Após escândalos, Vaticano procura ser modelo nas finanças

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10 Julho 2014

“O objetivo é tornar-se um modelo de gestão financeira em vez de uma fonte irregular de escândalos”, diz o cardeal australiano George Pell, escolhido por Francisco em fevereiro para ser o seu novo czar das finanças.

A reportagem é de John L. Allen Jr. e Inés San Martín, publicada por The Boston Globe, 09-07-2014. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Ao revelar as reformas financeiras mais radicais até agora sob o pontificado do Papa Francisco, o Vaticano anunciou nesta quarta-feira uma nova composição e um papel mais limitado do Banco do Vaticano, um novo escritório para administrar os seus vários bilhões de dólares em investimentos, os estudos de seus fundos de pensão e operações midiáticas além de mais poderes para a nova Secretaria para a Economia.

Funcionários dizem que o objetivo da revisão inclui estar em conformidade com as melhores práticas globais e com as normas jurídicas, com a internacionalização de sua composição, contando com uma autoridade compartilhada entre religiosos e leigos, num esforço para superar uma história na qual as percepções de intrigas e práticas obscuras relacionadas à administração do dinheiro vêm dando, repetidas vezes, problemas ao Vaticano.

“O objetivo é tornar-se um modelo de gestão financeira em vez de uma fonte irregular de escândalos”, disse o cardeal australiano George Pell, escolhido por Francisco em fevereiro para ser o seu novo líder nas finanças.
“O papa disse claramente que quer ações rapidas”, acrescentou Pell.

Hoje, durante uma coletiva de imprensa em Roma, Pell anunciou alguns dos vários passos importantes a serem dados:

• A redução do Banco do Vaticano, conhecido formalmente como o Instituto para as Obras de Religião”. O investimento de seus aproximadamente 8 bilhões de dólares será transferido para um novo escritório do Vaticano para a gestão de ativos, que também assumirá as atividades de investimento de outros departamentos.

• A nomeação do empresário francês Jean-Baptiste de Franssu, que atua no Conselho para a Economia criado por Francisco para supervisionar as reformas financeiras, como o novo presidente do banco. De 1990 a 2011 de Franssu trabalhou como executivo junto à Invesco Europe, empresa de investimentos com 35 bilhões de dólares em ativos sob sua gestão.

• A nomeação de um novo membro para um organismo composto de cardeais que governam o banco, e a nomeação de vários leigos para um conselho de administração responsável pela supervisão de rotina.

• A criação de duas comissões para estudar a sustentabilidade de um fundo de pensão para os cerca de 5 mil funcionários do Vaticano, e uma reorganização dos serviços de comunicação, do que se espera resultar numa redução e numa maior ênfase nas mídias sociais.

• Para o ano fiscal de 2015, espera-se que cada departamento do Vaticano tenha um orçamento formal, e todos se responsabilização pelos excessos de gastos.

No geral, os analistas consideraram estas mudanças um grande passo em direção ao poder que o cardeal Pell e sua secretaria concentram, trazendo praticamente todos os centros financeiros importantes do Vaticano para o seu controle.

De forma notável, dos 17 nomes anunciados hoje apenas dois são italianos. Isso está em consonância com a política do papa de ir de encontro com aquilo que vem sendo um monopólio italiano sobre a gestão financeira.
“Somos uma Igreja universal, então as pessoas nas posições-chave devem ser universais”, disse Pell, “ainda que haja muitos italianos ótimos”.

Ao longo dos anos, o Banco do Vaticano tem sido uma fonte recorrente de escândalos, legado que continua hoje com as investigações criminais conduzidas por autoridades italianas contra um punhado de ex-funcionários. Em vez de desativar o banco, as mudanças anunciadas hoje aparam, de forma significativa, as suas responsabilidades.

O empresário e advogado alemão Ernst von Freyberg, que está deixando o cardo de presidente do Banco do Vaticano após 16 meses, disse que o novo perfil da instituição em grande parte será como o de um banco de “poupança e empréstimo para as congregações religiosas”.

