06 Mai 2014
Nos últimos anos, os progressistas religiosos vêm sendo a irmãzinha negligenciada em comparação com seu irmão grande, a direita religiosa. O irmão recebe toda a atenção da mídia, enquanto a pequena é ignorada. Ela também fica dando voltas com um chapéu na mão implorando algumas moedas, quando que o irmão grande tem bastante dinheiro para gastar.
A reportagem é de Thomas Reese, jesuíta e jornalista, publicada pelo National Catholic Reporter, 02-05-2014. A tradução é de Isaque Gomes Correa.
Terá futuro a irmã pequena?
Sim, defendem William A. Galston, E.J. Dionne Jr., Korin Davis e Ross Tilchin no texto “Faith In Equality: Economic Justice and the Future of Religious Progressives” [Fé na Igualdade: Justiça econômica e o futuro dos progressistas religiosos], um relatório feito pela Brookings Institution.
Por um lado, a faixa etária está favorável para os progressistas religiosos. Somente 36% dos religiosos conservadores têm menos de 49 anos de idade, em contraste com os 66% dos progressistas religiosos. A maioria dos religiosos conservadores (62%) são baby boomers ou mais velhos. “O que está claro é que a direita religiosa não é a onda do futuro”, escrevem os autores.
Mas eles também admitem que “as desfiliações religiosas em larga escala entre os jovens significa que os progressistas religiosos não têm um ponto de apoio na nova geração comparável aos sentimentos poderosos a favor do conservadorismo religioso entre os americanos mais velhos”.
Ou, como David E. Campbell e Robert D. Putnam explicam no artigo “God and Caesar in America” [Deus e César nos Estado Unidos], para os jovens adultos “‘religião significa ‘republicano’, ‘intolerante’ e ‘homofóbico’. Dado que estes traços não representam a opinião deles, eles não se veem – ou desejam não serem vistos por seus pares – como religiosos”.
O relatório não deixa escapar outros desafios que os progressistas religiosos enfrentam.
Por parte da mídia e em grande parte do público, há a necessidade de superar a identificação do termo “religião” com “conservador”.
Há também tensões relacionadas à religião dentro do Partido Democrata. Os democratas “têm, muitas vezes, a língua presa no que diz respeito à fé e se sentem desconfortáveis em discutir este assunto em público”, escrevem os autores do relatório. Alguns democratas seculares se opõem a qualquer uso de linguagem religiosa.
Há uma ambivalência entre democratas sobre o papel dos progressistas religiosos, embora eles constituam 28% do Partido Democrata. Os autores do texto “Fé na igualdade” observam como financiadores e organizadores progressistas estenderam a mão para os progressistas religiosos durante a eleição de 2008 apenas para, depois, redirecionar seus interesses.
E, apesar do amplo consenso sobre questões de economia entre progressistas religiosos e progressistas seculares, ativistas religiosos falam frequentemente suspeitas e, até mesmo, hostilidade de seus aliados seculares potenciais”, afirma o texto. Parte disso pode ser decorrente do fato de que os progressistas religiosos relutam, muitas vezes, em seguir cegamente a linha partidária sobre certos assuntos, por exemplo: o aborto, a guerra do Afeganistão, o uso de drones.
O declínio dos sindicatos, um aliado e apoiador financeiro dos grupos progressistas, também prejudicou os progressistas religiosos.
Campanhas conservadoras contra o financiamento de certas organizações por parte da Campanha Católica pelo Desenvolvimento Humano igualmente incutiu medo em tais grupos. Eles temem perder o apoio financeiro, caso trabalhem em assuntos econômicos com outros grupos progressistas que podem também apoiar o casamento gay ou o aborto.
Apesar de todos estes problemas, os autores têm esperanças. Afinal de contas, “ao longo de toda a história americana, vozes se ergueram com força – e muitas vezes com bravura – em nome da reforma social”.
Eles indicam as organizações religiosas que trabalham com causas progressistas, incluindo as seguintes: “o Sojourners; o Centro de Ação Religiosa do Judaísmo da Reforma; a Fé na Vida Pública; os Evangélicos pela Ação Social; a Nova Parceria Evangélica para o Bem Comum; a Iniciativa Climática Evangélica; a Coalizão Evangélica Latino-Americana; e a organização Católicos em Aliança pelo Bem Comum”.
Uma menção especial foi feita a agentes comunitários que trabalham com as igrejas, tais como a organização Trabalhadores Inter-Religiosos pela Justiça, a PICO National Network e a Fundação Industrial Areas. Durante a apresentação do relatório no Brookings, a PICO National Network foi apontada como a organização mais efetiva no trabalho junto às igrejas.
Os autores acreditam que a crescente consciência da desigualdade econômica, a eleição do Papa Francisco e a capacidade de os progressistas religiosos em trabalhar como ponte entre crentes e não crentes jogam a favor dos progressistas religiosos.
Os autores dizem que a ideia de “bem comum” como um princípio fundamental pode unir uma ampla coalizão. Tal como diz John Carr da Iniciativa Pensamento Social Católico e Vida Pública, da Universidade de Georgetown, esta ideia pode “fazer levantar as pessoas que são deixadas para trás”.
Para sustentar esta opinião, os autores citam uma pesquisa de julho de 2013, que diz: “Bem mais da metade da classe média (62% dos que ganham de 30 a 50 mil dólares ao ano, e 57% dos que ganham 50 a 100 mil dólares por ano) concordava que o governo deveria resolver a questão da crescente desigualdade de renda”.
Dizem também que não se deve deixar os assuntos relacionados à família como um monopólio conservador. “Precisamos falar sobre a família e sobre como a justiça econômica tem a ver com segurança familiar”, Carr afirma.
Os autores concluem que os progressistas religiosos “nunca irão constituir uma mesma força coesa e relativamente homogênea que o conservadorismo religioso representa”, mas eles “continuarão sendo essenciais aos movimentos em defesa dos pobres, marginalizados e dos americanos da classe média que se encontram sob pressão crescente numa época em que a desigualdade aumenta”.
Os autores escrevem que o ambiente político está mudando a favor dos progressistas religiosos. Acreditam que hoje se parece mais com o período imediatamente posterior à ascensão do movimento pelos direitos civis do que o período antes da ascensão da direita religiosa. No movimento pelos direitos civis, os progressistas religiosos e seculares trabalhavam juntos. Poderá a justiça econômica ser a causa que os unirá novamente?
Vamos esperar que sim.