Nomeações de bispos e organismos “patrióticos”: as pressões de Pequim

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Por: André | 25 Novembro 2014

Na “vexata quaestio” das relações entre a China Popular e o Vaticano, os chineses deram o último passo, usando como instrumento “indiscrições” que chegaram aos meios de comunicação. Com um artigo que foi publicado na quinta-feira no jornal de Hong Kong Wen Wei Po, considerado expressão do governo chinês, uma fonte anônima que se apresenta como próxima às negociações sino-vaticanas descreveu os termos de um acordo que Pequim teria proposto à Santa Sé em relação com a controvertida questão das nomeações dos bispos católicos no país. Acrescentou, além disso, que se esperaria uma resposta durante os primeiros meses de 2015. O conteúdo do artigo, com explicações de especialistas em política religiosa chinesa, foi retomado imediatamente pelo sítio do Global Times, canal inglês produzido pelo Jornal do Povo, órgão do Partido Comunista Chinês. Desta maneira, a mensagem chegou forte e clara a todos os interessados, inclusive o Vaticano.

 
Fonte: http://bit.ly/1pcblwy  

A reportagem é de Gianni Valente e publicada no sítio Vatican Insider, 23-11-2014. A tradução é de André Langer.

As indiscrições anônimas publicadas pelo jornal de Hong Kong representam um clássico “ballon d’essai” lançado à imprensa. Em outras ocasiões os dirigentes da Administração Estatal para Assuntos Religiosos (Sara) usaram o mesmo jornal para vazar os próprios planos em relação à relação sino-vaticana. Os ambientes chineses interessados na questão apostam em impulsionar a Santa Sé (que até agora não confirmou nem desmentiu o conteúdo do artigo) a tomar decisões e demonstram a impaciência que teriam para retomar as negociações sobre pontos concretos. E a mensagem está cheia de “sinais” para serem decifrados.

No artigo do Wen Wei Po recorda-se o apreço que suscitaram na China as palavras dedicadas pelo Papa Francisco ao “belo e nobre povo chinês” durante o voo da Coreia do Sul a Roma. Além disso, diminui-se o dramatismo em relação à questão das relações diplomáticas que a Santa Sé tem com Taiwan. O artigo indica que os responsáveis vaticanos estariam trabalhando em uma solução aceitável para todos, a mesma que seria proposta quando se vier a falar das relações diplomáticas diretas entre Pequim e o Vaticano. Quanto à questão crucial das nomeações dos bispos, aludem-se dois possíveis métodos com os quais a Santa Sé e a China poderiam chegar a um acordo. No primeiro caso, o candidato selecionado pela diocese pelos procedimentos “democráticos” atualmente em vigor, após ter recebido o beneplácito da Conferência Episcopal chinesa e de ter sido comunicado à Sara, seria consagrado apenas depois de ter obtido o consenso da Santa Sé. Na segunda hipótese, os nomes dos candidatos apresentados à Santa Sé seriam dois; e se nenhum tivesse o beneplácito vaticano, o procedimento de seleção seria reiniciado para encontrar outros dois candidatos. Em relação a este ponto nevrálgico, a mensagem enviada por Pequim parece clara: a questão das nomeações dos bispos deve ser retomada considerando a hipótese de trabalho que havia surgido entre 2006 e 2009, quando as negociações bilaterais reservadas entre a Santa Sé e Pequim estavam prestes a chegar a um acordo que teria excluído a possibilidade de que se repetissem na China ordenações ilegítimas, ou seja, administradas fora da comunhão com o Bispo de Roma. Na carta dirigida aos católicos chineses, de junho de 2007, Bento XVI havia expressado que desejava “um acordo com o governo para resolver algumas questões relacionadas com a escolha dos candidatos ao episcopado”.

O artigo do Wen Wei Po atribui ao Vaticano o desejo de considerar também nas negociações o destino dos órgãos estatais com os quais o governo condiciona e pretende dirigir “de dentro” a vida da Igreja, como a Associação Patriótica dos Católicos Chineses (APCC) e o Comitê dos Representantes Católicos Chineses. A Santa Sé, segundo o artigo, põe dúvidas sobre a necessidade de manter a existência de estruturas deste tipo, e veria com gosto sua abolição. O jornal de Hong Kong destaca que “isto não parece provável” e que a busca de soluções compartilhadas “apresenta dificuldades”. Mas admite que, com as novas condições da história, “a Associação Patriótica poderia futuramente mudar de nome. Poderíamos inclusive ter outra organização, mais adequada para as exigências da nova época”.

