Bergoglio e Ratzinger: ''Integrar na Igreja os divorciados''

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10 Dezembro 2014

Revezamento Ratzinger-Bergoglio em favor dos divorciados em segunda união. Com duas entrevistas no mesmo domingo, Francisco e Bento dissipam qualquer dúvida sobre a vontade da Igreja Católica de acolher de braços abertos aqueles que voltaram a se casar.

A reportagem é de Giacomo Galeazzi, publicada no jornal La Stampa, 08-12-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Em uma entrevista com o jornal argentino La Nación, Francisco esclarece sobre o Sínodo. "No caso dos divorciados que voltaram a se casar, nos perguntamos: o que fazemos com eles, que porta pode ser aberta para eles?", explicou o pontífice. "Foi uma inquietação pastoral: então, vão lhes dar a comunhão?".

Isso, por si só, especifica Bergoglio, "não é a solução: a solução é a integração". Chega de cercas. "Não estão excomungados, é verdade. Mas não pode ser padrinhos de batismo, não podem ler a leitura na missa, não podem dar a comunhão, não podem ensinar catequese."

Em suma, os divorciados em segunda união "não podem fazer como que sete coisas, eu tenho a lista aí. Se eu conto isso, pareceriam excomungados de fato! Então, é preciso abrir as portas um pouco mais", afirma Francisco.

Joseph Ratzinger fala ao Frankfurter Allgemeine, repudiando as tentativas da frente conservadora de trazê-lo à baila como opositor da renovação de Francisco. Cuidado, portanto, com aqueles que defendem que o papa emérito tenha querido entrar e, talvez, pôr-se meio de enviesado no debate desejado por Bergoglio sobre os temas da família. Um "absurdo total", explica Bento XVI, que afirma ter "ótimos contatos" com Francisco.

Na verdade, Ratzinger defende que os divorciados em segunda união não devem ser excluídos da vida da Igreja. Segundo Bento XVI, eles devem poder ser padrinhos e madrinhas de batismo. Atualmente, muitas dioceses requerem o preenchimento de formulários, assinados pelo pároco, em que se declara, dentre outras coisas, que "não contraiu matrimônio apenas civil, nem coabita, nem procurou o divórcio".

É lícito se perguntar por que um papa emérito, que vive retirado e se deixa ver em público apenas quando o papa reinante o convida (a última vez foi para a beatificação de Paulo VI), decidiu dar uma entrevista, rompendo, com a devida cautela, a regra do silêncio que ele se impôs desde que ele optou por viver como um monge.

O motivo talvez esteja na publicação de um novo livro, o quarto, da coletânea dos seus escritos. O fato é que, em 1972, o professor de teologia Joseph Ratzinger, em um artigo "Sobre a questão da indissolubilidade do matrimônio", havia se expressado em termos possibilistas sobre a readmissão à Eucaristia dos divorciados em segunda união. Em alguns casos particulares, escrevera Ratzinger, a readmissão podia ser "coberta pela tradição".

Para a republicação, Ratzinger preferiu reformular as conclusões e reiterar o que havia afirmado como cardeal e depois como papa, ou seja, a intangibilidade da doutrina sobre a indissolubilidade do matrimônio, com o que daí se segue em matéria de admissão à comunhão.

No entanto, isso não foi, de fato, uma ingerência no Sínodo de outubro. A revisão do texto foi decidida em agosto e não contém "nada de novo". Ratzinger (que depois da renúncia queria ser chamado de "Padre Bento", mas, na época, estava "fraco e cansado demais" para se impôr) cita o ensinamento de Wojtyla, "e eu mesmo como prefeito da Doutrina da Fé escrevi coisas muito mais radicais".

Em suma, é "absurdo" fazer de Ratzinger um opositor daquele Francisco segundo o qual "as resistências agora se evidenciam, mas, para mim, é um bom sinal: que não sejam ditas às escondidas".

Portanto, Bergoglio considera "as resistências como pontos de vista distintos, não como coisa suja. Elas têm a ver com as decisões que eu possa tomar, isso sim".