Entre os novos membros de um conselho supervisor de seis pessoas do banco está a professora de Direito e ex-embaixadora americana junto à Santa Sé, Mary Ann Gendon, que anteriormente trabalhou numa comissão que estudou o futuro do banco, comissão criada por Francisco em 2013.

Na terça-feira o Banco do Vaticano anunciou uma queda acentuada nos lucros para o ano de 2013, atribuindo isso aos 11 milhões de dólares gastos em despesas associadas com uma revisão detalhada de todas as contas bancárias e a uma perda de 60 milhões em depósitos associados com o fechamento de aproximadamente 3 mil contas.

Embora uma carta criticando von Freyberg escrita pelo delegado escolhido a mão pelo próprio papa tenha vindo à tona recentemente na mídia italiana, os analistas o creditam como alguém que conduzirá o banco através de padrões internacionais, estabelecendo um novo quadro em relação à lavagem de dinheiro e contratando o grupo Promontory Financial, com sede nos EUA, para rever a situação de seus clientes.

Von Freyberg disse que, ao acelerar as reformas, deu ao Papa Francisco uma opção além da de fechar o banco.

“Hoje, sabemos quem são nossos clientes”, falou von Freyberg, insistindo que não existem “contas secretas” nem piscinas de dinheiro cujos donos seriam “famílias e políticos italianos”. Disse também que não há contas nas mãos de “organizações más”.

Ele defendeu o pagamento de 11 milhões de dólares para a Promontory, informando que a empresa “não estava simplesmente fazendo um serviço de consultoria, mas um serviço de controle que não fora feito nos últimos 20 anos”.

Oficialmente o Vaticano falou que von Freyberg está saindo do cargo porque “outros compromissos o impossibilitavam de ter uma dedicação em tempo integral no Instituto para as Obras de Religião”.

O novo escritório do Vaticano para a gestão de ativos estará encarregado de combinar os investimentos do banco com aquilo que se conhece como a “seção ordinária” da Administração do Patrimônio da Sé Apostólica – APSA, departamento criado originalmente para gerir um pagamento único da Itália em 1929 como compensação da perda de territórios papais.

A ideia, tal como o Vaticano a descreveu, é consolidar as atividades vaticanas de investimento para obter um retorno melhor e eliminar a duplicação de esforços.

De Franssu definiu o escritório como uma “plataforma dos mais altos padrões éticos e católicos para garantir retornos competitivos com aqueles oferecidos por outras instituições”.

Ao trazer a APSA para a sua órbita, Pell assumiu a responsabilidade por um outro departamento que tem gerado dores de cabeça.

Em 2013, o ex-consultor da APSA chamado Nunzio Scarano foi acusado pelas autoridades italianas de lavagem de dinheiro e envolvimento num esquema de contrabando de dinheiro vivo. Por sua vez, Scarano denunciou vários abusos sofridos na APSA, tais como funcionários que aceitam férias em hotéis 5 estrelas e outras regalias pagas por bancos comerciais em troca de ter fundos do Vaticano ancorados neles.

Pell disse que assumir a seção ordinária da APSA também irá dar ao seu departamento o controle sobre as compras e os recursos humanos do Vaticano.

Ele definiu o futuro da APSA como o tesouro do Vaticano, acrescentando que isso irá estabelecer relações estreitas com os principais bancos centrais do mundo, tal como recomendado pelo Moneyval, a agência antilavagem de dinheiro do Conselho da Europa.

Pell insistiu que os fundos de pensão do Vaticano, hoje, são “totalmente seguros”, mas disse que a ideia da comissão é garantir que continuem sendo viáveis por 20 ou 30 anos.

No fronte das mídias, o cardeal afirmou que o as atividades de comunicação do Vaticano, que incluem um serviço massivo de rádio e um jornal diário em múltiplos idiomas, podem custar muito caro ao mesmo tempo em que têm um alcance que é bastante limitado.

Depois de ver o sucesso da conta do papa no Twitter e de outras iniciativas digitais, disse ele, a ideia é “garantir que as mensagens do Santo Padre cheguem a mais fiéis ao redor do mundo, especialmente os jovens”.

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