O capitalismo não pode com a mudança climática

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Por: Jonas | 06 Maio 2014

Está na hora de esboçar novos princípios econômicos e políticos para responder a crise de sustentabilidade, destaca a última edição do relatório do ambientalista Instituto Worldwatch dos Estados Unidos. A comunidade internacional demorou muito para reagir diante da rapidez da degradação ambiental e da mudança climática, diz o relatório de 294 páginas, “Governing for Sustainability” (“Governando para a sustentabilidade”).

 
Fonte: http://goo.gl/Ujnpu5  

A reportagem é de Farangis Abdurazokzoda, publicada por Inter Press Service (IPS), 05-05-2014. A tradução é do Cepat.

Esta falta de governabilidade gerou os desafios ambientais mais alarmantes que enfrentamos na atualidade, alerta o instituto, desde a escassez de água até a mudança climática.

O relatório, com o qual o Instituto Worldwatch comemora seu 40º aniversário, enfatiza os desafios impostos pela atual ordem econômica e política. Por exemplo, critica o neoliberalismo por minar os processos democráticos ao conceder uma grande intervenção política às corporações, que buscam apenas maximizar seus benefícios com pouca atenção à saúde ambiental e à sustentabilidade.

“O descontrolado fluxo de dinheiro que vai para a política destrói a essência da democracia”, destacou Michael Renner, um dos diretores do relatório, em entrevista a IPS.

“Precisamos repensar muitas de nossas suposições e mecanismos econômicos, e apontar não apenas para uma melhor e mais inteligente distribuição da riqueza, mas também para uma melhor repartição do trabalho disponível. Não é possível conseguir isto com as formas convencionais do capitalismo”, afirmou.

Em parte, o relatório promove as “B corps”, como são chamadas em inglês as corporações de benefício que, embora tenham fins lucrativos, também concebem suas operações para beneficiar setores sociais e ambientais que costumam ser atingidos pela atividade das empresas privadas. Seu objetivo é “desempenhar-se bem, mas também fazer o bem”.

“Este movimento emergente ainda é pequeno em relação ao conjunto da economia global, mas continua crescendo, principalmente em setores de pequenas e médias empresas nos Estados Unidos”, apontou Colleen Cordes, diretora de extensão e desenvolvimento do The Nature Institute, uma organização de pesquisa e promoção, em entrevista a IPS.

No entanto, Renner, do Instituto Worldwatch, vê com certo ceticismo que estas corporações de benefício consigam conquistar objetivos de sustentabilidade a longo prazo.

“Muitas das companhias que subscrevem esses princípios ainda são pequenas, mas surge a pergunta sobre o que acontecerá quando crescerem e forem maiores”, explicou. “Poderão permanecer fiéis ao interesse público dentro de um sistema que segue governado pelos princípios do capitalismo?”, questionou Renner.

As formas tradicionais pelas quais as sociedades democráticas tomavam decisões importantes mudaram de forma drástica, observou.

“Os mercados podem ser excelentes ferramentas para certos fins, mas não têm consciência social, ética e nem ambiental, muito menos visão a longo prazo”, disse.

“É difícil saber o que seria capaz de mudar esta situação, mas parece ser preciso uma mobilização massiva para oferecer certo contrapeso à política manobrada pelo dinheiro que a rege atualmente”, acrescentou.

Medidas drásticas?

É claro, o desejo de lucro não é exclusivo das corporações. Os países em desenvolvimento costumam expressar seu mal-estar com as normas ambientais que as nações industrializadas impõem ao comércio, por exemplo, pois lhes dificultam alcançar um maior crescimento e desenvolvimento econômico, ao menos a curto prazo.

Renner acredita que é possível o desenvolvimento sem a degradação ambiental que costuma acompanhar ao crescimento econômico que foi visto na China, por exemplo.

“Devemos facilitar um processo que permita aos países em desenvolvimento saltar etapas para avançar em alternativas muito mais limpas, sem demora”, explicou, e citou o exemplo da energia renovável.

“Um país pobre como Bangladesh conseguiu instalar sistemas solares domésticos por 2,8 milhões de dólares em áreas rurais e gerar ao mesmo tempo cerca de 100.000 postos de trabalho. Isso é muito melhor do que continuar subsidiando o carvão e a querosene. Essas são as histórias exitosas que vale a pena aprender e imitar”, observou.

Há vários exemplos contrapostos de países mais ricos que conseguiram pouco ou quase nenhum avanço na crise de sustentabilidade. De fato, o relatório menciona vários Estados que experimentaram um retrocesso.

A Austrália, por exemplo, havia se comprometido a reduzir suas emissões de gases do efeito estufa em 5% abaixo dos níveis de 2000, mas agora mudou de rumo e poderá registrar um aumento de 12% até 2020.

O Japão também abandonou o seu objetivo de chegar a 2020 com um volume de emissões 25% menor que o de 1990.

De sua parte, o Canadá investe muito na exploração das areias alcatroadas que emitem grandes quantidades de dióxido de carbono, uma questão que se tornou um problema político muito delicado para o vizinho Estados Unidos.

Sem consenso sobre as medidas a tomar para conter a mudança climática, talvez não surpreenda que a concentração de dióxido de carbono na atmosfera tenha alcançado um nível máximo histórico.

De fato, na última década, as emissões deste gás contaminante aumentaram de forma continuada a um ritmo de 2,7% ao ano, triplicando a taxa de emissões em relação à década anterior.

Essas estatísticas reforçam a ideia de que somente transformações drásticas na governança política e econômica global serão capazes de conseguir uma mudança de rumo.

“É possível que evitemos o pior da mudança climática e de outros problemas de sustentabilidade como a erosão e o acesso a água doce. Mas, devem ser resolvidos já”, enfatizou Tom Prugh, outro dos diretores do relatório, em entrevista a IPS. “Quanto mais demorarmos, mais irreversível será a pegada que deixarmos no ambiente”, insistiu.

Ineficácia intencional

Muitos observadores vinculam esta demora a uma ineficácia política e econômica construída de propósito há várias décadas.

“Muito antes que a crise climática fosse o maior fracasso de mercado que o mundo tenha visto, foi um enorme fracasso político e governamental”, disse a IPS o professor de estudos ambientais David Orr, da universidade Oberlin College.

Segundo Orr, assessor do presidente Barack Obama, as administrações de Ronald Reagan, nos Estados Unidos, e Margaret Thatcher, na Grã-Bretanha, que contaram com um firme respaldo de economistas conservadores como Friedrich Hayek e Milton Friedman, destruíram o papel do Estado.

O efeito foi particularmente poderoso nos serviços de bem-estar público, como a saúde, a educação e o ambiente.

“A capacidade pública de resolver problemas públicos diminuiu de forma abrupta”, disse. Por outro lado, “o poder do setor privado, dos bancos, das instituições financeiras e das empresas aumentou”, acrescentou.

Para Cordes, do The Nature Institute, a resposta virá do papel que desempenharem as pessoas e as famílias.

“Devemos nos concentrar na questão urgente do como governar nossos países, mas também nossas famílias e a nós mesmos”, explicou. “Está na hora de pensarmos de forma crítica antes de decidir o que compramos, onde trabalhamos e como avaliamos nossa pegada”, acrescentou.

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