Papa Francisco em Istambul, o dossiê Vaticano II 50 anos depois. Artigo de Massimo Faggioli

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02 Dezembro 2014

A dimensão ecumênica, com a visita ao Patriarca Bartolomeu, foi distinta, mas não separada da dimensão política da visita ao líder da Turquia: trata-se de uma visão profundamente conciliar do nexo entre ecumenismo, diálogo inter-religioso e paz.

A opinião é do historiador italiano Massimo Faggioli, professor de história do cristianismo da University of St. Thomas, em Minnesota, nos EUA. O artigo foi publicado no sítio Europa Quotidiano, 30-11-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

A viagem para a Turquia diz muito sobre o pontificado do Papa Francisco, sobre as raízes e as trajetórias espirituais e ideais da Igreja de hoje.

A Turquia é um nó geográfico e cultural da difícil passagem do século XX das religiões imperiais à religião na esfera nacional e internacional, entre laicidade e retornos identitários.

Mas, para a Igreja, a Turquia também é um nó irrenunciável para se entender João XXIII e, portanto, o Concílio Vaticano II. A sensibilidade de Roncalli à questão da convivência e da coexistência entre povos e religiões nascidas entre Bulgária e Turquia, especialmente em Istambul, que é encruzilhada diplomática, sede da comunidade judaica mais importante do Mediterrâneo, laboratório cultural para os anos 1930 do ressourcement teológico, mas também de efervescências culturais das mais variadas (em Istambul, convergem nos mesmos anos Roncalli, Erich Auerbach, autor de Mimesis, o aventureiro humanista inglês Patrick Leigh Fermor, e muitos outros).

Uma das maiores chaves interpretativas para compreender o Concílio Vaticano II é o nexo entre conversão das Igrejas, unidade entre os povos e paz – uma das intuições amadurecidas pelos diplomata vaticano Roncalli nos 20 anos entre a ascensão dos nacionalismos totalitários e autoritários na Europa e o fim da Segunda Guerra Mundial. Os tempos de hoje são diferentes, mas não sem riscos semelhantes, e o Papa Francisco é intérprete do mal-estar do mundo euro-mediterrânico: do Parlamento Europeu ao palácio de Erdogan, em poucos dias, a mensagem do primeiro papa não euro-mediterrânico é unitária e é uma confirmação do genius Romae, do papel de Roma (como sede do papado, mas também como cidade), mesmo dentro de uma Igreja globalizada e já demograficamente pós-europeia.

A dimensão ecumênica, com a visita ao Patriarca Bartolomeu, foi distinta, mas não separada da dimensão política da visita ao líder da Turquia: trata-se de uma visão profundamente conciliar do nexo entre ecumenismo, diálogo inter-religioso e paz. O cenário é diferente do episódio conciliar: o que une os cristãos hoje não são a Guerra Fria e a perseguição antirreligiosa por parte dos comunistas na Europa Oriental, mas as violências de fundo religioso entre África e Ásia, com o Oriente Médio no centro, parafusado em uma espiral que leva os cristãos a deixá-lo, porque se tornaram vítimas de perseguições direcionadas.

Mas, tanto hoje quanto à época, na Guerra Fria, o Oriente cristão encontra em Roma um interlocutor que não encontra em outras zonas do catolicismo de vanguarda, como o norte-americano. Nesse sentido, a centralidade de Roma e do papado é fruto de um "estado de exceção" (como diria Carl Schmitt), que é mais histórico-político do que teológico-doutrinal, e as Igrejas têm uma memória mais longa do que os think tanks e o capital internacional.

Uma das novidades do papado de Francisco é a dimensão espiritual e pessoal do diálogo que supera a hostilidade mascarada de prudência política e de precisão teológica. No plano dos gestos, a surpresa de Bartolomeu diante da insistência de Francisco, que lhe pede uma bênção, diz muito sobre a potência deste momento histórico para concretizar a aspiração à unidade entre Oriente e Ocidente.

Mas não há apenas gestos. É evidente a absoluta preeminência, em todo o magistério bergogliano, e não só nas questões ecumênicas, do documento sobre o ecumenismo do Concílio Vaticano II, Unitatis redintegratio, e especialmente do parágrafo 11 sobre a "hierarquia das verdades".

Mas também é evidente a passagem de um vocabulário do magistério papal tentado a revestir tudo (e o seu oposto) de Concílio Vaticano II, em uma espécie de "nominalismo conciliar", ao magistério de Francisco que faz o Concílio nomeando-o diretamente apenas em ocasiões particulares.

Mas, em Istambul, Francisco falou daquele momento na vida da Igreja mais frequentemente do que em outras ocasiões. A visita do Papa Francisco à Turquia é outra etapa do "onde estávamos?" do pontificado de Bergoglio: a reabertura do dossiê conciliar, com todas as suas implicações ecumênicas, aberto há 50 anos.

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