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Por: Cesar Sanson | 23 Outubro 2014

Em entrevista à Rede Brasil Atual – RBA, 22-10-2014, o filósofo Vladimir Safatle, apesar da postura crítica ao atual governo, avalia que o candidato à Presidência pelo PSDB, Aécio Neves, seria incapaz como presidente de levar a cabo propostas de melhoria dos serviços públicos, nem as reformas políticas necessárias no país. “A esquerda pode ser briguenta, mas não é suicida, então acabamos nos voltando para Dilma, para barrar a possibilidade de o Aécio ganhar”, diz. “Eu não digo que vou votar na Dilma, eu vou vetar o Aécio.”

“Nós temos uma demanda muito grande de mudanças e transformações que jamais poderiam ser encarnadas por um candidato como Aécio Neves. Ele promete trazer de volta membros do antigo governo Fernando Henrique Cardoso. Eu não imagino um lugar onde um partido perde uma eleição e tempos depois volta com o mesmo grupo”, critica. “A maior característica dessas eleições é que as pessoas se mobilizam mais pelo veto do que pelo desejo de voto.”

A polaridade do eleitorado no segundo turno não é uma surpresa para Safatle, já que, segundo ele, a sociedade brasileira apresenta uma clara divisão ideológica, que ultrapassa a divisão das classes sociais. “Mesmo o Lula ganhava a eleição com uma média de 60% dos votos. Ou seja, 40% da população estava com o pensamento conservador, e não era só a classe média. Não existe 40% de classe média no Brasil. Esse percentual abrangia setores da classe mais pobre.”

“Acho que essa divisão é positiva para as pessoas entenderem de uma vez por todas: nós não estamos no mesmo país. Nós não vivemos no mesmo país. Nós temos diferenças fundamentais com vários grupos, que representam o pensamento conservador nacional”, diz. “Nem em relação a nossa história temos acordo: essas pessoas, em última instância, acham que é normal que o Estado não criminalize a tortura de Estado, que é normal falar que a ditadura militar foi um mal necessário, por exemplo.”

Eis a entrevista.

Como o senhor avalia o nível do debate eleitoral em 2014? Ele está mais ou menos propositivo que o de 2010?

São várias questões. Vivemos um momento de esgotamento da política brasileira e me parece que nenhum dos atores principais no debate eleitoral tenham sido capazes de desempenhar seus papeis. A Marina Silva (PSB), por exemplo, se apresentava como uma terceira via, que se mostrou totalmente falsa, o que fez com que ela se desidratasse por completo em duas semanas. Essas foram as contradições internas das suas propostas, que fragilizaram sua campanha.

Nós temos uma demanda muito grande de mudanças e transformações que jamais poderiam ser encarnadas por um candidato como Aécio Neves. Ele inclusive promete trazer de volta para seu governo membros do antigo governo Fernando Henrique Cardoso. Eu não consigo imaginar nenhum lugar do mundo onde um partido perde uma eleição e tempos depois, quando vai tentar recuperar, volta com o mesmo grupo. Normalmente você muda, até para mostrar para o eleitor que compreendeu o recado das urnas.

Por outro lado, o governo Dilma Rousseff é um governo muito desgastado. Não digo por conta dos escândalos e coisas dessa natureza, que por si já são um problema, mas pela sua incapacidade de apresentar novas pautas para a política brasileira. Então, eu diria que a maior característica dessas eleições é que os candidatos estão de alguma forma mortos e as pessoas se mobilizam mais pelo veto do que pelo desejo de voto. Nessa situação é muito fácil entender por que o nível de belicismo aumenta.

O fato de Dilma não ter apresentado um plano de governo foi problemático para a campanha da candidata?

Isso demonstra muito claramente que o PT tenta ganhar a eleição muito baseado no que já foi feito, alimentando o medo de que tudo isso pode ser perdido, e não através de uma proposta do que pode ser feito daqui para frente. Quando se assume essa postura, o plano de governo vira de fato algo totalmente desnecessário. A estratégia é outra.

Nesta eleição, devido ao acirramento da disputa no segundo turno, houve uma maior intolerância com as candidaturas de esquerda?

Eu acho que na verdade a sociedade brasileira é uma sociedade ideologicamente dividida. Sempre foi. Os últimos 20 anos é que foram um hiato na história brasileira, onde se encontrou um certo equilíbrio, mas que não teria mesmo como durar. Basta lembrar a eleição Fernando Collor e Lula (em 1989). Ela também foi canina, porque a sociedade brasileira é uma sociedade onde as divisões ultrapassam as divisões de classe. No interior da classe média temos uma divisão ideológica entre conservadores e esquerda, na classe mais pobre também. Então nesse sentido acho que voltamos ao nosso lugar natural.

Alguma das campanhas conseguiu incorporar as insatisfações manifestadas em junho de 2013?

Essa é fácil de responder: não. Com certeza. Nenhuma delas foi capaz de apresentar propostas substanciais, seja na transformação política do Brasil, já que as pessoas estão fartas da forma como o Brasil é governado, seja na construção de um sistema público de educação, saúde e transporte de qualidade, que impeçam a corrosão dos salários com gastos excessivos nesses três itens.