Ao retomar o artigo, o Global Times contempla, além disso, as objeções de dois estudiosos chineses em relação à rápida dissolução das estruturas patrióticas, mas indicaram que existiria a possibilidade de uma mudança nelas. Shen Guiping, do Instituto Central de Estudos sobre o Socialismo, aventa uma reforma da Associação Patriótica que a transformaria em um “grupo independente” que funcionaria como “ponte” entre as autoridades políticas e os membros da Academia das Ciências Sociais em Xangai, ressalta o valor da “herança histórica” que representa a Associação Patriótica e se limita a acrescentar que sua dissolução “não deveria ser posta como pré-requisito para estabelecer relações diplomáticas” entre a China Popular e o Vaticano.

Em resumo, todas as referências aos órgãos “patrióticos” contidas em ambos os artigos admitem que seu estatuto e função podem ser objeto de discussão entre a Santa Sé e Pequim. Uma abertura que nunca apareceu na linguagem até agora usada pelos funcionários chineses e seus porta-vozes oficiais e extra-oficiais. A preocupação por querer garantir a sobrevivência dos organismos “patrióticos” reflete preocupações muito concretas: tais aparelhos burocráticos, capilarmente conectados com a complexa rede do poder chinês, dão emprego a milhares de burocratas, e qualquer hipótese sobre seu destino deve ser calibrada no longo prazo. A carta de Ratzinger também havia insistido em que a pretensão dos organismos patrióticos de “se situar acima dos próprios bispos e de dirigir a vida da comunidade eclesial não corresponde com a doutrina católica”. Mas não havia indicado que a supressão da Associação Patriótica fosse uma condição “a priori” para a abertura do diálogo. Deixava em aberto a possibilidade de uma “conversão” que, mediante uma revisão de seus estatutos, a transformasse em um instrumento de contato entre a Igreja e o governo.

O artigo do Wen Wei Po contém uma série de aberturas que devem ser verificadas, sobretudo a postura vaticana. Enquanto isso, houve novas intervenções que ajudam a compreender o contexto no qual se poderiam dar futuros contatos entre Pequim e a Santa Sé. Na China, o general Liu Yazhou, chefe do escritório político da Universidade da Defesa, acaba de manifestar em termos surpreendentes sua admiração pelo cristianismo, exaltando-o em relação ao budismo e as religiões do Oriente: “Quando estive nos Estados Unidos”, contou Liu, famoso por sua proximidade com o presidente Xi Jinping, “me sentei fora de uma igreja durante um dia inteiro e descobri uma coisa interessante: todos entravam com uma expressão preocupada e cerrada, e saíam espiritualmente aliviados”. O Deus do Evangelho, indicou o general chinês, é um que Deus que “sofre enquanto as pessoas não sofrem. Ao contrário, os deuses das religiões orientais ‘gozam’ enquanto o povo sofre”.

Em um texto que acaba de ser escrito pelo secretário de Estado vaticano, Pietro Parolin, sobre a história entre o Vaticano e os regimes comunistas do leste europeu, recordam-se os critérios de seleção e nomeação dos bispos em termos que poderiam ser facilmente aplicáveis na atual condição da Igreja na China: “De acordo com um lugar comum da crítica da Ostpolitik”, indicou o secretário de Estado na conferência preparada para um congresso sobre o cardeal Agostino Casaroli, “a Santa Sé teria cometido erros na escolha dos bispos porque, substancialmente, os candidatos não eram ferrenhos opositores aos regimes. Mas a Santa Sé tinha objetivos pastorais, não políticos. Não desejava bispos de escritório que fossem dissidentes, colocando no centro de suas atividades a política, mas homens que fossem pastores. Um candidato era eleito segundo a sua adesão ao Evangelho e, eventualmente, pela fidelidade a Roma. Eram necessários homens espirituais, não personagens com atitude de gladiador no cenário público [...] Um bom bispo era reconhecido por sua ação pastoral, não por suas manifestações contra os regimes, embora fossem necessárias”.