Os sem-teto protagonizam o terceiro dia de caos nas ruas de São Paulo

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23 Mai 2014


“Se não atenderem nossas reivindicações vamos parar a Copa. Se não respeitam nossos direitos, no dia 12 de junho não vai ter inauguração”. A ameaça, hoje recorrente, veio desta vez do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) que protagonizou nesta quinta-feira o terceiro dia de caos nas ruas de São Paulo. Coordenados com a Frente de Resistência Urbana, qualificaram a marcha como "a maior manifestação do ano na cidade". A Polícia Militar afirmou que cerca de 5.000 pessoas acompanharam o ato, enquanto os movimentos elevaram o número a 20.000.

A reportagem é de Frederico Rosas e María Martín, publicada pelo jornal El País, 22-05-2014.

“Ninguém tomou chuva e caminhou porque acha bonito”, gritava no final da caminhada um dos líderes do MTST, Guilherme Boulos. “Nós temos uma proposta clara. Não adianta fazer Copa do Mundo sem que sejam respeitados nossos direitos. Queremos dizer que a bola está com o povo. Queremos nossa fatia do bolo e não migalhas”, continuou Boulos antes de atacar também as construtoras que seriam, segundo ele, as principais beneficiadas pelo evento. “Já nos reunimos com Dilma [Rousseff] e com o governador [de São Paulo, Geraldo Alckmin]. Eles não vão poder falar que não sabem o que estamos pedindo”, advertiu. A ameaça foi clara: “Nos disseram em Brasília que os recursos para moradia acabaram, enquanto os da FIFA não. Ou aparece o dinheiro ou o junho da Copa vai virar um junho vermelho [em referência à cor que identifica os movimentos populares]”.
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Entre os ativistas também se encontravam estudantes e grupos que há meses levantam a bandeira contra a realização do Mundial no país. A Frente de Resistência Urbana, que compartilha coordenação com os trabalhadores sem-teto, reúne muitos outros movimentos sociais. As reivindicações, cristalizadas em três protestos só neste mês, abrangem, além de moradia, saúde, transporte e educação, uma pensão vitalícia às famílias dos operários mortos e incapacitados durante as obras da Copa. Ao todo, nove trabalhadores já morreram nos canteiros dos estádios do torneio, cujos gastos superam com uma grande diferença os efetuados nos dois últimos Mundiais, na África do Sul e na Alemanha.

O protesto, que iniciou a marcha sob uma intensa chuva do Largo da Batata, zona oeste de São Paulo, elevou o grito “Copa sem povo, tô na rua de novo” até à ponte Estaiada, na zona leste, fechando pelo caminho importantes avenidas da cidade, como Brigadeiro Faria Lima e a Marginal Pinheiros, em horário de pico. Às 19 horas, São Paulo registrou 248 quilômetros de lentidão, um trânsito próximo ao recorde do ano, atingido na terça feira quando os motoristas e cobradores de ônibus estacionaram seus veículos no meio da rua como reivindicação por melhores condições de trabalho.

Durante o protesto, comerciantes do Largo da Batata fecharam as portas, assim como o shopping Iguatemi – um dos mais sofisticados e caros da cidade– que trancou e blindou com seguranças sua entrada principal por temor a invasões.

Em São Paulo existem hoje cerca de 290.000 prédios desabitados, segundo a Secretaria Municipal de Habitação. A pesar disso, quase 3,2 milhões de pessoas vivem em condições inadequadas, segundo um relatório municipal. Isto significa que ou não são proprietários da casa onde moram por ter sido construídas irregularmente –como as favelas-, pagam um aluguel excessivo em relação à sua renda ou moram em áreas de risco. Trata-se de 30% dos mais de 11 milhões de habitantes da cidade.

A menos de um quilômetro do estádio de abertura da Copa, a Arena Corinthians (Itaquerão), por exemplo, há uma comunidade composta por 300 famílias que esperam moradias populares e convivem com esgoto a céu aberto e problemas de falta de luz. Na zona, também se instalou um dos acampamentos do MTST, que reúne atualmente 5.000 famílias na denominada "Copa do Povo", que reclama uma casa própria do programa federal Minha Casa Minha Vida. As melhorias viárias que estão sendo realizadas no entorno acabam moldando um bolsão de riqueza em meio a uma das áreas mais pobres da cidade, na zona leste.

A proximidade do torneio está incentivando os trabalhadores das mais diversas categorias –professores, policiais, rodoviários- a ameaçar uma paralisação de suas atividades, mas com a demonstração de força deste último protesto, os movimentos sociais se perfilam como a principal ameaça à tranquilidade da Copa. No último dia 8, durante a primeira manifestação da Frente de Resistência Urbana, centenas de sem-teto invadiram as sedes de três grandes construtoras em São Paulo: a Odebrecht, a Andrade Gutierrez e a OAS, todas responsáveis por obras de infraestrutura para o Mundial. Na ocasião, líderes do protesto se reuniram com a presidenta Dilma Rousseff, que estava visitando a cidade, e que se comprometeu a encaminhar as reivindicações de moradia para os programas de habitação do Governo federal. A manifestação desta quinta-feira foi um aviso de que não esqueceram a promessa.

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