Novos cardeais podem perpetuar o sistema, não derrubá-lo

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07 Janeiro 2015

O papa anunciou uma lista de 15 novos cardeais em idade votante no dia 4 de janeiro, e está claro que ele está mudando o quadro. A experiência norte-americana dos limites de prazo, no entanto, sugere que Francisco talvez precise estar atento à lei das consequências não intencionais, para evitar o fortalecimento inadvertido da própria burocracia que ele está tentando derrubar.cardeais2

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada no sítio Crux, 5-01-2015. A tradução é de Claudia Sbardelotto.

"Ponha os vagabundos para fora" é um instinto bem reconhecido na política, muitas vezes alimentado por ciclos de escândalos e corrupção ou simplesmente por uma percepção de que o mesmo elenco de personagens está no poder há muito tempo.

Na década de 1990, por exemplo, o desejo de agitar as coisas levou à aprovação de limites de mandato em 15 Estados norte-americanos, geralmente devido a iniciativas de referendos ou consulta popular. Legisladores nesses Estados são obrigados a sair depois de um período fixo, muitas vezes, de seis a oito anos, garantindo uma infusão constante de novos rostos.

O Papa Francisco parece impulsionado por esse mesmo instinto anti-establishment com o Colégio Cardinalício, o corpo de prelados que dá o tom da liderança da Igreja e também goza do direito exclusivo de eleger o próximo papa.

O papa anunciou uma lista de 15 novos cardeais em idade votante no dia 4 de janeiro, e está claro que ele está mudando o quadro. A experiência norte-americana dos limites de prazo, no entanto, sugere que Francisco talvez precise estar atento à lei das conseqüências não intencionais, para evitar o fortalecimento inadvertido da própria burocracia que ele está tentando derrubar.

Dos 15 novos cardeais anunciados pelo pontífice, apenas um é empregado do Vaticano, e apenas cinco são da Europa. Também não há nenhum novo cardeal dos Estados Unidos.

Três dos novos príncipes da Igreja são oriundos de países que nunca tiveram um cardeal - Birmânia, Cabo Verde e Tonga. Mesmo dentro de países acostumados a ter cardeais, Francisco ignorou os centros habituais de poder para elevar eminências em lugares inesperados.

Na Itália, por exemplo, a diocese siciliana de Agrigento não tinha um cardeal desde o século XVIII e é geralmente liderada por um bispo ordinário. No Panamá, a pequena diocese de David nunca teve nem mesmo um arcebispo, muito menos um cardeal. Na Espanha, a mediana arquidiocese de Valladolid normalmente tem sido em si um trampolim, não o destino de um cardeal.

De uma só vez, no domingo, todos esses lugares, de repente, tornaram-se sés de "chapéus vermelhos".

Com exceção do arcebispo francês Dominique Mamberti, ex-ministro das Relações Exteriores do Vaticano e agora a líder da sua corte suprema, nenhum dos novos cardeais é veterano romano, e vários irão precisar de um guia turístico simplesmente para se localizar nas redondezas do Palácio Apostólico.

Tudo isso se baseia na primeira leva de novos cardeais de Francisco em fevereiro passado, quando ele concedeu chapéus vermelhos para lugares como Costa do Marfim, Burkina Faso e Haiti. Enquanto isso, potências tradicionais como Madri, Veneza, Turim, Chicago e Los Angeles não são lideradas por cardeais, algo praticamente inédito no catolicismo moderno.

Como observou o porta-voz do Vaticano, no domingo, a era dos chapéus vermelhos "automáticos" associados a determinadas dioceses parece estar em hiato com Francisco, se não em vias de extinção.

Obviamente, o objetivo é de colocar sangue fresco e atingir lugares que normalmente não têm voz. No entanto, existem outras consequências possíveis a serem consideradas além das costumeiras.

De acordo com um estudo de 2007 da Conferência Nacional dos Legislativos Estaduais, os limites de mandato enfraqueceram as legislaturas, privando-as da liderança de veteranos e, correspondentemente, fortalecendo outros três atores: os lobistas, o Poder Executivo e os burocratas não eleitos.

Em cada caso, a razão é mais ou menos a mesma. Sem especialistas experientes na legislatura, são os burocratas, os lobistas e os funcionários que se tornam a memória institucional padrão do governo do Estado. Aqueles que sabem onde os corpos são enterrados e sabem como mover as alavancas do poder desfrutam de uma vantagem natural sobre os novatos que enfrentam uma curva de aprendizagem.

