Divorciados em segunda união: alemães na vanguarda, franceses prudentes

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27 Janeiro 2015

Há cerca de 60 anos, a Alemanha e a França forneciam ao catolicismo progressista, aquele que triunfou no Concílio Vaticano II, os seus teóricos mais de vanguarda. Hoje, essa tradição perdura só a leste do Reno.

A reportagem é de Philippe Clanché, publicada no blog Cathoreve, 05-01-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Enquanto os bispos franceses dão prova de uma prudência bastante desesperante no grande debate pastoral dos anos 2014-2015 – a admissão dos divorciados em segunda união aos sacramentos –, na Alemanha, o episcopado deu um passo decisivo rumo à reforma.

De fato, uma maioria deles declarou-se na mesma linha do cardeal Walter Kasper, líder dos defensores da evolução e bastante próximos do papa. Não nos esqueçamos de que, à frente do campo "inimigo", também há um alemão, o prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Gerhard Ludwig Müller, nomeado por Bento XVI em 2012 e, por enquanto, confirmado no cargo por Francisco.

No dia 22 de dezembro, o presidente da Conferência Episcopal Alemã, Reinhard Marx, apresentou um documento que retoma elementos do primeiro Sínodo romano de outubro de 2014 além do relatório, até agora inédito, de um grupo de trabalho intitulado "Vias teologicamente responsáveis e pastoralmente adaptadas para um acompanhamento dos divorciados em segunda união".

Um documento convalidado pelo Conselho Permanente em junho de 2014. Segundo o cardeal Marx, arcebispo de Munique (1) e membro do G9 do papa, trata-se de "um desafio urgente para a Igreja e para o mundo inteiro", já qu divórcio e segundo casamento marcam "muitas vezes o início de um processo de saída da Igreja".

O documento não pode ser mais claro. Os regulamentos atuais dão origem a problemas que "os bispos e os padres acham quase impossíveis de superar".

De acordo com os bispos, os casais católicos, e não só aqueles que conheceram a separação, consideram a regra atual "incompreensível e cruel" e "nada útil".

Assim como os outros, os divorciados em segunda união também devem "poder considerar a Igreja como a sua casa e participar ativamente da sua vida", lembram. E defendem, prudente mas seguramente, que uma pastoral orientada por esses princípios "não pode evitar a questão de uma eventual admissão dos divorciados em segunda união à comunhão sacramental".

Não se trata de passar para um laxismo total, no entanto. "Seria injusto admitir aos sacramentos, sem distinção, todos os crentes cujo matrimônio foi rompido ou que se recasaram", lembra o arcebispo de Munique.

Com base na sua experiência pastoral e na sua reflexão teológica, os prelados são a favor de "soluções diferenciadas" que respondam aos vários casos "de maneira justa" e permitam a admissão aos sacramentos "sob certas condições".

"A pastoral do matrimônio e da família merece um trabalho renovado, de modo que a mensagem de amor de Jesus se faça ouvir", diz ainda o cardeal Marx, dando a entender que "a mensagem" não pode passar com a proibição atual de acesso ao sacramento, no caso de um segundo casamento.

Na França, leem-se afirmações desse tipo nos discursos de alguns grupos de fiéis "turbulentos", como a Conférence Catholiques des Baptisé(e)s Francophones, mas quase nunca escritas por bispos. Quando os pastores franceses também vão escrever de forma clara o que a experiência lhes dita? Seria talvez a presença barulhenta do grupo de bispos reacionários, contrários a qualquer mudança e adeptos de uma Igreja de puros, que bloqueia a maioria deles?

Quando a Santa Sé convalidar a lista, conheceremos os nomes dos bispos franceses eleitos pelos seus pares em Lourdes, em novembro passado, para participar do segundo Sínodo romano sobre a família em outubro próximo (2). Esperamos que sejam representativos dos católicos franceses, que esperam, em esmagadora maioria, o fim de uma regra muito pouco evangélica.

Notas:

1. Ele é o segundo sucessor de Joseph Ratzinger, que ocupou o posto de 1997 a 1981 e na sua partida para Roma.

2. Jean-Marie Guénois, no jornal Figaro, escreveu que dela faz parte Dom Jean-Luc Brunin, que preside o Conselho Família e Sociedade da Conferência Episcopal Francesa. O que seria lógico, mas não há nada confirmado por enquanto.