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23 Outubro 2014

Após o Sínodo, o Papa se encontra mais que nunca sob pressão. Pressão ideológica, sobretudo: é fácil para os conservadores blefar na mídia o que querem, até a obsessão “fazer casar os padres e fazer divorciar os fiéis”. Pressão do sistema, depois: não se rompe impunemente com 30 anos de discursos e dois Papas sucessivos – e que Papas! E, embora não meta a mão nem no dogma nem na doutrina, o argentino modificou a perspectiva. Para Bento XVI defender a verdade constituía a forma suprema da caridade. Para Francisco, o percurso é diverso: somente a misericórdia torna a verdade crível. Embora, segundo o salmo, “amor e verdade se abraçarão”, as duas concepções são antípodas. “Os esforços do Vaticano e até deste Papa para afirmar a continuidade com Bento XVI não resistem ao exame”, retém o vaticanista Jean-Marie Guénois.

O comentário é de Jean-Pierre Denis, publicado pelo portal da revista francesa La Vie, 21-10-2014. A tradução é de Benno Dischinger.

Desde quando Paulo VI, beatificado no domingo 19 de outubro, relançou este organismo, o sínodo jamais existiu como um parlamento. Mas, desta vez, se fez nele abertamente política, defendendo idéias contrapostas, batalhando ao som de emendas ou organizando fugas. A coisa é de deplorar? Só se a gente quiser fingir que a Igreja seja uma realidade angélica e flutuante entre as nuvens. Olhemos antes para os resultados.

Contrariamente a quanto foi noticiado por certos meios de comunicação, aquele conflito vivaz não se traduziu com a vitória dos defensores do status quo: os resultados das votações sobre todos os temas indicam o contrário. Assim, enquanto alguns queriam que fosse definitivamente fechada, a questão do acesso aos sacramentos para os divorciados redesposados é, ao invés, aberta. Era indispensável.

Todavia, após ousar exprimir com palavras sua perturbação, a Igreja sai dividida, inquieta, exposta. O Papa não impôs o seu pensamento. Talvez tenha movido alguma peça, exasperando alguns, antes de colocar-se oportunamente além e acima do conflito. Jesuítica habilidade!

Mas, a busca do consenso continua sendo tanto um exercício espiritual necessário como uma arte delicada, sobretudo numa Igreja composta por mais de um bilhão de fiéis de culturas diversas. O Papa conseguiu liberar a palavra. Agora o espera a tarefa mais difícil: conduzir o processo ao qual deu início, para chegar a uma decisão suficientemente hábil para evitar tanto um cisma como a sensação de um encontro marcado com o próprio pontificado; enfim, permitir à Igreja de passar a outro. Tudo isto num ano? Um desafio...

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