Além disso, os burocratas que se encontram frustrados por uma cultura específica dos legisladores têm agora uma maior capacidade de simplesmente esperar pela mudança das coisas, sabendo que o quadro vai mudar significativamente com o próximo ciclo eleitoral.

Em outras palavras, um sistema motivado para reforçar a democracia acaba por ter alguns riscos bastante antidemocráticos.

Qualquer comparação entre o Vaticano e uma casa parlamentar norte-americana está destinada a ser inexata, mas há alguns paralelos que vale a pena considerar.

Os cardeais desempenham múltiplos papéis, e, para muitos, o seu papel mais importante é liderar a Igreja local que eles atualmente presidem. No entanto, os cardeais são também os assessores mais próximos do papa, e os novos cardeais nomeados por Francisco no domingo acabarão por ser nomeados como membros de várias congregações, tribunais e conselhos que compõem o Vaticano.

Nessas posições, eles irão definir a política e analisarão o desempenho dos empregados. Eles também podem ser nomeados como membros de outros órgãos de supervisão, tais como o Conselho da Economia ou da Comissão de Cardeais que supervisiona o banco do Vaticano.

Prelados que não têm experiência do Vaticano, que não falam italiano e que não têm experiência pessoal de administrar uma operação eclesiástica grande e complexa podem sentir uma tendência natural de submeter esse trabalho às velhas mãos - geralmente significando os mesmos mandarins do Vaticano a quem Francisco recentemente criticou por sofrer de "Alzheimer espiritual" e "terrorismo da fofoca".

A possibilidade de reforçar a burocracia pode ser ainda mais tangível, no Vaticano, em oposição a um legislador norte-americano, uma vez que novos cardeais do papa não são membros do Tea Party que montam no capital para reduzir os impostos e cortar o tamanho do governo.

Os cardeais não foram selecionados com base em um mandato ou agenda política clara, e nem todos eles pertencem ao mesmo bloco ideológico. Por essa razão, não é como se eles estivessem propensos a passos largos em salas de reuniões do Vaticano com um claro senso de propósito desde o primeiro dia.

Há também a psicologia institucional a ser considerada.

Internos do Vaticano irão dizer-lhe que, quando o cardeal de, digamos, Chicago, ou Colônia, ou Milão, aparece em seu escritório, ele é levado a sério. Esses são todos lugares onde um cardeal reinante preside uma infra-estrutura e uma folha de pagamento, que são, na verdade, muito maior do que o Vaticano, onde ele normalmente goza de um elevado impacto mediático e percebida influência política.

Não está claro se o cardeal de Tonga ou do Cabo Verde vão ter exatamente a mesma força, pelo menos logo de início.

A questão de fundo é que Francisco pode correr o risco de reforçar a velha guarda, em vez de redimensioná-la.

Claro, também há razões para acreditar que as coisas possam não acontecer desta forma.

Por um lado, o próprio Francisco é um grande exemplo de uma pessoa de fora, sem experiência anterior do Vaticano que está se dando muito bem para não ser intimidado pelo sistema. Ele também mudou gradualmente as pessoas em cargos de chefia que compartilham em grande parte sua visão, o que significa que a "velha guarda" do Vaticano em 2015 é, em certa medida, um animal diferente do pessoal que Francisco herdou há 20 meses.

No fim das contas, se esses novos cardeais serão manipulados vai depender maioritariamente deles. Mesmo que eles não cheguem com um plano de ação detalhado, eles sabem que o papa escolheu-os para certificar-se de que as vozes das Igrejas locais encontram eco em Roma, e sem dúvida vão sentir a obrigação de viver segundo essa obrigação.

Ainda assim, Francisco pode querer considerar o uso dos dois dias de reuniões com todos os cardeais do mundo definidos para 12 e 13 de fevereiro para deixar claro que ele quer que suas novas escolhas abram a boca - e que ele espera que os novos cardeais sejam ouvidos.

Em um papado já cheio de drama, a maneira com que Francisco está mudando tão absolutamente a sociologia do Colégio dos Cardeais é sem dúvida o seu ato mais revolucionário de todos e aquele que irá cimentar seu legado.

O truque agora é certificar-se de que aconteça tudo como ele planeja.