez: "O melhor modo para responder é a mansidão, ser manso, humilde, como o pão, sem fazer agressões". Aqui o Papa Francisco está além do paradoxo do soco e nos diz que não há alternativa ao que ele está indicando, e ele sabe muito bem que o pão deve ser quebrado, deve ser dividido, deve ser dado. É o pão da paz, é o mistério de Deus.
Por fim, o Papa Francisco reflete sobre a possibilidade de sofrer um atentado contra a sua vida. A resposta extraordinária remete à do frère Christian: "Algumas vezes eu me perguntei: mas e se acontecesse comigo? Apenas pedi ao Senhor a graça de que não me faça mal, porque eu não sou corajoso diante da dor, sou muito temeroso".
De novo, um martírio na fraqueza e na fragilidade. O Papa Francisco, assim como o frère Christian, obedece e dá a vida, não na força, mas, na pequenez, sem se esconder e sem esconder os próprios medos, porque ali sempre atua a misericórdia e o perdão de Deus.