O fato de o Psol não ter declarado apoio explícito para Dilma não seria pragmatismo político em um momento entendido pela esquerda como de risco para o país, já que existe uma possibilidade concreta de o PSDB vencer as eleições?

Não concordo. Primeiro porque a posição do Psol foi muito clara: liberou seus eleitores e vetou o Aécio. Seria completamente surreal exigir os votos de uma parcela dos eleitores que estão com um descontentamento muito grande com o governo Dilma por aquilo que ele não fez e pela degradação que gerou no ambiente político, pela sua incapacidade de apresentar políticas de participação popular, a não ser propostas sobre conselhos, que foram apresentadas no apagar das luzes do governo. Isso vai muito de cada um. Eu não digo que vou votar na Dilma, eu vou vetar o Aécio. Mas consigo entender pessoas que vão votar nulo.

Como o senhor avalia a polarização do eleitorado na reta final das eleições?

Acho normal que ela fique mais acirrada, porque sempre existiu uma polaridade no Brasil. Mesmo o Lula ganhava a eleição com uma média de 60% dos votos a 40%. Ou seja, 40% da população estava com o pensamento conservador, e não era só a classe média. Não existe 40% de classe média no Brasil. Esse percentual abrangia setores muito importantes da classe mais pobre. Sempre houve essa polarização. Acontece que em uma situação de imobilismo, que é a situação atual, essas relações ficam mais duras, porque existe uma demanda muito grande que não está sendo ouvida por nenhum dos atores políticos nacionais. Assim é muito natural haver um acirramento.

Acho que a divisão é positiva para as pessoas entenderem de uma vez por todas: nós não estamos no mesmo país. Nós não vivemos no mesmo país. Nós temos diferenças fundamentais com vários grupos que representam o pensamento conservador nacional. Nem em relação a nossa história temos acordo: essas pessoas, em última instância, acham que é normal que o Estado não criminalize a tortura de Estado, que é normal falar que a ditadura militar foi um mal necessário. Haveria então duas possibilidades: uma secessão ou um debate político, que vai ser violento. Agora a questão é saber transformar isso em violência política, não na violência da agressividade contra o outro. Quando você tem processos políticos fortes você consegue politizar a violência. Como não há esse processo agora, a violência tende a ser imaginária, nessa agressividade de um contra o outro.

Com nova configuração do Congresso Nacional, mais conservador que o atual, o PT, caso eleito, terá condições de fazer as reformas que propõe, em principal a reforma política e a democratização da mídia?

Eu avalio que ele não propõe reformas. Qual proposta sobre a reforma política foi feita nos últimos quatro anos? Mesmo sobre a questão sobre o fim dos oligopólios da mídia, que no fundo é simplesmente a aplicação de uma lei que já existe nos Estados Unidos, que é o fim da propriedade cruzada, não foi proposta. Eu arrisco de dizer que não sei quais são as propostas de reforma do PT.

Mas nesse cenário de mais polarização elas se fazem urgentes, não?

Elas são absolutamente necessárias, mas de fato não aceito que o PT hoje seja um ator capaz de levar a cabo tais propostas. Ninguém está pedindo o socialismo para amanhã. Na reforma tributária, por exemplo, o que pedimos é a aplicação de medidas vigentes em países liberais. Eu gostaria de ter o imposto sobre heranças dos Estados Unidos e o imposto de renda da Inglaterra. Mas nem isso o governo coloca em pauta. O que ele vai fazer é uma gestão da inércia. O PT conquistou votos porque teve a sorte de ter como opositor o candidato Aécio Neves, que se eleito seria um suicídio. A esquerda pode ser briguenta, mas suicida não é, então acabamos nos voltando na Dilma para barrar a possibilidade de o Aécio ganhar.

Essas reformas teriam de vir, então, dos movimentos sociais?

Por um lado, sim. Por outro teria que pautar a opinião pública sobre isso, fazendo com que as ideias circulem cada vez mais. E eu não sei nem se o PT quer mobilizar a opinião pública e os movimentos sociais, porque foram quatro anos de nada nesse sentido. Por que eu imaginaria que os próximos quatro seriam diferentes? Qual a mínima reforma política que foi proposta nesses quatro anos, em um Congresso que era majoritariamente pró-governo, muito diferente do que vai ser no próximo ano, quando será muito mais difícil governar? Qual foi de fato a proposta de saúde e educação para transformar os serviços públicos? Foi a proposta dos royalties do petróleo para educação e saúde, mas que é um dinheiro que só vai cair em 2018. Eu nunca vi fazer uma proposta com um dinheiro que vai começar a chegar quando você nem estiver mais no governo! Por isso eu tenho dificuldade de saber onde está o espírito de reforma do governo atual.

Como o senhor avalia o papel da imprensa neste processo eleitoral?

A imprensa nacional tem em seus largos setores uma postura política muito clara, e isso não é de hoje, é de muito tempo. Os setores majoritários da imprensa têm alinhamento com o pensamento conservador liberal nacional. Mas acho que existe uma sobrevalorização da força de influência da imprensa, dos dois lados: ela própria gosta de acreditar nisso e o PT gosta de reforçar, para criar uma situação de vitimização. Nos últimos anos, o Lula ganhou as eleições sem ter o apoio majoritário da imprensa, só com o apoio de alguns setores muito específicos: de alguns canais de televisão e de algumas revistas.

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